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13/01/2020 | domtotal.com

Um texto brilhante e 'você'

Em 'Você e suas circunstâncias', o leitor se torna o personagem principal das histórias

Quando Artur se entregava a uma criação, pensava, pensava e pensava diante da máquina de escrever
Quando Artur se entregava a uma criação, pensava, pensava e pensava diante da máquina de escrever (Rafaela Biazi/ Unsplash)

Afonso Barroso*

Com a morte meio que prematura de um amigão chamado Artur Eduardo, esgotou-se na propaganda (e nas letras) uma fonte de textos primorosos. Artur não era só um excepcional redator de publicidade, brilhante na criação de anúncios e comerciais de tevê. Era também um contista e cronista comparável aos melhores do gênero no País.

Está bem aqui, na minha frente, o livro de crônicas ao qual ele deu o título de Você e suas circunstâncias. São textos na maioria breves em que ele faz do leitor o personagem principal. Tanto que todos têm Você no título.

Começa com Você e seu ectoplasma. Engraçadíssimo. Imagine seu ectoplasma se desprendendo e deixando que seu corpo aja à deriva, sem o freio do raciocínio e o acelerador da sensatez. É o que acontece com um ex-futuro pequeno empresário (Você, naturalmente) no balcão de uma repartição pública, em busca de alvará para abertura da sua firmazinha.

Tem a historinha em que você e dois amigos estão passando um fim de semana no sítio do tio de um deles. Relaxados, fumam baseados na varanda. De repente veem um disco voador descer e pousar num descampado, a menos de um quilômetro. Fica um momento e depois alça voo e desaparece no céu. Você e seus amigos se entreolham um tanto assustados e decidem não contar pra ninguém, uma vez passados os efeitos da canabis. Como têm fama de malucos, “melhor não acrescentar disco voador no currículo”.

Termina, 143 páginas depois, com Você e sua namorada prosaica. É quando você , um intelectual superdotado em matéria de conhecimentos literários e científicos, bate papo com sua namoradinha bonita, deslumbrada e ignorante. Conquista-a. Pena que ela seja tão prosaica.

Ao longo das historinhas hilariantes, todas contadas num estilo tão despojado quanto criativo, você se sente preso inexoravelmente, sem vontade de terminar a leitura. De repente, topa com Você e a Sena acumulada ou Você e o coelho atrasado ou Você e o flagrante sexual e mais uma centena e meia de vocês que o farão rir a bandeiras despregadas, como diziam os antigos senhores que vieram séculos antes de você .

Quem conviveu com o Artur não imaginava que pudesse ser um sujeito tão engraçado como revelam seus contos e crônicas. Não sabia contar piadas, e nem se arriscava a contar. Mas ria com vontade quando ouvia alguma inteligente. Era do tipo ensimesmado, de pouca conversa e muita agilidade mental. Quando se entregava a uma criação, pensava, pensava e pensava diante da máquina de escrever. Se parava de pensar, era hora de botar no papel um texto enxuto, inteligente e altamente criativo. Quando saíamos pra tomar umas e outras, ele avisava: Vocês falam, eu bebo. Porque o que sabia mesmo era escrever. E como! Era magro, quase franzino, mas bebia que era uma fartura. Lamento por você se não o conheceu.

Deixou saudade o Artur. E além da saudade, deixou Você e suas circunstâncias, o livrinho de crônicas e minicontos que releio todo santo dia em memória dele.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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