Religião

08/01/2020 | domtotal.com

Metodistas planejam cisma sobre casamento gay

Processo de separação é semelhante ao que foi entre as igrejas sobre posicionamento acerca da escravidão

Exterior da Primeira Igreja Metodista Unida de Chicago
Exterior da Primeira Igreja Metodista Unida de Chicago (Terrence Antonio James/Zuma Press/PA Images)

Ruth Gledhill
The Tablet

A Igreja Metodista Unida nos Estados Unidos debaterá sua divisão, depois que membros e ministros não conseguiram resolver suas diferenças sobre o casamento e a ordenação de pessoas homossexuais.

Representantes da Igreja de ambos os lados do debate sobre a sexualidade humana elaboraram um Protocolo de reconciliação e graça através da separação, de oito páginas. Esse documento tem caráter de legislação se for submetido e aprovado na Conferência Geral deste ano. Dessa forma, instituir-se-ia um cisma formal da Igreja Metodista.

A divisão de ativos já foi acordada. Supondo que isso aconteça, cada congregação da denominação metodista, que tem mais de 13 milhões de membros em todo o mundo, com cerca da metade deles nos EUA, terá que votar se desejar ingressar na nova Igreja Metodista conservadora resultante da divisão.

O plano levará à formação de uma nova denominação metodista tradicionalista, que receberá 25 milhões de dólares nos próximos quatro anos pela Igreja Metodista Unida pós-divisão.

Em uma declaração, o Conselho Episcopal da Igreja disse que a ação "ocorre em meio a tensões elevadas na Igreja devido a pontos de vista conflitantes relacionados à sexualidade humana". Uma tentativa de resolver os problemas em uma sessão especial da conferência no ano passado terminou em fracasso.

O maior apoio a uma direção progressista vem dos metodistas dos EUA, com uma maior parte de opositores originários de países do Sul global, uma demografia religiosa também refletida nos debates da Comunhão Anglicana sobre os mesmos assuntos.

O grupo de 16 membros que elaborou o protocolo usou técnicas de mediação e resolução de conflitos antes de finalizar os novos planos, com conselhos gratuitos prestados pelo advogado Kenneth Feinberg, que atuou como mestre especial do Fundo de Compensação às Vítimas do 11 de setembro e também como administrador do Fundo de Compensação de Vítimas em Desastres da BP Deepwater Horizon.

O protocolo declara: “Os abaixo-assinados propõem a reestruturação da Igreja Metodista Unida pela separação como o melhor meio de resolver nossas diferenças, permitindo que cada parte da Igreja permaneça fiel ao seu entendimento teológico, reconhecendo a dignidade, a igualdade, a integridade e o respeito de toda pessoa".

O protocolo é assinado por representantes da Europa, da África, das Filipinas e dos EUA.

Os bispos disseram: "Mais de 2 milhões de dólares seriam alocados para novas denominações metodistas adicionais que possam surgir da Igreja Metodista Unida. Reconhecendo o papel histórico do movimento metodista na violência racial sistemática, a exploração e a discriminação, o Protocolo alocaria 39 milhões de dólares para garantir a não interrupção no apoio às pastorais para comunidades historicamente marginalizadas pelo racismo.

"De acordo com o Protocolo, conferências e congregações locais poderiam votar para se separar da Igreja Metodista Unida e dessa forma se afiliarem a novas denominações metodistas criadas sob o contrato dentro de um determinado período de tempo. As igrejas que desejam permanecer na Igreja Metodista Unida não precisam exigir uma votação. Existem disposições para entidades que optam por se separar para reter seus ativos e passivos".

Enquanto isso, declara o Protocolo, "todos os processos administrativos ou judiciais que tratem de restrições no Livro de disciplina relacionados a homossexuais praticantes e autoconfessos ou que vivam em casamentos do mesmo sexo serão mantidos em suspenso".

Falando em nome do grupo, o bispo John Yambasu, da Serra Leoa, disse: “Todos nós somos servos da Igreja e compreendemos que não somos os principais protagonistas na toma de decisão sobre esses assuntos. Em vez disso, humildemente oferecemos aos delegados da Conferência Geral de 2020 o trabalho que realizamos na esperança de que ajude curar os danos e conflitos dentro do corpo de Cristo e nos liberte para sermos testemunhas mais eficazes do Reino de Deus”.

O plano de cisma foi recebido com comentários de ambos os lados no Twitter. Ibram Kendi, diretor do Centro Antirracismo em Washington, tuitou: "Isso me faz lembrar o tempo em que as denominações cristãs se dividiram sobre a escravidão antes da emancipação. Como são, hoje, as novas denominações da escravidão? Da mesma maneira que aparece hoje com os chamados metodistas tradicionalistas, aparece e certamente aparecerá daqui a 100 anos".

Andrew T. Walker, professor do Seminário Batista do Sul, tuitou: "Embora trágico, isso é inevitável e necessário. Fidelidade e infidelidade não podem coexistir. Não são os ‘tradicionalistas’ que estão sendo cismáticos. Aqueles que abandonam as Escrituras, a razão, a natureza, e a história são os que trazem a divisão".


Publicado originalmente em The Tablet



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