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13/01/2020 | domtotal.com

Ainda não é desta, a III Guerra Mundial

Morte de Suleimani é apenas mais uma peça do quebra-cabeça de conflitos do Oriente Médio e intervenção ocidental

É num quadro dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse – pestilência, guerra, fome e morte – que o iraniano Suleimani é abatido pelos norte-americanos no Iraque
É num quadro dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse – pestilência, guerra, fome e morte – que o iraniano Suleimani é abatido pelos norte-americanos no Iraque (Specna Arms/ Unsplash)

José Couto Nogueira*

No dia 3 de janeiro, um drone norte-americano abateu Qassem Suleimani, comandante das tropas de elite do Irã, al-Quds, no aeroporto de Bagdá. Avaliadas as repercussões à velocidade da Internet, no dia 4 de janeiro já se falava na III Guerra Mundial. Premonição ou paranoia?

As primeiras questões que naturalmente se põem são quem era este Suleimani, de que só os especialistas tinham ouvido falar; e porque é que a sua morte pode provocar um conflito mundial? Afinal de contas, morrem diariamente incontáveis soldados de todas as patentes, para não falar nas situações de guerra latente a que já nos habituamos, como a da Índia/Paquistão, ou de guerra localizada a que já nem prestamos atenção, como a do marechal Khalifa Haftar contra o Governo Líbio.

Antes de mergulhar na confusão inextricável que é o Sudoeste Asiático, convém talvez separar as águas, como Moisés fez para os israelitas atravessarem o Mar Vermelho – que por acaso também lá ficam. Mas não é preciso recuar aos tempos bíblicos; basta começar em 1916. Enquanto decorria a I Guerra Mundial, a Grã-Bretanha, que entrava sem o saber no declínio do seu Império, resolveu acabar com a ocupação da Península da Arábia pela Turquia, aliada da Alemanha. Ingleses e franceses fizeram um tratado secreto, chamado Sykes-Picot, em que dividiram os territórios que os turcos iriam perder.

Resumindo num parágrafo o que levaria resmas a contar, esses territórios foram atribuídos às populações árabes, que logo a seguir se revoltaram e, por volta da década de 1920-30 se tornaram independentes, sob as casas reinantes das tribos locais (Algumas já tinham sido reinos independentes antes do avanço do Império Otomano, mas isso agora não vem para o caso). Embora os europeus tivessem prometido e incentivado um Estado único para toda a península, a rivalidade entre as tribos tornou a proposta inviável. Uma coisa que não prometeram foi a re-criação dum estado judeu, e este “pormenor” iria estar na origem de muitos problemas

Temos então uma primeira situação, que é a existência de vários países com fronteiras criadas a régua e compasso por europeus que nunca lá tinham posto os pés; e temos a interminável divisão dos islamistas entre chiitas e sunitas, além das infinitas rivalidades tribais. Sob este pano de fundo de fino recorte surge o Estado de Israel, resultado da imigração dos judeus para a terra que tinham abandonado há séculos. A área era dos ingleses, mas, finda a II Guerra Mundial, os judeus começaram a ir para lá aos milhares e correram com os ingleses à bomba (literalmente). Contudo, e aqui está uma das razões do mal-estar entre árabes e europeus, as tribos, que discordavam em tudo, só concordavam em duas coisas: que os judeus não tinham direito a voltar para a península, e que os ingleses os tinham traído, ao prometer que isso não aconteceria, para depois deixar acontecer.

Nesta situação há que incluir os dois Estados que, não estando na península, sempre a consideraram como sua: a Turquia, que a perdeu na I Guerra Mundial, e o Irã, que a perdeu para Alexandre o Grande (quando ainda se chamava Pérsia) e deste então não desistiu de a recuperar.

Resumindo, o pano de fundo é estados árabes desavindos, dois impérios com ambições expansionistas, duas versões da mesma religião que se odeiam de morte, e uma terceira religião que as outras não suportam.

