Religião

24/01/2020 | domtotal.com

Glutonaria contemporânea

Estamos engolindo tudo o que o planeta nos oferece como glutões descontrolados

A gula também está acompanhada do desejo
A gula também está acompanhada do desejo (Unsplash)

Daniel Couto*

Todos querem mais do que podem, nenhum se contenta com o necessário, todos aspiram ao supérfluo, e isto é o que se chama luxo.
(Antônio Vieira, Sermões)

Consumir, atualizar, desejar, estar sempre na vanguarda da tecnologia e não “parar no tempo”. Alguns bordões capitalistas nos impulsionam, cada vez mais, na direção de necessidades imaginárias, muito longe daquilo que, de fato, é fundamental para a nossa vida. A produção em massa, a multiplicidade de qualidades, marcas e personalizações para bens que são equiparáveis criam em nós um “sentimento”, uma “vontade” e um “desejo” insaciáveis. Se fôssemos listar o “essencial”, não colocaríamos como determinante uma marca X ou Y, mas sim descrições universais, como alimento, bebida, abrigo, locomoção, vestimenta etc., e poderíamos responder essas demandas com aparatos tecnológicos, é claro. Os seres humanos precisam de comida, mas não é “necessário” comer neste ou naquele restaurante conceituado. Precisamos nos locomover, mas bastaria um veículo com segurança ou um transporte público de qualidade, não um carro de luxo revestido de “opcionais”.

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Se estamos com fome: desejamos alimento. Sedentos: pedimos água. Com frio: queremos abrigo e vestimenta. Fundamentalmente, nossos desejos visam responder as necessidades primeiras da nossa existência e, a partir desse eixo, todas as outras são criadas. Não podemos ignorar que esse consumo seja agradável e que algumas dessas demandas trazem conforto, segurança e agilidade. Mas onde se estabelece o limite entre o consumo e o descontrole? A exploração, a superprodução, a desigualdade e a impossibilidade de acesso são, em primeira análise, os indicadores deste desequilíbrio consumista.

Como o consumo desregrado pode ser um “problema de fé”? A tradição cristã sintetiza os chamados “desvios de conduta” dos seres humanos, em relação àquilo que propõe o Evangelho, a partir dos “pecados capitais”. Eles são enraizados na natureza humana e se caracterizam pelo descontrole de alguma das nossas dimensões. Os sete pecados, em sua completude, buscam apontar em quais aspectos da vida estamos em desarmonia, em qual dimensão somos mais frágeis e propensos a agir de maneira contrária à proposta cristã. Com a ampliação da “moral” religiosa para a “cultura ocidental”, passamos a entender que os “pecados capitais” não eram apenas uma não conformidade com o projeto do Reino, mas passamos a tomá-los como inimigos absolutos da sociedade.

Essa amplitude que os pecados capitais tomaram, fortalecidos por interpretações da sagrada escritura, pela tradição, pelas narrativas da vida dos santos e pela arte (podemos tomar como exemplo a Divina comédia, de Dante), fizeram com que a própria significação das advertências sobre o descontrole desse lugar à uma luta irrefletida contra o “pecado”. Por estarem associados à natureza humana, os pecados parecem “irresistíveis” e a batalha do ser humano contra si mesmo tornou-se uma narrativa religiosa fortíssima, principalmente no período medieval. Como extirpar do ser humano algo que o define? Os pecados capitais assombraram o discurso religioso até a primeira metade do século 20, quando a teologia passou a resgatar os testemunhos das comunidades primitivas para reconstruir o seu discurso a partir das origens do cristianismo.

O que não percebemos, porém, é que os “pecados capitais” não são extirpados, mas, como traços da nossa natureza, adquirem novas roupagens à medida em que vamos desenvolvendo novos interesses, novas demandas, novas narrativas e novas maneiras de viver. De uma maneira, ou de outra, cada um dos sete pecados se transfigura na contemporaneidade, principalmente flertando com a desigualdade, a pobreza, a soberba e a violência que podemos observar por todo o planeta. Novas lutas, como os direitos dos grupos minoritários, a preservação ambiental, a igualdade de oportunidades e valorização de mulheres e homens são, em alguma medida, um combate aos pecados que se tornaram estruturais em nossa sociedade.

