Religião

10/01/2020 | domtotal.com

A hierarquia como peça fundamental no candomblé

No candomblé, a hierarquia é severa, devendo ser seguida à risca, e o tempo de cada um tem que ser respeitado

O candomblé, sendo uma religião afro-brasileira, lutou muito para sobreviver até os dias atuais e só conseguiu por meio de sua hierarquia
O candomblé, sendo uma religião afro-brasileira, lutou muito para sobreviver até os dias atuais e só conseguiu por meio de sua hierarquia (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Arthur Lamounier Mendonça*

Toda casa de candomblé é regida por regras, organização e principalmente pela hierarquia. Para o bom funcionamento das atividades no nzo (casa) é necessário que a questão hierárquica entre os filhos, pais e mães-de-santo esteja bem definida, pois existem certos rituais e trabalhos que podem ser feitos apenas por pessoas que têm cargos ou postos e, mais importante ainda, aquelas pessoas que passaram por tais rituais e receberam o direito do seu sacerdote para participar.

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O conhecimento no candomblé é passado dos mais velhos para os mais novos. O fator antiguidade tem um grande peso dentro dos terreiros, por isso se faz necessário que alguns devotos tenham um papel de maior autoridade. A escala evolutiva no candomblé, no caso de raiz Angola/Congo, começa pelo ndumbi, o não-iniciado (a); passa pelo (a) muzenza, iniciado (a) que entra em transe e não deu obrigação de 7 anos; a seguir pelo (a) kota, iniciado que entra em transe e já cumpriu os 7 de iniciação; após pela makota, mulher iniciada que não entra em transe e possui um cargo na casa; depois pelo tata kambondu, homem iniciado que não entra em transe e possui um cargo na casa e, por fim, pelo tatetu dia nkisi (Pai-de-Santo/orixá), que é o posto mais elevado na casa, o sacerdote de todos os filhos.

Dentro dessa hierarquia todos precisam trabalhar, não há regalias, quanto maior o cargo, maior o compromisso. Todos os cargos e postos têm o seu papel e importância dentro da dinâmica da casa. Sendo assim, a hierarquia delimita espaços, alinha o grupo, delega funções e responsabilidades, isso evita segregação ou humilhação por exemplo, os mais novos precisam ouvir mais e falar menos. O respeito e a educação devem prevalecer na convivência, o ato de pedir a bnção aos mais velhos é de extrema importância e relevância dentro da comunidade, pois demonstra humildade diante da ancestralidade dos que chegaram antes.

O muzenza de hoje, por meio do jogo de búzios, será informado sobre seu caminho na tradição, caminho que é definido por seu nkisi e pode levá-lo (a) a se tornar um tatetu ou uma mametu dia nkisi de amanhã. Segundo Silva (1998, p.63) corrobora ao afirmar que “O iniciado, ao fechar o ciclo das obrigações, passará a ser chamado de tata Opongo e a mulher, de Ginja. Cumprindo todo o ciclo estará apto, pela dádiva suprema das leis do santé, ao exercício de sua missão espiritual”.   Mas para isso, o iniciado (a) deverá ter passado ou deve passar por etapas de aprendizado, como: conhecer os meandros de cada fase da iniciação, sendo elas as danças e o que representam, as comidas ofertadas a cada nkisi e seus porquês, as jinsaba (folhas) e suas utilidades, os jingoloxi (rezas), o modo de se comportar diante dos mais velhos e o compromisso com os mais novos, dentre outras coisas que fazem parte do cotidiano de uma roça de candomblé, a fim de poder passar esses ensinamentos para os seus futuros filhos-de-santo. Deste modo, reforça-se a ideia de que o candomblé é uma religião que é transmitida pela oralidade, ou seja, onde o aprendizado candomblecista se dá pela escuta, pela observação, na vivência cotidiana, subordinada e orientada pela premissa da hierarquia, no campo dos afazeres religiosos.

