Esporte

14/01/2020 | domtotal.com

La Bella Italia

Racismo pode estar ligada à presença de torcedores neofascistas, neonazistas e de extrema-direita

O jogador do time italiano do Brescia, Mario Balotelli, filho de imigrantes ganeses, foi vítima de urros de gorila pelos torcedores rivais, toda vez que pegava na bola
O jogador do time italiano do Brescia, Mario Balotelli, filho de imigrantes ganeses, foi vítima de urros de gorila pelos torcedores rivais, toda vez que pegava na bola (Alberto Pizzoli/ AFP)

Lev Chaim*

Estava um dia esplêndido na cidade de Brescia, norte da Itália. O sol apareceu com tudo e a temperatura girava em torno dos 15 graus. Os fãs de futebol marchavam rumo ao estádio da cidade, Mario Rigamonti, para assistir a importante partida de reinício da série A italiana, entre os times Brescia, local, e Lazio Roma. Brescia teria que ganhar para sair da zona de rebaixamento. Houve uma parada de inverno curta e agora os italianos poderiam desfrutar novamente de seu amado calcio (futebol).

Enquanto os torcedores entravam no estádio, um fato rondava a cabeça de todos, principalmente dos atletas que iriam entrar logo mais em campo. No final da série A do ano passado, em novembro, no jogo entre Brescia e Hellas Verona, sempre que o jogador do Brescia, Mario Balotelli, filho de imigrantes ganeses, pegava na bola, os torcedores do Verona faziam grunhidos de macaco e urravam em grupos, até que num determinado momento Balotelli, irado, chutou a bola direto na torcida que gritava os insultos contra ele, por ser negro. Puro racismo. O juiz da partida, em vez de ajudar o jogador naquele momento doloroso, ainda lhe deu um cartão amarelo pelo fato dele ter chutado a bola contra aqueles torcedores. Balotelli, sem saber o que fazer, deixou o campo e foi acompanhado por seus companheiros de time.

O fato foi manchete em vários jornais europeus e chamou a atenção de todos para a situação do racismo na Bella Italia. Vejam vocês, muitos figuras proeminentes do futebol italiano, num passado recente, fizeram comentários públicos racistas como se fosse a coisa mais normal do mundo. Arrigo Sachi, respeitado treinador do AC Milão dos anos 80, sem mais nem menos, soltou o seguinte comentário: “Nas classes de jogadores juvenis na Itália havia muitos negros”. Carlo Tavecchio, antigo presidente da Federação Italiana de Futebol, fez o seguinte comentário racista e totalmente insensível: “Aqueles que antes comiam bananas, agora jogam na competição italiana da série A”. E para citar mais um exemplo, Paola Berlusconi, filha do antigo primeiro-ministro italiano e antigo presidente do clube AC Milão, Silvio Berlusconi, disse que “Balotelli era o negrinho da família”, para logo em seguida acrescentar, “que aquilo foi dito com muito carinho”. A lista italiana de insultos a jogadores negros vai longe e não é de agora.

Por que o racismo está tão presente no futebol italiano? Foi a pergunta feita pelo jornal holandês Trouw ao universitário da Universidade de Bologna, Giulio Tavoni, que escrevia uma tese a esse respeito: “A resposta não foi fácil de achar, mas agora está mais claro”, afirmou ele, explicando: “É bastante conhecido que entre os torcedores fanáticos de futebol há muitos neofascistas, neonazistas e pessoas da extrema-direita. Muitos políticos, talvez, nunca quiseram fazer essa ligação e evitavam tomar qualquer providência para diminuir o racismo nas partidas de futebol”. O senegalês Koulibaly, defesa do Napoli, que no ano passado teve que enfrentar várias vezes os mesmos grunhidos de macacos e urros dos torcedores rivais, recebeu um conselho do ex-vice-primeiro ministro italiano, Matteo Salvini: “Koulibaly não devia se sentir ofendido com aquilo; provocação saudável é diferente de racismo”.

De acordo com Tavoni, “Na Itália você escuta muito essas coisas, de que racismo não tem nada a ver com a cor da pele, mas é usado para desestabilizar jogadores negros e fazerem com que eles não joguem uma boa partida”. E o exemplo disso foi dito à imprensa pelo analista de futebol, Luciano Passirani, antigo membro da direção dos times do Atlanta Bergamo e Lecce: “A única maneira de parar o jogador Lukaku, jogador belga de origem congolesa, é dar a ele dez bananas”. Ele disse que falou aquilo como uma piada, mas o jogador em questão não achou graça e com toda a razão.

O próprio filho de um torcedor do Brescia que entrava para ver a partida de seu time contra o Lazio Roma, ao escutar o seu pai dizer que essas manifestações de racismo nos estádios italianos tinham que parar, acrescentou em alto e bom som para os jornalistas ali presentes: “Sjamo tutti uguali” (Somos todos iguais). No que seu pai acrescentou: “E assim é”. E você, meu caro leitor, também concorda com esse menino e seu pai?

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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