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21/01/2020 | domtotal.com

O macaco noir de David Lynch

Curta de David Lynch lançado pela Netflix é um misto de sonho, interrogatório e sessão de análise

Curta tem tema e estética de filme noir com tintas de expressionismo alemão
Curta tem tema e estética de filme noir com tintas de expressionismo alemão (Divulgação/ Netflix)

Alexis Parrot*

É noite de chuva forte e uma pequena janela lança luz em uma sala reservada nas dependências de uma estação de trem. Imerso no admirável chiaroscuro do cômodo (um primor de fotografia em preto e branco), um incomodado Jack parece estudar cada detalhe do ambiente, até a chegada de um policial. A conversa entre os dois é só o que veremos nos 17 minutos de What did Jack do? (O que Jack fez?), curta-metragem de David Lynch lançado ontem no Netflix.

A princípio, pela maneira como as peças são colocadas no tabuleiro, poderia ser um filme noir como qualquer outro. Porém, ao vermos o próprio diretor interpretando o detetive, o curta é jogado imediatamente em outro patamar, gerando mais interesse ainda pela obra e atiçando o fetichismo dos fãs.

Para os aficcionados por Twin Peaks, a autoescalação do cineasta não chega a ser surpresa. O chefe surdo do FBI vivido por ele é um dos destaques do poderoso elenco da série e figura chave na odisseia multidimensional do agente Dale Cooper de Kyle MacLachan. Já o fato de Jack ser um macaquinho vestido de terno e gravata... bom, trata-se de um filme de David Lynch. O que você queria? 

Talvez a origem da escolha do macaco como personagem ecoe o conto Um relatório para uma Academia, de Kafka. No texto, um primata antropomorfizado apresenta em conferência o relato de como se deu sua transformação em humano – uma crítica ao colonialismo. O autor da Metamorfose é inspiração constante para Lynch e, não por acaso, sua foto emoldurada fazia parte do cenário da sala do superior de Cooper em TP3.

Cheio de pausas dramáticas, o diálogo travado pelos dois é tão absurdo quanto a situação em si: um macaco sendo interrogado. Uma batelada de acusações vai sendo jogada sobre os ombros do símio, enquanto vamos montando um quebra-cabeças capaz de nos fazer vislumbrar trechos de uma biografia um tanto atormentada. Frases como "você foi visto na companhia de galinhas", "eu vi as penas", "você estava errado... não havia ninguém com ela naquela noite" vão se acumulando, à medida em que o velho homem da lei tenta encurralar retoricamente o primata.

Uma garçonete chega trazendo café após meia hora de espera e se desculpa, dizendo que todos os trens estão parados e o lugar está cheio de passageiros famintos e tiras. Segundo ela, parece que há um assassino à solta. Com a informação, o macaco finalmente revela um traço de desassossego (muito embora pareça se incomodar mais com a presença dos policiais do que com o tal criminoso).

Sempre arredio, mas ainda usando de ironia, Jack se esquiva das perguntas do policial com outras perguntas ou mudando de assunto. Até que, com a simples menção de Bristol, ele parece se descontrolar e estoura pela primeira vez: "nunca fale desse lugar de novo comigo! Você não tem nenhuma decência?" O que terá acontecido em Bristol para traumatizar tanto o pequeno macaco? Saberemos? Importa saber?

Toda a encenação é mera desculpa para encerrar muitos filmes dentro de um só. Tema e estética de filme noir com tintas de expressionismo alemão. A narrativa é puro melodrama com doses maciças de surrealismo, permitindo até a presença de uma cena digna de musical da Broadway. No final, paira a dúvida se estamos assistindo a um interrogatório ou a uma sessão de análise. E, se for esse mesmo o caso, quem é o analisado e quem é o terapeuta?   

Mais do que interrogador e interrogado, os dois personagens são jogadores no melhor sentido do termo. Brincam de gato e rato, competindo para ver quem comanda o diálogo, enquanto projetam-se no outro. A artimanha fica mais clara quando o detetive provoca o animal no limite de sua impossibilidade: "seja homem, Jack, e me conte sobre ela." A resposta coloca tudo no zero a zero novamente: "vá subir numa árvore", retruca o macaco, devolvendo a provocação.

Tudo é milimetricamente construído para que soe como um sonho (o que tem sido a mola mestra da filmografia de Lynch por décadas). Desde a opção pelo preto e branco e os efeitos especiais nada realistas mas, principalmente, a escolha da locação. Uma estação de trem, lugar de passagem e espera. De acordo com um conceito trabalhado por autores da comunicação social, um intervalo; vazio de materialidade, mas carregado de símbolos e significado. Exatamente como um sonho.

Apesar de lançado agora, o filme não é novo. Foi produzido em 2016, quando ganhou apenas algumas projeções para um público muito restrito. É estranho e intrigante, ainda mais quando nos damos conta de que se trata de uma história de amor. Colocá-lo em cartaz justamente no dia do aniversário de seu diretor só torna o lançamento mais emblemático.   

Além disso, a associação de David Lynch com o Netflix é um movimento digno de atenção. Após um ano vitorioso, onde foi reconhecido com louvor como produtor de cinema graças aos bem-sucedidos O irlandês e História de um casamento (de Martin Scorsese e Noah Baumbach, respectivamente), o gigante do streaming parece querer seguir firme por este caminho.   

Da mesma forma como Lynch vem bagunçando nossas mentes há anos com seus filmes, a escolha do cineasta contribui definitivamente para borrar ainda mais as fronteiras entre cinema e televisão. Se até a prestigiosa Cahiers du cinéma já havia escolhido a terceira temporada de Twin Peaks como o filme da década, tudo leva a crer que esta discussão está bem próxima de um ponto final.

(WHAT DID JACK DO? – Em cartaz no Netflix.)

*Alexis Parrot é crítico de televisão, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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