Cultura

28/01/2020 | domtotal.com

'E agora, José?'

Pierre soltou vários fogos de artifício na rua durante a passagem de ano e outras coisas

Era como sonhar com um fantasma, sem rosto, mas com uma presença marcante
Era como sonhar com um fantasma, sem rosto, mas com uma presença marcante (Unsplash/ Gabriel)

Lev Chaim*

Os olhos que começam a coçar, o gesto automático de limpar os óculos, ainda sentado na frente do computador, para mim, significam uma só coisa: pausa. Olho no relógio: 16 horas. Exatamente a hora em que saio com o Pitú (meu cãozinho, meu pequeno) pela terceira vez ao dia. Levantei-me, desci as escadas e ele já estava lá em baixo, esperando e olhando para cima, como quem diz: “É, adivinhou que tenho que ir lá pra fora, né!”

O dia estava cinza, com neblina. Coloquei o meu paletó e abri a porta do quintal, para sairmos pelos fundos. Não sei porquê, estava pensando num vídeo que havia visto do Jair Rodrigues cantando “Disparada”, no festival da Record, em 1966. “O mundo foi rodando, nas patas do meu cavalo...” O Pitú percebeu que eu estava com a cabeça no ar e começou a latir. Logo voltei à real e marchamos rumo a rua da Bomba d’água, de onde subiríamos para os diques e bosques da nossa caminhada.

Sempre quando caminho com o Pitú, ao chegar perto dos diques, eu o solto e ele vai serelepe, correndo e cheirando aqui e ali, como o “pequeno jornalista que lê todas as notícias pregadas nas pontinhas dos capins e da grama...” Foi uma amiga minha que disse isto: ele cheira como se estivesse lendo e depois deixa a sua marquinha lá em cima. Com isto, eu divago e penso nas coisas que estava escrevendo, lendo. Agora, estou relendo um livro de poesias de Drummond e pensava nos seus versos: “Quero a paz das estepes/ a paz dos descampados/ a paz do pico de Itabira quando havia pico de Itabira/ a paz de cima das Agulhas Negras/ e a paz muito abaixo da mina mais funda e esboroada/ de Morro Velho/ a paz/ da/ paz (“Apelo aos meus dissemelhantes em favor da paz”).

Quando já subia a rampa para os diques, olhei para a esquerda por acaso. A três casas dali, numa que tinha uma rampa ligando a saída dos fundos com os diques, vi uma estranha procissão: uma maca com rodinhas carregando um corpo totalmente embrulhado num pano, sendo empurrada por dois homens e seguida por duas mocinhas. Era a casa de Paul, mas ele não morava mais lá, havia alugado para um tal de Pierre – um homem por volta dos 40 a 45 anos.

Continuei o passeio com o Pitú para o outro lado, mas aquela imagem da pequena procissão ficou gravada em minha mente. Quando voltamos à casa, limpei as patinhas do pequeno e saí novamente para pesquisar o que havia de estranho naquela cena. Doente não podia ser, pois os dois homens não eram enfermeiros. E nunca vi doente empacotado como se fosse presente. Bati na casa da Beatrix, mas ela não sabia de nada. Fui à casa de Vera, vizinha de casa com o Pierre, mas ela também não sabia de nada. Aí, deparei-me com o outro vizinho, da casinha da esquina, com o qual fiquei a conversar. Quando perguntei, ele logo disse: “Sim, era o Pierre e estava morto”. Como assim? Ele não soube explicar, tudo muito recente.

Naquela noite, sonhei com o Pierre que eu não conheci mas sempre tinha ouvido as suas histórias: ele dançou a noite toda na festa da Wilma, Pierre soltou vários fogos de artifício na rua durante a passagem de ano e outras coisas. Mas não me lembrava de tê-lo visto nenhuma vez. Era como sonhar com um fantasma, sem rosto, mas com uma presença marcante, pois suas histórias eram rodadas na cidade, principalmente por uma de suas vizinhas que o adorava. Foi no outro dia, na terça-feira, que ouvi que o Pierre havia se enforcado e seu irmão o havia encontrado. E tudo na segunda, a segunda de janeiro conhecida por aqui como: Black Monday (segunda-feira negra).

Esse episódio me levou à infância, quando ouvi a notícia de que o marido de uma amiga de minha mãe havia se enforcado em casa e a própria esposa o havia encontrado. E voltando ao presente, lembrei-me de algumas linhas do poema de Drummond, cujo livro estava relendo: “E agora José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora José? Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José?”.

Esse é o poema de Drummond, em que ele fala de si próprio, mas para mim, serviu para dar um rosto ao homem que deixou a vida e nem se despediu de ninguém, simplesmente foi embora. Por um acaso, eu vi a sua partida, enrolado num pano em cima de uma maca. Cinco dias depois ele foi cremado. E agora, Pierre?

E você, caro leitor, já teve uma experiência com algo parecido?

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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