Brasil

24/01/2020 | domtotal.com

O exemplo das tartarugas

Paulo Guedes, certeiro e realista: 'a grande inimiga do meio ambiente é a pobreza'

Em 40 anos, Projeto Tamar comemora soltura de 40 milhões de tartarugas
Em 40 anos, Projeto Tamar comemora soltura de 40 milhões de tartarugas (Fernando Frazão/ Agência Brasil)

Fernando Fabbrini*

Aí pelos anos 80 uma turma de formandos da Faculdade de Oceanografia da FURG deu origem a uma geração pioneira de ambientalistas. Tais biólogos tinham pela frente um campo de trabalho desafiador: o imenso litoral brasileiro, sua preciosa biodiversidade e seus problemas.

Dois desses jovens – uma moça gaúcha e um rapaz carioca – casaram-se. Sem recursos, mas com muito idealismo, literalmente mergulharam numa tarefa ambiciosa: a preservação das tartarugas marinhas ameaçadas de extinção, fundando o Projeto Tamar.

Um roteirista é um cara que passa o dia escrevendo diante de um computador e isso, às vezes, é muito chato. Enfarado dessa sina, eu, criador de documentários institucionais e educativos, fazia questão de acompanhar as filmagens. É muito mais divertido; podemos dar algum pitaco ou discutir uma cena com o diretor. Foi numa dessas viagens, durante a produção de um documentário do Projeto Tamar, que tornei-me amigo do casal de oceanógrafos Guy e Neca Marcovaldi.

Esta semana, no Fórum Econômico Mundial, o ministro da Economia Paulo Guedes afirmou que a grande inimiga do meio ambiente é a pobreza. “As pessoas destroem porque estão com fome” – disse. Frase polêmica, mas cheia de significados para quem compreendeu seu enfoque. Imediatamente lembrei-me do Projeto e da estratégia brilhante adotada pelos seus fundadores desde o início.

As tartarugas marinhas corriam perigo de extinção e morriam nos oceanos de causas variadas – presas nas redes de arrastão, por exemplo. Porém, o mais grave desequilíbrio na taxa de nascimentos versus mortes começava em terra firme. Após percorrer os sete mares durante sua longa vida, uma tartaruga volta para desovar exatamente na praia onde nasceu. Ora: a tartaruga e seus ovos faziam parte do cardápio tradicional dos pescadores nas pequenas vilas. A captura e a venda do animal reforçavam também o precário orçamento das famílias. Os vilões clandestinos da extinção eram os tartarugueiros – caçadores hábeis, coletores de ovos, vendedores de suvenires feitos com cascos das tartarugas.

Atento à delicada questão da subsistência das comunidades, o Tamar teve uma ideia genial. Ao invés de considerar os tartarugueiros e pescadores como inimigos, contratou-os como empregados do projeto, dando carteira assinada, uniforme e crachá. Ao mesmo tempo, lançou campanhas educativas destacando a importância da preservação dos quelônios, sensibilizando crianças nativas, turistas e tentando mudar hábitos alimentares.

Com salários, direitos trabalhistas e nova condição social, tartarugueiros e pescadores mudaram de lado: viraram parceiros. Seus conhecimentos primitivos auxiliam na proteção dos ninhos e dos espécimes adultos. Mulheres e jovens das vilas litorâneas ganharam empregos indiretos na confecção de brindes artesanais comercializados pelo Projeto. Hoje, o Tamar é referência mundial, restabelecendo o equilíbrio das populações de tartarugas marinhas no Brasil.

Resumindo: os pescadores passavam fome. Por isso caçavam, comiam e vendiam tartarugas – e tinham todo o direito de fazê-lo para alimentarem suas famílias. A experiência bem sucedida do Projeto Tamar comprova a tese do ministro Guedes e adiciona uma oportuna revisão de conceitos anacrônicos que debilitam, confundem, mistificam e não trazem soluções.

Isso é a vida real – bem diferente dos chiliques adolescentes de Greta Thunberg, dos delírios dos ativistas fashion e da canalhice dos militantes profissionais que se apossam eventualmente da questão ambiental para politicagens rasteiras.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas às sextas-feiras no Dom Total



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