Cultura

13/01/2020 | domtotal.com

Silvio Santos e os soldados de Getúlio Vargas

Não havia mais tempo para os tempos que fundiam a era de Getúlio com a greve do ABC em 1979

Pediu para que ela cuidasse das crianças, trancasse bem as portas
Pediu para que ela cuidasse das crianças, trancasse bem as portas (Sebastien Le Derout/ Unsplash)

Ricardo Soares*

Eram botas negras e muito bem lustradas que batiam forte no chão. Os soldados de Getúlio Vargas subiram as escadas vigorosamente e socaram a porta do quarto com força. Galeno estava sentado na cama tomando uma canja rala e ouvindo a voz de Sílvio Santos anunciando prêmios na TV. A colher de sopa tremeu na sua mão direita quando o tenente Bandeira anunciou alto a sua prisão. Galeno queria terminar sua canja, queria contar quantas mandiocas ainda haviam nos seus terrenos de Diadema. Não queria ser preso, mas tinha a consciência pesada.

Galeno sabia que estava sendo detido porque não havia dado ouro para o bem do Brasil. Sabia que ia parar na cadeia porque não colaborou com a greve dos metalúrgicos de 1979 em São Bernardo do Campo. Estava fraco e cansado demais para reagir, mas ainda esticou os olhos para um porta retrato ao lado da TV onde via a foto de um menino risonho que supunha ser seu neto. Com o que restava de voz gritou que estava sendo ameaçado de prisão.

Neusa, sua companheira há mais de 40 anos, subiu correndo as escadas, coração na boca e olhos injetados. Passou entre o tenente Bandeira e os seus comandados e abraçou Galeno com força. Não entendeu quando Galeno lhe disse que os soldados de Getúlio queriam lhe prender e virou-se para a porta no exato momento em que o tenente e seus asseclas lhe batiam continência. Mas ela não viu nada. Só enxergava o corredor vazio e as cortinas do quarto de Ana Luz impecavelmente brancas e que balançavam ao vento de um final de tarde escuro. Tinha chuva chegando. E era chuva de verão. O tenente Bandeira já estava ficando impaciente quando Galeno acenou com a mão pedindo que ele esperasse e ordenando a Neusa que preparasse aquela malinha marrom bem pequena pois ele tinha que ir embora fazer uma longa viagem com os soldados de Getúlio Vargas. Pediu para que ela cuidasse das crianças, trancasse bem as portas e “olha, olha bem se as janelas estão fechadas antes de você dormir”.

Depois disso tudo Galeno passou muito pouco tempo acordado. Achava que os trovões eram barulhos dos canhões e acreditava que todo mundo estava sendo preso no quarteirão. O tenente Bandeira esperava porque era um oficial paciente. As vezes até ficava impassível ou olhava seu relógio de ouro no pulso lembrando a Galeno que todos tinham pressa. Não havia mais tempo para os tempos que fundiam a era de Getúlio com a greve do ABC em 1979. O tempo não tolera desobediência e nem mistura dos seus tempos dentro do tempo maior. Dá pra entender né? Não há mais ouro para o bem do Brasil embora Galeno creia que queiram tirar o pouco ouro que tem dentro de sua boca velha com poucos dentes.

Agora por fim ele crê que é um cigano bom que tem ouro na boca e faz Neusa acreditar que casou assim com um sujeito que sempre levanta acampamento quando começa a trovejar no horizonte. Neusa foi então até a porta do quarto e a fechou sem a menor cerimônia na cara do tenente Bandeira. Depois fechou a janela, inclinou-se sobre Galeno e pediu que ele deitasse e recostasse a cabeça sem saber que Galeno tinha apenas mais dois dias de vida. Silvio Santos relinchava na televisão.

*Ricardo Soares é diretor de TV, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros entre os quais 'Amor de Mãe', editora Patuá, 2017

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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