Religião

10/01/2020 | domtotal.com

Matriarcado, hierarquia e sucessão no candomblé

Alvo de preconceito, candomblé é ainda uma religião desconhecida para a maior parte dos brasileiros

Candomblé tem variações consideráveis de terreiro para terreiro
Candomblé tem variações consideráveis de terreiro para terreiro (Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil)

Felipe Magalhães Francisco*

O candomblé pôde ser melhor conhecido depois da atuação de Mãe Stella de Oxóssi no seu tempo de Ialorixá do Ilê Opó Afonjá, na Bahia. Essa atuação foi importante para darmos passos significativos na superação da intolerância religiosa. É certo que ainda há muito o que ser feito. De maneira bastante respeitosa com sua própria tradição, que tem na oralidade um de seus pontos mais fortes, Mãe Stella tornou possível que o público externo à religião pudesse conhecer parte da riqueza dessa tradição. Na ocasião de sua morte, em todos os lugares do país se pôde perceber comoção. É verdade, também, que foi ocasião em que se tornou explícito o preconceito religioso por parte de fiéis de outras tradições religiosas.

Tão logo se deu a notícia do falecimento de Mãe Stella, a mídia se ocupou em abordar as questões do tempo de luto, acompanhado dos rituais – o axexê – bem como do processo de sucessão na liderança do terreiro. Agora, passado um ano do falecimento e do devido tempo e ritual de luto, o Ilê Opó Afonjá voltou às notícias, quando da ocasião do processo de sucessão que se deu a alguns dias. Para a liderança, agora, os búzios revelaram Ana de Xangô, escolhida como a nova sacerdotisa do Afonjá.

Para quem se interessa pelas temáticas religiosas, algumas questões surgem sobre essas ritualidades e costumes que, de fato, são bem interessantes. Para além das questões rituais, ligadas à sucessão, nosso Dom Especial desta semana se dedica a refletir a respeito de temáticas importantes, que revelam uma diferença substancial do candomblé para outras religiões. A maior parte das religiões instituídas são lideradas apenas por homens, apesar de no cristianismo, por exemplo, a imensa maioria de fiéis ser mulher. No caso das religiões afro-brasileiras, mulheres podem assumir papéis de liderança, alcançando os serviços mais altos na hierarquia.

Por não ser uma religião organizada por textos sagrados, o candomblé tem mais fluidez, permitindo variações consideráveis de terreiro para terreiro, bem como das tradições das quais se originaram. Os textos que compõem esta matéria abordam essa questão, mostrando que os temas ligados à sucessão, por exemplo, variam de tradição para tradição. É importante ressaltar que essa variedade se manifesta como uma verdadeira riqueza para a tradição, que acaba por ganhar contornos bastante expressivos e significativos, sem perder o fio que as une às suas origens. A hierarquia, por exemplo, é um desses fios que ajudam a garantir a continuidade da tradição, como veremos.

Protagonismo feminino – que aqui estamos chamando de matriarcado, propositalmente – hierarquia e sucessão são os temas que formam nossa reflexão nesta semana, a partir do candomblé, esta religião ainda tão desconhecida para a maior parte dos brasileiros e brasileiras. No primeiro texto, A hierarquia como peça fundamental no candomblé, de Arthur Lamounier Mendonça, leva-nos um percurso pedagógico de compreensão de como se estrutura essa religião, a partir das relações entre os membros, salvaguardadas pelas lideranças. Refletindo sobre a sucessão, assunto que deu origem a esse Especial, temos Rafael de Jesus e Rejianne Mendes, com o artigo Sucessão no candomblé, no qual mostram as possibilidades de escolha de nomes para a sucessão nos cargos de comando dos terreiros, mostrando até mesmo os riscos e fragilidades nesse processo. Por fim, Guaraci Santos nos propõe o artigo O protagonismo feminino nos candomblés, resgatando a importância do feminino nos primórdios da humanidade e que são possíveis de serem percebidos atualmente, nas lideranças femininas, ligadas a importantes Orixás relacionadas às origens, nas casas de candomblé.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

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