 O contrário disso, a insubordinação à hierarquia, dificulta as boas relações entre os filhos e pais e mães-de santo, porque muitos não entendem e não aceitam certas normas impostas pelos jinzo (pl. de nzo). Não se deve levantar a voz, não se deve responder de forma grosseira pessoas mais velhas da religião. Cabe também ao mais velho tratar com carinho e respeito quem acabou de chegar, pois, o ndumbi é o futuro daquela comunidade. Dentro de um nzo pouco importa se você não gosta do tata kambondu ou se você não fala com a makota, da porta para dentro os filhos são obrigados a se respeitarem e pedirem a bênção dos mais velhos. Não há espaço para desavenças e falta de educação, pois o candomblé não é uma religião de caprichos. O papel do tatetu ou da mametu dia nkisi e seus auxiliares, neste caso, é transmitir os ensinamentos de forma clara e precisa, a fim de trazer esclarecimento e compreensão àqueles que querem burlar as regras do terreiro. Dedicar-se ao candomblé é uma prova de resignação, humildade, nobreza e bom caráter. Um iniciado não pode tudo, não importa a posição social, financeira, cor ou sexo. As normas têm que servir a todos e os cargos precisam ser respeitados, já que a hierarquia se institui através da escolha e determinação do jogo de búzios (oráculo), composta pelas pessoas com capacidade para exercer e liderar em cada função da casa para assim ajudar o grupo a conviver de forma pacífica e harmônica, no intuito de que o individualismo, a vaidade, o orgulho e a fofoca não possam ter lugar no contexto religioso candomblecista. Resolver estes problemas é uma tarefa difícil se tratando de relações interpessoais, mesmo que também religiosas, diga-se de passagem.

Existem várias maneiras de identificar os iniciados e membros graduados com cargos durante os rituais abertos ao público. Dentre esses podemos citar como exemplo as roupas, calçados e fios de contas usados no pescoço pelos adeptos. A saber, o ndumbi deve estar sempre com roupas brancas, descalço e com pouquíssimos fios de conta; o muzenza, também descalço e com vestimentas brancas e simples, com poucos paramentos (elementos que indicam sua iniciação, como o mokan (voltas de palha da costa trançadas que vão do pescoço até ao umbigo) e com contas específicas de seu nkisi. Os (as) kotas trabalham calçados, com vestimentas mais elaboradas e coloridas, com uso de rendas, e suas contas são sinônimo de sua idade de iniciado (a) ou cargo. As makotas, que muitas vezes se vestem também de branco, algumas vezes com salto e suas contas são divididas em gomos. Já os tumbondu (pl. de tata kambondu) usam sapatos e boinas e, em sua maioria, se apresentam de roupas ou ternos de cor branca. Ressaltamos que a descrição acima tem como referência o candomblé Angola/Congo, pois há variações de nações e dependendo da tradição, os adeptos se vestem de modo distinto do descrito acima, como é o caso de ekédis (makotas) do candomblé de Ketu que não se vestem sempre na cor branca ou de baianas, mas sim, apaisana.   

A questão hierárquica dentro dos terreiros é cada dia mais difícil de ser mantida, mesmo sendo uma prática que não pode ser quebrada; muitos iniciados, hoje, pulam etapas e, mesmo tendo aprendido pouco do necessário e fundamental, abrem seus terreiros. Se a disciplina e o exemplo não vierem de cima, os mais novos nunca aprenderão, assim deficiências nesse sentido podem acarretar até no fim da comunidade. A hierarquia é severa e deve ser seguida à risca e o tempo de cada um tem que ser respeitado. Os minkisi (pl. de nkisi) juntamente aos tatetus ou mametus (sacerdotes ou sacerdotisas) determinam o avanço em cada etapa dos neófitos. O povo de candomblé usa o ditado: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Aquele que sai do trilho tem suas consequências, não se trata de ter medo, trata-se de respeito; outro ditado também muito utilizado é: “aprenda e depois você manda”. Estas são leis religiosas ensinadas na prática e na teoria pelos mais velhos. Não existem atalhos.

Em síntese, o candomblé, sendo uma religião afro-brasileira, lutou muito para sobreviver até os dias atuais e ele só conseguiu isso por meio de sua hierarquia. Uma hierarquia que pode ser entendida como uma peça fundamental para construção, ressignificação e legitimação dos saberes tradicionais afro-brasileiros, a qual preza pela ordem, método, disciplina e preservação dessa cultura e seus segredos litúrgicos.


Referências:

SILVA, Ornato José da. Iniciação de Muzenza nos cultos bantos. Rio de Janeiro: Pallas, 1998.

*Arthur Lamounier Mendonça é tata pokó no Inzo Tabaladê Ria Nkosi e estudante de Ciências Sociais.



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