Meio Ambiente

17/01/2020 | domtotal.com

Encontro de povos da Amazônia os une contra política de Bolsonaro

Líderes indígenas e extrativistas reunidos no Xingu vão levar documento a Brasília

Indígenas: grupos participam do Acampamento Terra Livre, fazem protesto na Esplanada dos Ministérios
Indígenas: grupos participam do Acampamento Terra Livre, fazem protesto na Esplanada dos Ministérios (José Cruz/Agência Brasil)

Cerca de 450 integrantes de 47 tribos se reúnem no Parque Nacional do Xingu para discutir estratégias de sobrevivência, ações políticas e como coordenar a resistência ao que chamam de ataques do governo do presidente Jair Bolsonaro a seu modo de vida e seus territórios. O chefe kayapó Raoni Metuktire, que convocou a reunião em seu vilarejo junto ao Rio Xingu, pediu ao Congresso que barre as iniciativas do presidente para enfraquecer agências governamentais encarregadas de proteger o meio ambiente e o direito à posse de terras previstas na Constituição.

Na abertura do encontro, na quarta-feira (15), Raoni declarou: "Eu não quero que ninguém morra na minha frente, eu não quero que seja a matança de todo mundo, de branco contra índio". "Bolsonaro está falando muito mal da gente (...) Não está atacando só índio, mas está atacando índio mais forte ainda [que outra pessoa]", acrescentou Raoni, com o corpo pintado de preto, o enorme disco no lábio inferior e o tradicional cocar de penas amarelas.

Bolsonaro alega que as tribos têm terras demais e quer abrir as reservas indígenas à mineração e à agricultura para desenvolver a Amazônia e tirar os povos indígenas da pobreza. Um rascunho do texto publicado pelo jornal O Globo afirma que o projeto também propõe legalizar as atividades de petróleo e energia. Em várias ocasiões, o presidente disse que as reservas indígenas condenam as populações locais ao atraso e as comparou com "zoológicos".

A Fundação Nacional do Índio (Funai), controlada por uma autoridade policial escolhida por Bolsonaro, informou que a reunião no Xingu era um "evento totalmente particular" que não apoiaria por não estar "alinhada" com a política do governo.

Ameaças constantes

Os líderes listaram o que consideram as principais ameaças: mineração, exploração madeireira, invasão de terras, contratempos no sistema de saúde indígena e assassinatos de líderes. O encontro envolve representantes de comunidades tradicionais dedicadas a atividades sustentáveis, incluindo extração, em consonância com a Aliança dos Povos da Floresta, formada pelo líder ambiental Chico Mendes, seringueiro assassinado em 1988 devido aos seus esforços para proteger a floresta tropical.

Entre os presentes na reunião está sua filha, Angela Mendes. "Unidos, podemos resistir. Eles têm o poder do Estado, mas nós temos a força das águas, das flores e da terra ancestral", disse ela. A existência de comunidades extrativistas não indígenas que vivem da extração de látex e da venda de frutas da floresta está sendo ameaçada pelo desmatamento, alertou.

Mendes fez uma aliança com Sonia Guajajara, chefe da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a maior organização de tribos do país. "Este é um momento muito grave de nossa história. Parece um cenário de guerra", disse Guajajara, acusando Bolsonaro de atender aos interesses do poderoso agronegócio brasileiro, que está avançando sobre a região amazônica.

O aumento da violência contra os 850 mil povos indígenas do Brasil, resultante das disputas de terras com agricultores, do corte de árvores e da mineração em reservas indígenas, ameaça o futuro das tribos, argumentou. "Não vamos a aceitar negociar os nossos territórios e as nossas vidas para resolver problemas da crise econômica que não foi causada por nós", acrescentou

Raoni, chefe kayapó com idade estimada em 89 anos, espera levar ao Congresso em Brasília o documento resultante dessa reunião, que será encerrado nesta sexta-feira (17). "Eu vou levar o documento, aí vou perguntar para ele [Bolsonaro] porque está falando mal dos índios", disse, enfatizando a importância de buscar apoio político na Europa.

"Bolsonaro, por que você não nos respeita? Por que quer acabar com os índios?", questionou a líder kayapó Tuíra, após entoar um canto em sua língua natal. A seu redor, a terra, de um vermelho intenso, contrasta com o azul do céu e o verde da floresta densa que cerca aldeia, próxima ao Parque Nacional do Xingu. Raoni sabe que sua luta começou muito antes de ele nascer e insiste na necessidade de novas gerações assumirem "a proteção dos povos indígenas". "Estou velho, cansado", desabafa, depois de fazer uma breve dança tradicional na maloca central.


Reuters/AFP/Dom Total

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