Cultura

15/01/2020 | domtotal.com

O incômodo transcendente

A solidariedade de um cigarro é a cumplicidade de quem pode tragar a dor do outro, mesmo que o cheiro não saia do corpo

Quando a chama da esperança se apaga, uma fumaça entra nos olhos
Quando a chama da esperança se apaga, uma fumaça entra nos olhos (fotografierende/ Unsplash)

Pablo Pires Fernandes*

O incômodo não saía de mim. Dias se passaram e as imagens do encontro e os breves diálogos me despertavam um sentimento estranho. Tentei defini-lo, mas era fugidio e continuava a me atormentar, impossibilitando qualquer tentativa de estabelecer causa ou efeito.

Ela se aproximou da mesa e pediu um cigarro. Era jovem, magra e alta. Tinha o olhar agudo e penetrante, me sugeriu dignidade e determinação, mesmo que, no fundo deles, fosse possível reconhecer dor e urgência. Era de uma beleza singular.

Meu amigo ofereceu um cigarro de palha e eu um de filtro. Ela escolheu o de filtro, aceitou o isqueiro que lhe estendi e nos olhou com certa curiosidade. “A gente também cata guimbas na rua”, disse meu amigo. Ela esboçou um meio sorriso e entendeu a cumplicidade daquelas palavras, afinal, somos todos uns mendigos insaciáveis, pedindo a esmo um algo a mais, fuçando restos em busca de ocupar o oco com a brasa alheia.

Ela agradeceu com um gesto e saiu caminhando até desaparecer atrás do muro. Foram poucos segundos e, no entanto, a cena se repete na minha memória em câmara lenta. Sou capaz de fechar os olhos e notar os detalhes dos gestos contidos, a elegância no modo de caminhar e a luz que emanava daquela mulher.

Pensei em deuses, mas os ombros e as mãos, os braços e os dedos eram demasiadamente vivos. Uma espécie de santa talvez, um orixá ou alguma rainha de tempos muito antigos em que homens e animais falavam uma só língua. Minhas retinas ainda retêm a fumaça do cigarro, resquícios da aparição efêmera, uma epifania.

Não tinha passado uma hora quando a encontrei novamente na porta do supermercado. Segurava uma lata de leite em pó e uma caixa de leite e me dirigi a ela dizendo que tinha ficado impressionado com seus modos educados e gentis e condoído ao vê-la pedindo cigarro na rua.

Ela me contou que estava desempregada, assim como o marido e precisava levar comida para os três filhos. Neste momento, deixou transparecer um temor de mãe, um ponto de desesperança – o absurdo do presente se impondo como o corte de uma faca amolada. Pensei então no seu passado e me vieram à mente cicatrizes impronunciáveis e desaforadas, ventres inchados e bocas famintas chorando a dor da terra e dos frutos mortos, as sementes inférteis e os rios que ainda vão secar.

E o futuro? Quais sonhos teria aquela mulher? Quem tem fome é capaz de sonhar? Me despedi um tanto atordoado e buscando conforto repassando suas palavras de agradecimento. Eu apenas tinha lhe dado um cigarro e um pouco de atenção. Diante de tamanha injustiça, praguejei contra reis, presidentes e ministros, desejei incendiar templos e bancos e todos os castelos.

Só agora entendo a origem do incômodo. Sei que não serei capaz de removê-lo das entranhas e que ficará grudado nas minhas tripas até serem roídas pelos vermes. Tento – é o que me resta – transformá-lo em alguma força, num ímpeto mínimo de coragem ou, ao menos, em indignação.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'



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