Meio Ambiente

11/01/2020 | domtotal.com

Incêndios na Austrália podem ser fatais para algumas espécies de animais

País já teve a maior taxa de extinção de mamíferos e teme extinções localizadas. Nesta sexta (11), dois incêndios se uniram formando mega incêndio

Cavalo tenta fugir das chamas próximas a cidade de Nowra, no Estado de Nova Gales do Sul - 31/12/2019
Cavalo tenta fugir das chamas próximas a cidade de Nowra, no Estado de Nova Gales do Sul - 31/12/2019 Foto (AFP)
Canguru recebe carinho depois de resgatado de um dos focos de incêndio
Canguru recebe carinho depois de resgatado de um dos focos de incêndio Foto (AFP)

Quando a voluntária Sarah Price encontrou um canguru bebê muito assustado, mas milagrosamente vivo na bolsa da mãe moribunda, em meio aos incêndios que devastam o sudeste da Austrália desde setembro, parecia apropriado chamá-lo de "Luck" (sorte em inglês).

Mãe e filho conseguiram fugir das chamas, mas horas depois, a mãe morreu de estresse agudo e se juntou aos bilhões de animais que pereceram nos incêndios desde setembro.

"Luck" foi instalado em uma bolsa artificial em um quarto escuro e está se recuperando lentamente.

Bebe água com frequência. Sua história é uma das poucas que tiveram um final feliz, em meio ao desastre que choca até os voluntários acostumados aos incêndios de verão na Austrália.

"O número de animais resgatados ou que precisam ser cuidados não é o que tínhamos previsto", declarou Price, que trabalha para o grupo de resgate da vida selvagem WIRES.

Imagens devastadoras de coalas, gambás e cangurus com partes do corpo queimadas viajaram pelo mundo e se tornaram o símbolo de um país atingido pelos efeitos das mudanças climáticas. Acredita-se que animais menos visíveis, como sapos, insetos, invertebrados e répteis também foram severamente afetados.

Especialistas alertam que os animais que sobrevivem também devem lutar para permanecer vivos.

"Muitos dos animais morrem após o incêndio devido à falta de comida e abrigo ou são comidos por outros animais", disse Mathew Crowther, professor da Universidade de Sydney.

No estado de Victoria, onde a temporada de incêndios apenas começou, os veterinários dizem ter visto coalas, pássaros, cangurus e gambás com queimaduras graves e problemas respiratórios.

"Muitos tiveram que ser sacrificados, outros foram salvos e poucos retornaram ao habitat natural remanescente", informou uma porta-voz dos zoológicos de Victoria.

Holocausto da vida selvagem

A Austrália já teve a maior taxa de extinção de mamíferos do mundo e teme-se que os incêndios florestais também causem extinções localizadas.

"As populações de cangurus geralmente tentam se agrupar. Quando retornam, obviamente, a grama não é mais verde, a folhagem não está mais lá, os arbustos desapareceram, as árvores queimaram", lamenta Price.

Um terço da Ilha Kangaroo, um paraíso para animais na costa do sul da Austrália, foi arrasado e algumas espécies únicas na área podem ter desaparecido.

"Ainda restam poucos habitats para muitas espécies. Isso pode causar extinções locais", explicou à rede ABC australiana John Woinarski, do Centro de Recuperação de Espécies Ameaçadas, um programa público para proteger a vida selvagem.

Os incêndios estão sendo uma espécie de "holocausto" para animais, acrescentou.

Por exemplo, calcula-se que metade da única população de coalas da Austrália, que vivia na Ilha Kangaroo, esteja morta ou gravemente ferida.

Por outro lado, o rato marsupial da ilha já estava na lista das dez espécies mais ameaçadas e agora está em perigo de extinção.

O professor da Universidade de Sydney, Chris Dickman, acredita que seus cálculos, que afirjam que um bilhão de animais morreram, "são muito conservadores".

