Religião

23/01/2020 | domtotal.com

Se eu fosse presidente

Um governante precisa saber o que os governados esperam dele em quatro anos de mandato

Se eu fosse eleito presidente, ouviria vocês
Se eu fosse eleito presidente, ouviria vocês (Ricardo Stuckert / Instituto Lula)

Afonso Barroso*

Se eu fosse eleito presidente da República, meus caros amigos e minhas amantíssimas leitoras e eleitoras, a primeira coisa que iria fazer seria apurar os ouvidos. Apurava para ouvir você, você e vocês. Saber o que vocês teriam para reivindicar ou sugerir ou mesmo recomendar ao seu novo e amado presidente.

Iria ouvir você, dona de casa e de marido. E você, marido, metido a dono da dona de casa e do mundo. Você, mulher da vida fácil ou difícil, sem marido pra ser a dona e cheia de filhos indomáveis. Você, mocinha tatuada ou garoto de brinco e cabelo tinto de sangue.

Se eu fosse eleito presidente, ouviria você, menino vadio, sem eira nem beira, sem prancha e sem praia. Você, craque no craque, encalacrado na cracolândia da vida. Abriria os ouvidos a você, professor universitário, secundário, primário, intermediário, operário das ciências e das letras. Ouviria você, professora fundamental que os pirralhos e pirralhas que nem a Greta chamam de tia. Você, profissional liberal ou liberado, físico, fisicultor, astrofísico ou metafísico. Você, sem teto e sem terra, senhor das ruas, das esquinas, dos viadutos, dos matos e das matas devolutas. Você, proprietário da própria sorte e a ela entregue por desígnio dos senhores seus deuses. Ouviria você, doméstica ou diarista, lavadeira ou faxineira, e vocês, pedintes e doadores. Ouviria a senhora, minha doce doceira e cozinheira, assim como o senhor chef e o chefe do chef, o garçom, o atendente e o gerente.

Se eu fosse eleito presidente, ouviria você com toda atenção, caro eleitor ou eleitora artista, que alegra e desalegra pessoas mil com sua arte cênica, gráfica, humorística, cinematográfica, dramática ou telepática. Ouviria você, escritor, literato e gramático. Você, bailarina ou bailarino dos grupos de dança que encantam plateias de todas as raças. Você, atriz atroz, autor e ator, e também você, cineasta passivo ou ativo, crítico e comentarista. Musicista, eu ouviria você com suas composições, suas fugas e sambas e boleros e funks e baiões, e xotes e sonatas. Ouviria até mesmo você, sertanejo universitário que nunca passou por uma universidade na vida, mas canta que é uma mania de grandeza.

Se eu fosse eleito presidente, ouviria vocês, intelectuais, que falam com a sabedoria de quem tudo sabe e a ninguém perdoa. Ouviria você, pedreiro, marceneiro, servente e servidor, inventariante, causídico, jurista, desembargador, promotor, publicitário, jornalista, interceptador, rede-socialista, democrata e comunista. Ouviria você, apanhador do campo de centeio, plantador de milho e soja, colhedor de beterraba e tubérculos em geral, ordenhador de cabras e vacas, granjeiro e hortigranjeiro, lenhador e cachaceiro, portador de anseios e sonhos, cupincha, jagunço, pistoleiro. Mesmo você, ouvidor, eu ouviria, assim como você, auditor e executor, operador, notário e notório.

Se eu fosse eleito presidente, ouviria a todos vocês, munícipes e estaduanos, favelados e favelandos, descamisados, indígenas, aborígenes e indigentes de toda parte e toda sorte, do Chuí ao Oiapoque e vice-versa, a saber, ida e volta. Ouviria de gaúchos da fronteira a potiguares das rígidas nortadas, de peões a boiadeiros aposentados, os aposentados propriamente ditos, e os trabalhadores, sindicalistas, operadores de telemarketing, homeopatas e alopatas e você, de qualquer ramo da medicina, da engenharia, da odontologia, da cura gay e curandeiros e feiticeiros. Ouviria elegebetistas, progressistas e puristas da língua e dos costumes.

Se eu fosse eleito presidente, ouviria vocês, madres e padres, pastores e pastoras, pregadores, acólitos, diáconos e sacristãos, coroinhas e coroados. Ouviria também você, crente, credor, ateu ou agnóstico. E você, mendigo de trapo e de gravata, malandro, especulador, investidor na bolsa e nos bolsos, cartola, salteador ou meliante. E você, comerciante e comerciário, banqueiro e bancário, escritor e escriturário, ricaço e pobretão. Ouviria você, torcedor sofrido ou vitorioso. E você, caminhoneiro, taxista e uberista, motorista urbano, rural, geral e particular, trocador e fiscal de tráfego e de trânsito caótico.

Se eu fosse eleito presidente, ouviria vocês, policiais com e sem patente, otoridades, soldados, cabos, sargentos, tenentes, majores, coronéis, generais, capitães, almirantes e brigadeiros. Ouviria vocês, domadores de animais selvagens e amansadores de burro bravo. E vocês, futebolistas, voleibolistas e esportistas em geral, atletas, biatletas e poliatletas. Ouviria a voz rouca das ruas, avenidas, becos e vielas. Até mesmo vocês, parlamentares dos dois parlamentos, que mal parlamentam, eu ouviria.

Enfim, a todos ouviria, se presidente fosse. E se sobrasse tempo, governaria.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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