Religião

17/01/2020 | domtotal.com

Sarah está com quem, afinal?

Um questionamento sobre os últimos acontecimentos envolvendo o cardeal queridinho dos opositores de Francisco

Cardeal Sarah foi nomeado por Francisco a prefeito da congregação para o culto divino em 2014
Cardeal Sarah foi nomeado por Francisco a prefeito da congregação para o culto divino em 2014 (Fr. Lawrence Lew, OP/ Flickr)

Mirticeli Medeiros*

O mundo inteiro acompanhou o “pasticcio” eclesial – do italiano, uma confusão e um mal entendido em sentido figurado – que ocorreu durante a semana. Cardeal Robert Sarah mais uma vez se tornou o centro da polêmica. Desta vez, através da publicação de um livro sobre o sacerdócio que conta com a contribuição de Bento XVI chamado Des profondeurs de nos coeurs – do francês Do fundo dos nossos corações. Entre declarações de cá, mal-entendidos de lá e falta de clareza para todo lado, é certo que toda essa história deixa um rastro de dúvidas.

Para quem não se lembra, o prelado guineense, que é prefeito da congregação para o culto divino – órgão responsável por manter a ‘ortodoxia’ litúrgica dentro da Igreja – foi corrigido publicamente pelo papa Francisco em 2017. Tudo isso porque resolveu fazer uma interpretação pessoal das novas disposições sobre o missal, publicadas pelo pontífice através de uma mudança técnica do artigo 838 do código de direito canônico.

Bom, “diante das câmeras”, o cardeal tem demonstrado respeito e fidelidade a Francisco. Para quem não sabe, foi justamente o papa atual quem o colocou nesse posto em 2014. Então, seria o mínimo. Por outro lado, Sarah, curiosamente, sempre entra em cena em momentos-chave de tensão, com declarações que reforçam o discurso de grupos contrários ao atual papado. Ao ponto de nos depararmos absurdamente com gente mais fiel ao cardeal que ao próprio papa. E então, quais seriam suas intenções? Zelo, descuido ou oposição velada?

Se foi premeditado criar esse clima de hostilidade em relação a Francisco, dando voz ao papa emérito – cuja figura tem sido bastante instrumentalizada pela ala conservadora – não sabemos. Porém, como citado acima, é no mínimo estranho tudo isso. Lembrando que é provável que Francisco publique a exortação apostólica em resposta ao sínodo da Amazônia ainda no primeiro semestre. De acordo com fontes ligadas ao Vaticano, é provável que o documento seja concluído no final de janeiro. A meu ver, uma grande coincidência.

Sendo assim, por que não pedir ao papa reinante também uma contribuição? Afinal, sabe-se que Francisco reiterou que é contra a extinção do celibato como disciplina obrigatória para padres na Igreja Latina. O posicionamento pontifício foi reforçado oficialmente pelo porta-voz da instituição, Matteo Bruni, logo após a difusão de todas as informações desencontradas envolvendo Sarah e Bento XVI ao longo da semana. Se a intenção era reforçar a prática, inclusive partindo de uma fundamentação teológica, por que Francisco não poderia ser consultado?

De acordo com rumores que correm pelos sagrados palácios, a situação gerada pelo tema, poderia pesar na decisão de conceder um ministério especial a alguns homens casados do território amazônico. Como sabemos, o sínodo não colocou em questão a extinção do celibato, mas propôs a ordenação de alguns homens casados para suprir a carência de padres na região. Há quem pense que isso abriria um precedente. Apesar de Francisco ter claro que tal permissão não interferiria na disciplina sobre o celibato, ele poderá avaliar que, no momento, ainda não haja maturidade suficiente para encarar tal mudança.

Em Roma fala-se, inclusive, que essa seria a gota d’água que levaria o prelado africano a pedir o próprio afastamento. Será que ele não aguentaria mais trabalhar lado a lado com o sumo-pontífice, o qual não corresponderia, em nada, à sua visão eclesial? Bom, é o tempo e os próximos boletins da Santa Sé que dirão.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!



Comentários