Segundo o professor, o que acontece na Austrália é apenas o prelúdio dos impactos que as mudanças climáticas podem gerar em outras partes do mundo.

O professor Crowther considerou que após o incêndio várias espécies deverão ser protegidas para evitar sua extinção.

Além disso, as florestas queimadas levarão décadas para se recuperar e os especialistas estimam que serão necessários investimentos consideráveis para restaurar habitats e dar a animais como "Luck" uma chance de sobreviver.

Megaincêndio

Ventos fortes causaram, nesta sexta-feira (10), a fusão de dois grandes incêndios no sudeste da Austrália, transformando-os em um incêndio gigantesco que assola um território equivalente a quatro vezes a superfície da cidade de Nova York, enquanto milhares de manifestantes exigiam ações contra as mudanças climáticas.

"As condições estão difíceis hoje. Os ventos quentes e secos são novamente um verdadeiro desafio", disse o chefe dos bombeiros na zona rural de Nova Gales do Sul, Shane Fitzsimmons, depois de alguns dias de relativa calma.

A Austrália sofre, deste setembro, uma crise catastrófica de incêndios florestais.

Como se temia, as temperaturas subiram nesta sexta-feira para 40°C em várias partes de Nova Gales do Sul e no vizinho Victoria. O estado de catástrofe natural foi prolongado na quinta-feira por 48 horas em Victoria, devido às altas temperaturas esperadas para esta sexta.

Várias ordens de evacuação foram emitidas para os moradores das áreas de fronteira entre os ambos os estados.

A primeira-ministra de Nova Gales do Sul, Gladys Berejiklian, disse que há mais de 130 incêndios em seu estado, dos quais cerca de 50 ainda estão fora de controle.

A situação também é particularmente preocupante na Ilha Kangaroo, no sul da Austrália, cuja maior cidade, Kingscote, está isolada do resto do mundo, devido aos enormes incêndios.

Particularmente precoce e violenta, a temporada de incêndios já causou 26 mortes na Austrália, reduziu a cinzas uma área equivalente à da ilha da Irlanda (80.000 km2) e destruiu mais de 2.000 casas.

Especialistas da Universidade de Sydney acreditam que a catástrofe matou um bilhão de animais, um balanço que inclui mamíferos, pássaros e répteis.

Estas condições de prolongada seca, agravada pela mudança climática, podem gerar, segundo os especialistas, incêndios mais frequentes e intensos. Em 2019, a Austrália teve seu ano mais quente e seco, com a mais alta temperatura máxima média já registrada em dezembro: 41,9ºC.

Manifestações

Em Sydney e em Melbourne, milhares de pessoas saíram às ruas para exigir que o governo conservador da Austrália faça mais para combater as mudanças climáticas globais e reduza as exportações de carvão.

"Mudança de políticas, não de clima", dizia uma das faixas dos manifestantes, refletindo a crescente conscientização sobre mudança climática gerada pelos incêndios devastadores.

Alguns observadores apontam, contudo, que há uma campanha de desinformação "sem precedentes" na história do país pelas redes sociais. Seu objetivo: desconsiderar o efeito das mudanças climáticas sobre os incêndios e atribuí-los a uma origem criminosa, assim como aos recordes de seca e às altas temperaturas.

A hashtag #arsonemergency ("emergência incêndio criminal") é usada em profusão. Certas mídias, sites e políticos conservadores defendem a ideia de origem criminosa dos incêndios.

"Há um esforço conjunto para desinformar o público sobre as causas dos incêndios florestais", afirma o especialista em mídias digitais, Timothy Graham, da Universidade de Tecnologia de Queensland.

O primeiro-ministro Scott Morrison tentou, nesta sexta-feira, evitar as perguntas dos jornalistas sobre se a mudança climática poderia transformar em norma os terríveis incêndios desta temporada.

"Olha, já conversamos sobre isso várias vezes", respondeu Morrison, acrescentando que as avaliações relevantes serão feitas quando a temporada de incêndios terminar.


AFP

EMGE

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