Religião

10/01/2020 | domtotal.com

Sucessão no candomblé

O período de sucessão é o momento em que uma casa de axé está mais suscetível a rompimentos e cisões

Sucessões são processos extremamente complexos dentro de uma casa
Sucessões são processos extremamente complexos dentro de uma casa (Tiago Celestino/ Unsplash)

Raphael Felipe da S. de Jesus
Rejianne Mendes*

Um dos momentos mais tristes e críticos para uma casa de Candomblé ocorre quando a Iyalorixá ou Babalorixá (mãe ou pai-de-santo) falece, uma vez que leva consigo parte do conhecimento ancestral. O falecimento de Mãe Stella de Oxóssi em 2018 e sua recente sucessão no fim de 2019 por Mãe Ana de Xangô, pode ser utilizado como exemplo para que discutamos o processo de sucessão no Candomblé.

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Por ser uma religião de tradição oral, muito do conhecimento ancestral é transmitido pelos pais e mães-de-santo nas conversas do dia a dia e na prática dos rituais no terreiro. Com a morte da liderança religiosa, inúmeras situações surgem. Há uma óbvia tristeza, consternação e estresse pela morte do(a) líder religioso do grupo, que precisa de todo um ritual fúnebre candomblecista para seu sepultamento. Outra grande dificuldade que aparece com o óbito do sacerdote/sacerdotisa é a vacância de comando da casa. O “trono” da casa passa a não ter mais um(a) ocupante, o que gera uma pergunta/problema para todos os filhos do terreiro: “Como se dará esse processo de substituição?” e “Quem substituirá a Iyalorixá/ o Babalorixá?”.

É a partir da ausência de liderança que começa o processo sucessório em um terreiro. Esse processo pode durar anos e, de uma forma ou de outra, interferirá no futuro da comunidade. Neste sentido, o objetivo deste texto é expor como pode se realizar a sucessão, suas formas específicas e algumas consequências geradas por esse processo.

Logo que a Mãe/Pai de santo morre, todo terreiro entra em estado de luto e se inicia o ritual fúnebre do axexê, onde são feitos rituais no corpo do sacerdote/sacerdotisa antes do sepultamento e, posteriormente, cerimônias de lembrança são realizadas após sete dias, três meses e um ano do falecimento da(o) líder. Todo o processo de um ano compõe o ritual do axexê. Neste período a casa fica fechada e não faz rituais públicos, sendo realizados apenas ritos internos indispensáveis.

Assim que é encerrado o ciclo do axexê, surgem a dúvida de quem liderará o terreiro e como se dará o processo de sucessão. Como cada casa de candomblé é independente e autônoma, não existe apenas uma forma de se escolher a sucessora da casa. E aqui falamos no gênero feminino, pois o protagonismo da mulher no candomblé baiano é histórico e notório, uma vez que algumas das casas mais tradicionais da Bahia são chefiadas por “dinastias” femininas. Isso é tão vasto que nos daria tema para outro artigo. Continuando, a forma de escolha se dará com base nas diretrizes de cada casa: há casas em que a substituta da iyalorixá só pode ser uma de suas filhas carnais (em geral a mais velha) ou alguma parente de sangue (geralmente quando a mãe-de-santo não tem filhas biológicas); já em outras casas, a iyalorixá em vida escolhe e “treina” uma sucessora entre suas filhas de santo, independentemente de parentesco; há casos de casas em que a iyakekerê (mãe pequena, segunda em comando) assume o cargo num período regencial de transição, mas por conveniência é escolhida/mantida pelas demais filhas como a sucessora oficial; casos de iyalorixás escolhidas pela comunidade do terreiro independendo do cargo são mais raros, mas não inexistentes; e os casos mais comuns são de escolha da nova sacerdotisa por parte dos orixás, seja de forma direta (incorporados) ou pelo jogo de búzios (forma mais comum de se escolher a nova mãe).

Além disso, outra diretriz que irá definir o(a) futuro(a) líder pode ser o componente de gênero biológico. Algumas casas têm orientação matriarcal (onde só mulheres podem assumir o cargo, sendo mais comum nas casas tradicionais de ketu na Bahia), em oposição às de orientação patriarcal (onde só homens assumem – em menor número) e as de orientação mista (tanto homens quanto mulheres podem assumir e que é o modo mais comum nos candomblés). As duas diretrizes em conjunto podem ocorrer quando, por exemplo, uma casa tem orientação matriarcal e a iyalorixá seja parente consanguínea da fundadora (caso do Terreiro do Gantois na Bahia). Outras formas de junção das duas diretrizes também são possíveis. 

