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14/01/2020 | domtotal.com

Todos os pecados de Luther

Luther é o protagonista de um dos maiores (e merecidos) sucessos policiais de todos os tempos da televisão britânica

John Luther (Idris Elba) e Justin Riplay (Warren Brown) em cena da 3ª temporada
John Luther (Idris Elba) e Justin Riplay (Warren Brown) em cena da 3ª temporada (Divulgação/ |Copyright BBC 2013)

Alexis Parrot*

Na borda do terraço de um prédio, um amigo pergunta para o outro: "Você nunca fez isso, subir até um lugar bem alto e ficar imaginando como seria cair?" O amigo responde com outra pergunta: "Cair ou pular?" O primeiro completa: "É a mesma coisa". A cena se repetirá como sonho algumas temporadas depois e é a chave para entendermos todo o drama de Luther - tanto a série quanto seu personagem título.   

Um homem conturbado, com tendências suicidas, maus humores constantes e explosões de raiva, cuja melhor amiga é uma psicopata foragida. A descrição não o favorece, mas ainda assim, este é o protagonista de um dos maiores (e merecidos) sucessos policiais de todos os tempos da televisão britânica.  

A estreia da quinta temporada no primeiro de janeiro de 2019 fez com que 5,6 milhões de ingleses escolhessem passar a noite do primeiro dia do novo ano na frente de suas televisões, sintonizados na BBC e sem piscar os olhos. A série prova mais uma vez a soberania absoluta do Reino Unido no gênero, mas é seu ator principal o verdadeiro ás na manga a ser reconhecido.

O detetive John Luther, da fictícia delegacia de Hobbs Lane em Londres, é certamente o papel da vida de Idris Elba (ainda mais agora, que acabaram dando em nada as negociações para que o ator se tornasse o primeiro James Bond negro da franquia 007).

Um brutamontes de coração mole e com uma mente brilhante, admirador confesso de David Bowie, alvo do respeito e lealdade de colegas e chefes, apesar do temperamento explosivo e dos métodos pouco convencionais (e moralmente discutíveis) empregados no desempenho da função. Se, para agarrar um criminoso, a ética tenha que ir para o beleléu, esta é uma barganha que ele executa sem dor nenhuma na consciência. 

Sua postura é inconfundível. As eternas mãos nos bolsos da calça e os ombros arqueados para frente, como quem tenta inutilmente evitar o frio. Com os habituais passos largos, não raro busca algum lugar mais alto para tentar avistar um criminoso em fuga ou simplesmente para observar - ou olhar para o mesmo problema de outra maneira, tentando enxergar aquilo ainda não visto; como gosta de definir seu método de dedução.  

No estilo, é estoico e quase monocromático. Seu armário comporta apenas repetições da mesma combinação de roupas. Na primeira temporada usa gravatas de outras cores que não a vermelha inseparável e ainda não veste o sobretudo definitivo que o acompanhará até o fim.

Em um gesto simbólico de força de vontade, até tenta se desvencilhar do acessório a certa altura, jogando-o no Tâmisa, do meio da ponte de Southwark, onde acostumou-se a se encontrar com Alice (sua psicopata de estimação, vivida com brilho por Ruth Wilson, de The affair). Tudo em vão, porque como o escorpião da fábula, vão-se os sobretudos mas nossa natureza permanece intacta.   

O grande interesse da série, além da resolução de crimes sempre superlativos, é acompanhar sua vida pessoal em paralelo, mais complicada a cada passo. A partir do episódio piloto, vivendo uma separação turbulenta e com um bandido em coma capaz de mandá-lo para a cadeia caso acorde e dê com a língua nos dentes, o pobre diabo não tem um minuto de paz - e por culpa de ninguém além dele mesmo.

Sempre lutando contra o tempo, cobra-se severamente para prender assassinos seriais antes que haja uma próxima vítima, enquanto vai salvando como pode outras almas que cruzam seu caminho. Acorrentado a um código de conduta mais rígido do que qualquer protocolo policial, suas escolhas geralmente o colocam em rota de colisão com toda sorte de gangsters e malandros do East End londrino (o tipo de associação que o faria perder o distintivo, se descoberta por seus superiores).

"Eu dou conta, só preciso de tempo para pensar", é o que repete para os outros e para si mesmo, como um mantra. Esperto como ele só, sempre consegue se safar - até a hora em que não conseguir mais. A afirmação parece um spoiler, mas exprime apenas a inevitabilidade do destino do personagem, desde a primeira hora.

Sua vocação para mártir esconde o verdadeiro motivo para a espiral de agruras em que se mete, temporada após temporada. Seu pecado maior não são os desvios cometidos aqui e ali (sempre com a melhor da intenções) ou em ações de autodefesa; mas a arrogância de achar que está acima de tudo e todos - simplesmente porque se considera um homem bom.

Além da sofisticação narrativa da série, a beleza de Luther está em sua essência trágica. Não é a história de um anjo caído; mas de um que, mais dia menos dia, irá cair.

(LUTHER - as três primeiras temporadas disponíveis no Netflix)

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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