Cultura TV

10/01/2020 | domtotal.com

Réquiem para a TV

Para entender a TV é necessário entender seus bastidores e, sobretudo, de onde vem o dinheiro

Além de mal-acostumada com sua antiga opulência, a TV ainda enfrenta a concorrência dos nossos celulares
Além de mal-acostumada com sua antiga opulência, a TV ainda enfrenta a concorrência dos nossos celulares (Ann Kathrin Bopp/ Unsplash)

Fernando Fabbrini*

Comecei minha vida profissional numa emissora – e dei sorte. Na época, a TV Cultura de SP inovara as rotas da comunicação útil, responsável e inteligente. Havia uma brilhante produção de alto nível que se espalhava pelo Brasil. Nos anos 80, além da tele-educação valiosa e das novelas inesquecíveis, a TV produziu maravilhas como Vila Sésamo, Vinicius para crianças, Balão mágico. Infelizmente, logo depois surgiu a Xuxa e, com ela, uma guinada rumo ao despenhadeiro. Na sequência, as TVs educativas viraram cabides de emprego com viés ideológico e demagogo nos governos petistas. Fim.

Já a TV comercial brasileira não é “educativa” nem no mais modesto e esperançoso sentido da palavra. Pelo contrário: basta reparar que novelas, shows e atrações populares são sempre programadas para o chamado horário nobre – momento em que a família incauta se assenta no sofá. A TV ainda carrega parte da culpa de influenciar a garotada na busca ansiosa (ia escrever “doentia”) da felicidade baseada nos delírios de uma vida leviana, egoísta e de aparências – aquilo que temos de pior por aí.   

Para entender a TV é necessário entender seus bastidores. De onde vem a grana para produzir, pagar pessoal e investir? Da publicidade, claro. São os anunciantes que bancam os cenários dos shows e os contracheques dos repórteres. Com a recessão brava da economia essa fonte foi secando. Faltavam investimentos na indústria e respectivos comerciais de produtos, por exemplo. Enquanto isso, políticos, entidades, artistas e protegidos afinados com o poder enchiam os bolsos no suspeitíssimo manancial dos privilegiados.

Minguaram anunciantes. Mesmo assim, com a cumplicidade interesseira das agências de propaganda, as TVs não se apertaram muito. No Brasil, temos ainda o grande filão: campanhas pagas com dinheiro público, uma aberração inaceitável em muitos países. Através delas, segmentos dos poderes executivo, legislativo e judiciário mantiveram (e ainda mantêm) relações repugnantes com as emissoras - troca de interesses, politicagem, manipulação e, em alguns casos, até desvio “legalizado” de verbas.

Agora, deu zebra. O novo governo fechou a torneira da publicidade oficial. Não se vê mais aquela enxurrada de anúncios do Banco do Brasil, Caixa, BNDEs ou Petrobrás. Em regime de fome, a televisão no Brasil se adaptou ao marketing da sobrevivência; montou uma vitrine escandalosa para vender a si mesma a qualquer custo. Será uma mudança difícil. Além de mal-acostumada com sua antiga opulência, a TV ainda enfrenta a concorrência dos nossos celulares – fantásticos e portáteis receptores e emissores de informação.  

No sufoco, em compasso de espera e sem as verbas oficiais, a TV sofre de síndrome de abstinência. Se desce o cacete no governo atual, faria a mesma coisa com qualquer outro pela mesma razão.  

TV não tem ideologia. Seu trabalho diário consiste em pesquisar o que está rolando no imaginário nacional e tentar agradar o povo com novelas, shows, documentários e principalmente notícias. Como esperado, educação e conhecimento continuam a passar pelo filtro das conveniências. Já violência, feminicídio, minorias, massacres, traficantes, extermínios, drogas – essas coisas da moda – podem e devem ser exploradas sempre, segurando a audiência.

Prepare-se. Se a morte de uma arara na Amazônia despertar comoção nacional generalizada, tenha certeza: virá aí a nova novela Sem pena.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal 'O Tempo'

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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