Religião

23/01/2020 | domtotal.com

Brumadinho, um ano depois: que se faça justiça!

Um ano após matar quase trezentas pessoas em Brumadinho, ela recuperou todo o seu valor de mercado

Vista aérea da Mina do Córrego do Feijão, da mieradora Vale, onde o colapso de uma barragem de rejeitos de mineração em 25 de janeiro de 2019 deixou 270 mortos
Vista aérea da Mina do Córrego do Feijão, da mieradora Vale, onde o colapso de uma barragem de rejeitos de mineração em 25 de janeiro de 2019 deixou 270 mortos (AFP)

Élio Gasda*

Papa Francisco é a pessoa mais corajosa, lúcida e humanista da atualidade. Aos participantes do Fórum Econômico Mundial reunidos esta semana em Davos (Suíça) lembrou que jamais se deve perder de vista que “somos todos membros de uma única família humana”. Portanto, “temos o dever moral de cuidar uns dos outros. No centro da economia deve estar a pessoa, e não a busca pelo lucro. Tratar os outros como meios para alcançar um fim é promover a injustiça, disse o papa.

Brumadinho está há quase 10 mil quilômetros de Davos. Ali, no dia 25 de janeiro se recordará um ano do crime humanitário, do desastre industrial e da catástrofe ambiental cometido pela mineradora Vale. O rompimento da barragem matou 270 pessoas, 11 vítimas ainda não foram encontradas. Famílias perderam tudo. Multiplicam-se os suicídios. Trabalhadores perderam seu sustento. 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos foram liberados no ecossistema. O rio Paraopeba, afluente do São Francisco, está envenenado.

Perversidade. Barbárie. Monstruosidade. Homicídio. Pecado. Injustiça. Faltam adjetivos para descrever o ocorrido. Como esquecer Bento Rodrigues, em Mariana? A Vale é uma fora da lei sem punição (ainda). A loucura mortal se reproduz acobertada pela impunidade. “Se os ricos fossem castigados na terra os cárceres estariam lotados” (São João Crisóstomo). Até quando? Aos ricos, o lucro. Aos pobres, a morte.

Grandes empresas agem às margens da lei, principalmente quando exercem atividades de alto risco, priorizando mais o lucro do que o equilíbrio ambiental e a dignidade das pessoas. O crime compensou. Seis meses após crime, a Vale ganhou R$ 40 bilhões em valor de mercado. Um ano após matar quase trezentas pessoas em Brumadinho, ela recuperou todo o seu valor de mercado. Assim funciona o capitalismo. A impunidade consolida o crime.

Deus dinheiro acima de todos? No capitalismo, desastres estão sempre vinculados a aspectos econômicos. Como é possível que uma empresa com um faturamento médio de R$300 bilhões/ano cause duas catástrofes socioambientais de consequências incalculáveis? A economia dos desastres é uma nova maneira de capitalização. A produção predatória é destinada exclusivamente ao lucro. Corporações controladas por acionistas internacionais não tem projeto de nação. Um país inteiro submetido aos interesses estrangeiros. Brasil acima de tudo?

“O poder soberano é o poder de fazer viver e de deixar morrer” (Michel Foucault). Empresas grandes demais tem um poder difícil de regular, elas influenciam o Estado, compram políticos, tolhem a democracia, violam os direitos humanos e a destroem a natureza. Houve mais do que um ecocídio e um homicídio coletivo, é o modo como se faz grandes negócios.

A Vale cometeu um crime contra a humanidade e o planeta. A proteção da vida na terra não pode ser limitada pelas fronteiras entre nações. Em 2016, o Tribunal Penal Internacional de Haia, reconheceu o delito de ecocídio como crime contra a humanidade. Vítimas de crimes ambientais podem recorrer ao tribunal internacional para obrigar os responsáveis (empresas e governos) a pagar por danos morais ou econômicos. O Brasil é signatário do Tribunal.

“Em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há”(Ex 20,11). A vida é um presente de Deus: Não matarás (Ex 20, 13). É pecado matar. O pecado da avareza leva ao pecado ecológico. Uns poucos acumulam riquezas às custas da devastação da natureza e da morte dos pobres. Mineradoras lucram com as riquezas naturais enterrando cadáveres dos trabalhadores. Isso é pecado.

O pecado contém uma configuração pessoal, interpessoal, comunitária, social e cósmica, afeta a humanidade e a criação. O pecado espalha a morte, rouba o futuro. “Por trás de tanto sofrimento, morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava 'o esterco do diabo': reina a ambição desenfreada de dinheiro” (papa Francisco).

Necroeconomia! Grandes corporações estão comprometendo a existência da humanidade. Um ano depois do pecado cometido em Brumadinho, a mensagem deve ser forte e clara: Basta de impunidade! É preciso pôr um fim à insanidade dos empresários da mineração e do mercado financeiro. Essa economia mata! (papa Francisco).

Uma só vida humana sempre vale mais que todo o minério do mundo. A morte de cada vítima, quando se faz memória, mobiliza as pessoas, consolida a indignação, unifica as reivindicações, exige justiça. Um Deus enlameado identificado com os sofredores, grita e exige justiça. Que se faça Justiça!

No horizonte da promoção da ecologia integral e em solidariedade às vítimas de Brumadinho, no dia 25 de janeiro acontece a 1ª Romaria Arquidiocesana pela Ecologia Integral. Informações e programação: www.arquidiocesebh.org.br.  (31) 3269-3100.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016)

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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