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28/01/2020 | domtotal.com

A Argentina e a segurança nacional

Quem não conhece ou tenta ocultar a própria história está condenado a repeti-la

Ações recentes do atual governo argentino são profundamente preocupantes e podem ter nefastas consequências para toda a região, inclusive o Brasil
Ações recentes do atual governo argentino são profundamente preocupantes e podem ter nefastas consequências para toda a região, inclusive o Brasil (AFP Photo/Argentina's Senate/Juan Carlos Cardenas)

Jose Antonio de Sousa Neto*

A história da Argentina no cenário global é peculiar sob o ponto de vista econômico. Com um PIB per capta superior aos dos países nórdicos na primeira metade do século passado a Argentina é o único caso no mundo de um país que em diversos aspectos havia alcançado o primeiro mundo e que, sem passar por uma guerra, retroagiu a categoria de país em desenvolvimento.

Isso é muito ruim para o Brasil porque a prosperidade paralela destes dois países alimenta inevitavelmente um círculo virtuoso de desenvolvimento. O Brasil pode e deve evidentemente buscar acordos bilaterais como os que foram assinados pelo governo brasileiro com a Índia nesta semana, mas em um contexto do Mercosul, quando devidamente trabalhados, o potencial de atratividade destes acordos pode, não em todas, mas em muitas circunstâncias, apresentar uma atratividade maior. Nos últimos dias, o governo do Reino Unido voltou a reiterar seu grande interesse de assinar um acordo bilateral de livre comércio com o Mercosul.

A derrocada argentina corresponde sobretudo ao período que se inicia com o advento e predominância do peronismo ao longo de várias décadas. Esta observação não tem de modo algum caráter ideológico, mas se baseia em incontestáveis evidências históricas. Poder-se-ia argumentar que vários avanços sociais foram obtidos neste país neste mesmo período, mas esta avaliação é incompleta se não forem contrapostos com os seguidos reveses institucionais naquele país e também comparados com diversos países e regiões do mundo que alcançaram avanços sociais ainda maiores sem abrir mão do enriquecimento econômico. Aliás, de forma honesta há de se reconhecer que nenhum avanço social é realmente verdadeiro ou sustentável sem que esteja ancorado a longo prazo em um desenvolvimento econômico igualmente sustentável e também robusto a longo prazo.

Mas particularmente ao longo do período que teve início nos primeiros anos deste século o caminho escolhido pelos governantes argentinos tem potencializado riscos graves de danos institucionais e econômicos que, em alguns casos, poderão vir a ser irreversíveis por um muito longo prazo. E tudo isso, é claro, também não pode perder como referência e em um contexto mais amplo os resultados econômicos da América Latina como um todo ao longo deste século. A região foi comparativamente aos outros continentes a que menos se desenvolveu nos últimos 20 anos e as projeções para a região, em uma média dos países, seguem com esta mesma expectativa. As razões são absolutamente cristalinas para os que olharem com isenção os governantes que tivemos nesta região, suas ações, seus objetivos e os caminhos por eles percorridos.

Chego então finalmente ao título deste texto focando em duas ações recentes do atual governo argentino que são profundamente preocupantes e que podem ter nefastas consequências para toda a região, inclusive o Brasil:

  • A criação de um conselho de “especialistas de notório saber e reputação”, com indicações capitaneadas pela ex-presidente do país, para nomeação dos futuros membros da suprema corte do país.
  • Projeto de lei que tira das forças armadas a autonomia para a progressão de carreira de seus membros e as substituem por um mecanismo de indicações políticas.

Pobre Argentina. Pobre América Latina. Mais uma vez o óbvio transparece. Quem não conhece ou tenta ocultar a própria história está condenado a repeti-la. Estas ações seguem à risca o “livro texto” para um plano de perpetuação de poder. A Venezuela seguiu estes mesmos passos assim como diversos países que tiveram suas democracias arruinadas. No Brasil, forças políticas que tinham e têm planos de perpetuação no poder, lamentam de forma explícita não terem seguido exatamente estes mesmos passos no passado. Chegam sem pudor a dizer que foi um grande erro não tê-lo feito. São os mesmos que chegaram a dizer que se “Deus” quiser em um futuro próximo não haveria mais no país partidos políticos que não fossem alinhados ao seu espectro ideológico. O establishment costumava tratar este tipo de declaração como mera bravata. Não era. Aliás nunca foi em nenhum lugar. Nos dois extremos do espectro político estes direcionamentos sempre terminam com um altíssimo custo humano e social. Não estou dizendo nenhuma novidade. No relativamente recente best seller “Como as Democracias Morrem” de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt há uma síntese muito bem-feita dos processos dessa natureza.

E no caso da Argentina, infelizmente, não houve uma Lava Jato. Por outro lado, e mais uma vez infelizmente, os rumos de governo e de política econômica naquele país tem uma grande possibilidade de levarem ao fracasso econômico com a consequente perpetuação de todos os problemas sociais daquele país. Em economia a mágica só existe na boca dos populistas e dos mal-intencionados. O bem, mesmo que pareça o mal é sempre o bem e o mal, mesmo que pareça o bem é sempre o mal.

A ruína econômica paradoxalmente e tragicamente pode vir a ser a proteção das instituições argentinas ao dificultar o caminho dos que querem se perpetuar no poder seja por razões ideológicas ou simplesmente por razões de poder e riqueza e sem nenhuma ideologia. No Brasil, embora com um longo caminho a percorrer, houve avanços que foram alavancados pelo extraordinário papel das mídias sociais e da mídia eletrônica. A comunicação foi democratizada. Mesmo com distorções, os novos meios trouxeram transparência, alavancaram a consciência cidadã da população e facilitaram a exigência por prestação de contas. Tenho esperança de que na Argentina isso também já esteja acontecendo, mesmo que em menor escala em relação ao Brasil. Queremos ver uma Argentina rica e próspera. Se o caminho for, no entanto, o oposto, então sob o ponto de vista geopolítico a Argentina passaria a trazer preocupações para o Brasil até mesmo na dimensão da segurança nacional. Basta ver o que a Venezuela está causando ao continente para ter absoluta clareza sobre isso.

*Professor da EMGE (Escola de Engenharia de Minas Gerais)

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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