Sobre esta bela fogueira só é preciso atirar petróleo (e petróleo é o que não falta) para passar duma situação explosiva para uma explosão contínua. Não poderá jamais haver acordo – e muito menos paz – entre esta coleção de antagonismos religiosos e étnicos, e interesses econômicos.

Pintado o cenário, passemos aos fatos. A questão do petróleo – que certos analistas consideram o único fator a ter em conta. Não é nova e já teve outros protagonistas. Quando Churchill decidiu que a armada britânica deveria usar motores a gasóleo em vez de caldeiras de carvão, isto na época da I Guerra Mundial, os estrategas avisaram-no para o problema estratégico: a Grã-Bretanha tinha carvão à vontade e nenhum petróleo, pelo que ficaria dependente doutros territórios para fazer navegar a sua imensa frota. Sendo uma potência imperial, isso não seria um problema; como sempre tinham feito, os ingleses simplesmente iriam buscá-lo onde fosse preciso, por todos os meios necessários (Data dessa altura do “protetorado” britânico na Pérsia, que viria a ter consequências até hoje, como se verá. Já agora, a Pérsia passou a chamar-se Irã em 1935.)

Terminada a II Guerra Mundial, os norte-americanos substituíram os ingleses como Império dominante – com interesses e necessidades semelhantes. Duas situações interessavam a Washington em relação ao Sudoeste Asiático; as maiores reservas de petróleo do mundo e a existência de Israel (cujo lobi nos Estados Unidos é onipotente).

Em 1951, quando os ingleses já pouco mandavam na região, o Irã, reinado da dinastia Pahlavi, pró-ocidental, elegeu democraticamente o primeiro ministro Mohammad Mosaddegh, com um programa de nacionalização dos recursos petrolíferos. A CIA encarregou-se de depor Mosaddegh, num golpe que deu origem ao violento anti-americanismo que até hoje ficou no DNA dos persas.

Continuando a simplificar uma História que daria volumes com peripécias pouco edificantes de todas as partes envolvidas, chegamos à década de 1980. No Iraque, o rei há muito foi deposto e quem manda agora é Saddam Hussein, um árabe pouco religioso, mais preocupado com os seus interesses do que com a aborrecida hostilidade entre chiitas e sunitas. Turquia, Iraque, Síria, Líbano e Egito são países populosos com governantes “civis”, enquanto os vários emirados e reinos que completam o puzzle geográfico da região são reinos teocráticos. Todos vivem de vender petróleo aos Estados Unidos e à Europa e de vez em quando atacam Israel, que ganha todas as guerras. Assim, o negócio é vender aos americanos, e o espírito é odiá-los. Saddam, sunita agnóstico, não vê com bons olhos a revolução chiita fundamentalista no Irã, que depôs o Xá Pahlevi pró-americano e criou uma república teocrática. Entre 1980 e 1988 o Iraque e o Irã massacraram-se numa guerra sem saída, até que, exaustos, concordaram numa paz patrocinada pelas Nações Unidas.

Saddam, sempre irrequieto, sempre expansionista, cometeu então o maior erro de cálculo da sua vida: em 1990 invadiu o Kuwait, pequeno em território e grande em petróleo, pensando que os Estados Unidos, que o tinham municiado na guerra contra o Irã, não se importariam. Mas os americanos, vendo um padrão de perda de fontes petrolíferas em crescimento, atacaram o Iraque. O presidente da altura, Bush pai, percebendo que Sadam era um excelente contentor do fundamentalismo expansionista do Irã, optou por derrotá-lo, mas não o depôs. Portanto continuou tudo na mesma, com a diferença que os Estados Unidos criaram mais um inimigo na região e uma grande presença militar.

Avancemos para 2003. O presidente agora é Bush filho, um sério contendor para o título de pior presidente dos Estados Unidos de todos os tempos e o autor do maior disparate dos tempos modernos. Na ressaca do ataque às Torres Gêmeas de 2001, do qual Sadam não tinha nada a ver, invadiu o país e transformou-o num estado falhado, campo de batalha entre sunitas e chiitas iraquianos e de todos os países em volta. Deu, também, espaço ao Irã para se expandir.

