Religião

09/01/2020 | domtotal.com

De tapas e chicotadas

O puxão da moça quase deslocou o ombro do sumo pontífice, que perdeu a santa paciência

O lado da fã fiel é perfeitamente defensável, como também o do idoso Francisco
O lado da fã fiel é perfeitamente defensável, como também o do idoso Francisco (Vatican Media)

Afonso Barroso*

Como aconselha o bom senso, a maneira mais certa de não cometer injustiças é observar os dois lados dos acontecimentos. É o que faço neste momento ao analisar o tapinha-não-dói desferido pelo santo padre na mão de uma mocinha imprudente em plena Praça São Pedro.

O lado da fã fiel é perfeitamente defensável. Ela quer a todo custo puxar o papa para perto de si, abraçá-lo, beijá-lo, mostrar carne com carne a força da sua fé.

O lado do papa também é. Ele se sente agredido. Verdade que é o pontífice, o chefe da Igreja Católica, admirado e até adorado por milhões de pessoas, mas é antes de tudo um ser humano que nem a doce donzela. Em o sendo, irrita-se como qualquer um de nós.

Agora, o meu lado. Subo no muro e dou razão aos dois.

Fico com a mocinha porque ela, tadinha, jamais imaginava que ao segurar firme a mão do papa e puxá-lo com força, com o risco até de deslocar-lhe o ombro idoso, pudesse irritar tanto o santo homem de Deus. Segurou para não soltar, mas acabou levando um tapa na mão. Como culpá-la? Isso eu não fiz nem  farei, de jeito nenhum.

Digo agora por que fico também do lado do papa. Há uma tendência generalizada (ou quase) de demonizar o gesto de Francisco. Há até os que o chamaram de comunista, de representante da extrema esquerda. Isso é maluquice, própria de quem gosta de aproveitar circunstâncias para externar seu radicalismo, este sim, cheio de ódio nada santo.

Não há dúvida de que o papa fez mal ao se irritar daquela forma com a insistência da moça em querer trazê-lo à força para perto dela.

Proponho que voltemos dois mil e tantos anos na História. Vemos ali o senhor Jesus Cristo em determinado momento irritado, tanto quanto ou mais que Francisco. Ele próprio, o filho de Deus, acaba de perder a paciência e expulsa do templo, a chicotadas, uma turma de vendedores ambulantes, que a Bíblia chama de vendilhões. Vejam bem: a chicotadas, e não apenas com uns tapinhas.

Assim como a garota da Praça São Pedro, que queria apenas mostrar a intensidade da sua fé, os comerciantes do templo queriam apenas vender mercadorias num ambiente propício, onde se aglomeravam centenas de potenciais consumidores. Até Jesus aparecer, não era proibido armar barracas no templo nos momentos em que não houvesse cultos ou grupos de orações. Mas Jesus ensinou que não é bem assim. Templo, a qualquer tempo, não é lugar para esse tipo de atividade. Se quiser, vá vender na rua ou no diabo que o carregue. Na casa de Deus e de orações, nem pensar.

Em defesa de Francisco, trago outra atenuante: Jesus por acaso pediu desculpas por ter espancado os vendilhões do templo? Os Evangelhos não relatam esse pedido, sinal de que não houve. O papa, ao contrário, pediu desculpas pelo gesto impensado, que ele considerou um mau exemplo. Logo, deu bom exemplo ao próprio Cristo.

É o que tenho a pensar e dizer sobre o episódio da Praça São Pedro. Se o prezado leitor acha que estou errado, se se sentiu estapeado, faço como Francisco: humildemente, peço desculpas.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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