Religião

24/01/2020 | domtotal.com

A gula está aí: quem poderá vencê-la?

Comida não é só necessidade física, nós a revestimos de sentido

Comemos também com os olhos
Comemos também com os olhos (Unsplash)

Felipe Magalhães Francisco*

Quem nunca se serviu de uma refeição, sentindo muita vontade de comer – o que geralmente nós, que temos o que comer sempre chamamos “fome”, ao contrário dos que não têm – e ficou pensando que deveria ter enchido mais o prato, porque aquele tanto não bastaria? Ou, quem nunca se fartou de uma refeição, enquanto pensava no que comeria na próxima? É, o pecado da gula está aí, e não estamos imunes. A boca é uma das entradas principais do prazer. Não espanta, por isso, que a maior parte das restrições religiosas – dos mais variados credos e tradições – estejam justamente na disciplina alimentar (equipara-se a essa disciplina, a sexual, que é a segunda porta de entrada do prazer...).

Não comemos apenas porque temos uma necessidade vital. Nós atribuímos sentido às refeições, desde a seleção dos alimentos ao preparo. Comemos também com os olhos. Mas há um limite? Parece que sim, pelo que a tradição cristã acentuou como sendo o pecado da gula. Se pararmos para pensar, cada um dos sete pecados capitais estão ligados a excessos. Comer é justo e necessário, mas quais benefícios temos quando passamos da conta? E quando passamos daquilo que nosso corpo suporta? Comer, comer, comer... até ficar triste! Quem nunca?

Todo pecado tem uma força social. Enquanto tendemos a exagerar, muitas vezes acrescentando ao exagero o desperdício, há inúmeras bocas que se cerrarão de vez, sem nunca saberem, na prática, o que é o pecado da gula, porque não têm nem o básico para se manterem de pé. Alimentar-se bem é um direito humano inalienável e, para os religiosos e religiosas, pode-se mesmo dizer que é um direito sagrado. Contudo, na maneira como temos vivido, temos cedido a impulsos que nos levam a nos alimentarmos cada vez mais mal, ao mesmo tempo em que entramos num ciclo consumista e de desperdício, enquanto a fome no mundo é algo atroz.

Há, também, outras faces da gula em nosso tempo, uma gula aos avessos, que leva a muitos e muitas a ficarem neuróticos com a alimentação, em vista do sonho de um corpo vislumbrado como perfeito. E, nessas dietas de todos os tipos, aqueles dias na semana nos quais o prazer da alimentação é, em certo sentido, permitido, são chamados de “dia do lixo”. Triste, não?! O que era para ser alimentação saudável, muitas vezes leva a uma outra escravidão, da qual os pobres são, mais uma vez, excluídos. É preciso viver com leveza, tanto os que estão centrados nessa dinâmica chamada fitness, como os que caminham na via oposta, cedendo aos prazeres da comida, para além da saciedade.

O que têm os textos de nosso Dom Especial, a nos ajudar a refletir sobre isso? Daniel Couto abre a conversa, com o artigo Glutonaria contemporânea, no qual interpreta como o vício da gula se manifesta em nossa atualidade, mostrando o que nos faz perder de vista em nosso horizonte de humanização. Gustavo Ribeiro dá continuidade à reflexão, com o artigo Projeto verão: o que comerão os pobres?, em que, num tom bastante pessoal, aproxima-nos a todos da questão fundamental. Ele propõe uma leitura a respeito dessa espécie de neurose coletiva ao redor do quesito alimentação. Por fim, encerrando nossa conversa, temos o artigo de Daniel Reis, Comer do Pão da Vida para conter uma vida de pão, no qual nos ajuda a trilhar um caminho pedagógico, que tem na eucaristia um lugar existencial de aprendizado acerca do que é se alimentar bem, para uma saciedade que nos humanize.

A nós, nunca é demais pedir: dai, Senhor, pão a quem tem fome, e fome de justiça a quem tem pão!

Boa leitura, pois!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!



Comentários