A sucessão no candomblé tem várias consequências. Nos casos mais brandos, a nova mãe é entronizada e a casa segue seu rumo voltando às atividades e rituais públicos. Entretanto, em processos sucessórios mais conturbados, o fim do ritual fúnebre e a escolha da nova iyalorixá não são sinônimos de paz e é possível que não se encerrem os problemas para uma casa de axé. Na verdade, é comum que eles aumentem. Não é atípico, por exemplo, que a escolha de uma mãe-de-santo gere ciúmes e não agrade todas as filhas de uma casa de axé, gerando verdadeiras batalhas. Segundo Prandi (1991, pag.106) “as sucessões nas casas-de-santo (que têm conseguido sobreviver à morte do chefe) sempre foram conflituosas, desde as primeiras vacâncias do trono da Casa Branca do Engenho Velho, considerado ‘o primeiro terreiro’, por morte de sua iyalorixá”.

Candidatas ao trono preteridas na sucessão podem se sentir injustiçadas, arregimentar um grupo de filhas insatisfeitas como ela, que rejeitem a nova iyalorixá, que juntas saiam do terreiro e fundem uma nova casa sob a liderança da candidata derrotada na casa matriz. O sociólogo salienta que “[...] sempre haverá discordâncias, atritos, rupturas e provável formação de novas casas pelos dissidentes que se afastam desde que o candomblé é candomblé” (PRANDI, 1991, pg. 174). Situações como essas são responsáveis pela fundação de casas como o Ilê Axé Opo Afonjá e o Terreiro do Gantois, oriundos de cisões/cismas ocorridas em processos sucessórios da Casa Branca do Engelho Velho. As duas primeiras casas citadas são fundadas por filhas insatisfeitas com a sucessão na casa-matriz, a Casa Branca, e romperam com esta. É interessante saber que duas das três mais conhecidas casas da Bahia são frutos de processos sucessórios conturbados da casa-matriz mais antiga e amorosa. As relações entre estas três grandes casas baianas foram, por muito tempo, tensas e até mesmo conflituosas (havia inimizade e competição entre elas) por razão desses processos agitados.

Isso serve para ilustrar como é sério e importante o processo sucessório dentro de um terreiro. O período de sucessão é o momento em que uma casa de axé está mais suscetível a rompimentos, cisões, cismas, abandonos e ataques, pois há ausência de comando e disputas internas. É na época do axexê e do processo sucessório que muitas das casas de candomblé se fragmentam e muitas delas não sobrevivem e se extinguem. Processos sucessórios conturbados como os primeiros da Casa Branca são hoje em dia mais raros nas casas tradicionais da Bahia. Uma coisa a ser dita é que processos sucessórios tensos e com rompimentos deixam marcas. Sucessões do Gantois como a de Mãe Menininha do Gantois por Mãe Cleusa Millet e desta por Mãe Carmem de Oxum foram aparentemente mais tranquilas. No Opô Afonjá a escolha de Mãe Stella de Oxóssi, na década de 70, e de sua sucessora, Mãe Ana de Xangô, também foram calmas na medida do possível. No caso da Casa Branca, as sucessões mais recentes não têm gerado cismas como antes e a casa entrará agora em 2020 num novo processo sucessório, pois a atual sacerdotisa Mãe Tatá de Oxum faleceu no fim de 2019, sendo interessante acompanhar como se dará a sucessão nesta casa tão histórica.

Enfim, sucessões são processos extremamente complexos dentro de uma casa de axé e abrem inúmeras possibilidades de análise e interpretação. Envolvem todos os membros de uma casa de axé (de um jeito ou de outro) e nas grandes casas abarcam toda uma comunidade de candomblé, pois é a forma pela qual uma casa se perpetua ou não. Processos mais agitados são mais traumáticos para as casas e geram consequências mais drásticas, que podem levar à extinção do terreiro.


REFERÊNCIAS:

PRANDI, Reginaldo.  Os candomblés de São Paulo: a velha magia na metrópole nova. São Paulo: HUCITEC; Editora da Universidade de São Paulo, 1991.

*Raphael Felipe da S. de Jesus é graduado em Geografia, consulente de centro espírita e mestrando em Ciências da Religião. Rejianne Mendes é graduada em Serviço Social, mestranda em Ciências da Religião e makota no Candomblé de Angola.



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