Desde a derrota do Iraque (e enforcamento de Sadam) até hoje, a história é demasiado complicada e confusa demais para se poder resumir em espaço útil. É mesmo impossível de compreender, dada a ilógica dos interesses em confronto, umas vezes aliados, outras aguerridos. O Iraque nunca mais voltou a ser um país governável. A Síria tornou-se num campo de chacina entre o Governo de Assad e vários grupos de rebeldes, uns apoiados pela Turquia, outros pelos Estados Unidos, outros ainda pelo Irã. Assad só se salvou recorrendo à Rússia, que assim fez a sua entrada no ninho das víboras, bombardeando tudo o que mexe, hospitais inclusive, para defender o seu novo amigo. Vindo do nada, surge um Estado Islâmico sunita radical, o Califado Islâmico, comendo território à Síria e ao Iraque. A confusão proporciona o aparecimento dum proto-estado curdo entalado entre os dois países e a Turquia. Os norte-americanos, que nunca foram muito competentes em geo-estratégia, aliam-se ora a uns, ora a outros, sem conseguir nenhum objetivo – na verdade, sem ter nenhum objetivo (Ao contrário do que corre persistentemente, já não é o petróleo. Hoje os Estados Unidos produzem petróleo que lhes chega e ainda têm fornecedores seguros, como a Arábia Saudita). Finalmente, com a eleição de Trump, encontram esse objectivo: sair da região logo que possam – mas não conseguem, porque criaram compromissos, alianças e inimizades que os mantêm alapados nas suas bases.

É neste quadro dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse – pestilência, guerra, fome e morte – que o iraniano Suleimani é abatido pelos norte-americanos no Iraque. Agora já sabemos quem ele era. O segundo homem mais importante do Irã, um militar não religioso cujo papel, nestas últimas décadas, tem sido semear a confusão na região, com o fim último de tornar o seu país dominante. Criou milícias, fomentou revoltas, combateu o Estado Islâmico (aliado aos EUA...), ajudou à confusão no Líbano, desestabilizou a Síria, quase tornou o Iraque num protetorado iraniano. Um guerreiro temível e um inimigo perigoso, que os norte-americanos já podiam ter eliminado, mas não o fizeram porque não tinham a certeza de quais seriam as consequências no complicado quadro de alianças interesseiras.

Trump agora tomou a decisão, não se sabe porquê – o que é típico de Trump, cujo único objetivo consistente é a sua própria glória. Há quem diga que foi para distrair a opinião pública do processo de demissão que lhe paira sobre a cabeça, ou para melhorar as suas hipóteses na próxima eleição. É muito provável. Mas não terá sido só isso. Quase com certeza que não mediu as consequências, que poderiam ser uma guerra aberta com o Irã. É característica dos americanos em geral, e dele em particular, começar uma ação sem considerar os objetivos ou, pelo menos, as saídas possíveis. Já disse, e nós acreditamos, que não quer uma guerra. O Irã também já disse o mesmo. O mais provável é uma fieira de pequenos ataques, violentas iniquidades, de parte a parte, como duas crianças que se confrontam, mas não têm testículos para chegar a vias de fato.

A esquerda, em geral, vê todas as situações como manifestações do “imperialismo americano”. Há um século, era o “imperialismo inglês”. E daqui a menos de cem anos será, certamente, o “imperialismo chinês”. É a arte de simplificar uma situação que não tem qualquer simplicidade.

À direita, discute-se legalidades; se a morte de Suleimani foi um ato de guerra legítimo ou um ataque terrorista. Porque desde 1864 há um documento, a Convenção de Genebra, que regulamenta as leis da guerra. Já foi atualizado várias vezes, a última em 1949, portanto numa altura em que “guerra” era sempre entre dois países. Os estados terroristas, as organizações informais e subterrâneas não estão contempladas. É evidente que Suleimani era um inimigo. Discutir a moral ou a ética de o abater é absolutamente irrelevante.

O que interessa é que ainda não é desta que vamos para a III Guerra Mundial.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.



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