Podemos identificar uma dessas novas roupagens no caso da gula. Segundo a tradição – e não precisamos escavar muito para encontrar as definições, visto que esse “pecado” é usualmente comentado em nosso cotidiano – a gula é um “apetite desordenado de comida e bebida”. Religiosamente a classificamos como “incontinência, isto é, um pecado da falta de controle dos nossos desejos e paixões. Os gulosos comem para além daquilo que é necessário, comem excessivamente e sem aproveitar nada daquele alimento supérfluo.

A gula também está acompanhada do desejo. Comemos para saciar a nossa fome, mas também o fazemos por prazer, pela apreciação do sabor, pelas combinações entre os tipos de alimento oferecidos, por socialização. Bebemos para nos divertir, para experimentar o efeito de substâncias que alteram o nosso estado de sobriedade e, é claro, para saciar nossa sede. Muitas das vezes estamos com vontade de comer algo específico, atrelando a “necessidade” ao “desejo”, e, se possuímos os meios suficientes para suprir esse impulso, parece-nos que isso é uma atividade trivial.

A sociedade do consumo, porém, tem criado cada vez mais necessidades supérfluas, que devoramos de maneira esfomeada. Redes alimentícias que destroem a natureza e exploram nossos irmãos trabalhadores, mas que são exaltadas por nós em nossas “prateleiras” virtuais. O desperdício cada vez maior de gêneros alimentícios enquanto milhares ainda passam fome. Uma imensidão de possibilidades, de cardápios e estabelecimentos a um palmo de distância, nos difundidos aplicativos de comida, que exploram os entregadores com condições de trabalho subumanas e sem direitos básicos. Estamos engolindo tudo que o planeta nos oferece como glutões descontrolados por um “avanço tecnológico” que é, em muitos pontos, desnecessário.

Todos os glutões contemporâneos justificam a sua busca insaciável pelo próximo prato com o seu merecimento, afinal “o importante é realizar os meus desejos”. Eu consumo, eu devoro, eu exijo cada vez mais produtos inovadores porque não possuo fundamento daquilo que desejo. Quem deseja aquilo que não é possível ser conquistado é como o cavaleiro que batalha contra moinhos invisíveis: nunca conseguirá realizar o seu intento. Os desejos contemporâneos, na sua maioria, são líquidos e efêmeros fundamentados no nada, ou, o que é mais perceptível, no próprio desejo. Aquilo que se justifica em si mesmo, quando cessa deixa um vazio que só pode ser preenchido por outro sentimento equivalente. Diferente da nossa fome, os desejos da gula contemporânea são, cada vez mais, irrealizáveis.

É na contramão desse movimento que o Reino de Deus se apresenta. Enquanto os glutões hodiernos desejam consumir tudo o que for possível, a fraternidade se faz na partilha do pão e no cuidado comum. A fome – de pão e de justiça – encontra em Jesus uma nova resposta, onde o banquete é gratuito, farto e nada dele se perde. A gula é um pecado porque está fechada em si, com um sujeito que deseja, a todo custo, satisfazer os seus prazeres sem olhar ao redor. Lambuza-se com os temperos da desigualdade, do acumulo de riquezas e da exploração dos seres humanos, enquanto o caminho de Jesus é da proximidade, do amor e da misericórdia. O trabalho é coletivo, a vida é comunitária e o alimento é fundamento. Os que têm fome vêm à mesa. Os gulosos excluem, querendo reter para si todos os prazeres e delícias.

 A glutonaria contemporânea está revestida de hipocrisia e liquidez. Consumismo, violência, intolerância e exploração é o cardápio perfeito do banquete dos “notáveis de nosso tempo”. Para todos os outros, restam as migalhas que não saciam e geram desejos “desnecessários” que nos distanciam, pouco a pouco, da nossa própria natureza. Demandas, desejos e “pratos cada vez mais apetitosos” são armadilhas para que esqueçamos que, aquilo que está para além da nossa necessidade, precisa ser partilhado com amor. Em um país que lutou por anos contra a fome, perceber que a mesa dos pequenos está vazia, enquanto os cofres públicos arcam com banquetes refinados para os políticos e togados, a gula se tornou institucional. Os cristãos precisam caminhar fortemente na direção contrária a esse sistema esfomeado que, após se banquetear com todos os bens do povo e da terra, deglute sobre nós ódio, maldade, pobreza e injustiça. O Reino é construído pelos comedidos. Da mesa do Senhor não se perde nada, porque o amor é universal e sacia todos os apetites. Quem ama não deixa o irmão perecer.

*Daniel Couto é mestrando em filosofia e membro da Rede de Animação Litúrgica Celebra.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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