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28/01/2020 | domtotal.com

Fora de Hora: o humor fora de prumo

Formato já consagrado no humor ganha versão de qualidade duvidosa para ocupar lugar de 'Tá no ar'

Equipe do 'Fora de Hora', da Globo; à frente, Paulo Vieira e Renata Gaspar
Equipe do 'Fora de Hora', da Globo; à frente, Paulo Vieira e Renata Gaspar (Divulgação/TV Globo)

Alexis Parrot*

A paródia de telejornal é uma velha conhecida do público brasileiro, mas em especial de quem sintoniza a Globo. Todos os grandes nomes do humor contratados ao longo de décadas pela emissora dos Marinho brincaram com a ideia da desconstrução do formato de diferentes maneiras.

Muito nos divertiu Chico Anysio com o Jornal do Lobo (cujo apresentador era uma caricatura desdentada de Cid Moreira), além da imitação que Chico fazia de Paulo Francis, colunista cativo do Jornal da Globo àquela altura. De Jô Soares, vale mencionar o Jornal do Gordo, "para pessoas mais ou menos surdas" – uma gozação inesquecível com a função do intérprete de libras na TV, uma novidade ainda emergente naqueles longínquos anos 80.

Mesmo admitindo que o quadro dificilmente teria boa acolhida hoje – graças ao tom politicamente incorreto e anárquico, fazendo troça com os deficientes auditivos – é impossível negar tratar-se de verdadeira master class de humor em que Jô dividia a cena com o não menos genial Paulo Silvino.

No TV Pirata, marcou época o Casal telejornal, transmitido da sala da casa dos apresentadores, marido e mulher (interpretados por Luiz Fernando Guimarães e Regina Casé) que misturavam a leitura das principais notícias com seus problemas domésticos e pessoais. Havia também a Adelaide Catarina, personagem de Débora Bloch que mimetizava os lugares comuns, tiques e jargões dos profissionais da reportagem televisiva. Suas passagens sempre começavam com um ridículo: "estamos aqui..." e seu crédito na tela a identificava como "jornalista e manicure".

Já o Casseta e Planeta urgente levou a ideia mais a fundo e baseou inicialmente todo o seu programa no interessante conceito de "humorismo-verdade / jornalismo-mentira". A ideia da trupe foi uma grande bola dentro e, com certeza, o ponto alto da carreira de seus integrantes até o momento.

Os Trapalhões também usaram muito do expediente, interpretando esquetes com imitações de jornalistas conhecidos, apresentadores de telejornal loucos de pedra internados no hospício, ou até mesmo com super-heróis assumindo a missão de noticiar atrás das bancadas no estúdio.

Com exemplos em tão grande quantidade e um vasto legado a defender dentro da tradição da comédia na televisão brasileira (especialmente na própria Globo e neste formato específico mais ainda), assusta como o novo humorístico Fora de hora, recém-estreado, consegue ser tão ruim. Se é para seguir as pegadas já deixadas por alguém, que pelo menos haja algum esforço para estar à altura delas.

O excessivo elenco de 15 comediantes para apenas meia hora de produto final salta aos olhos como um erro de cálculo básico. Mesmo com tanta gente à disposição, a única presença feminina negra do cast (a cantora Késia Estácio) foi escalada para encarnar uma repórter cobrindo justamente um ensaio de escola de samba, na única vez em que apareceu no programa de estreia.

Ainda que involuntário, o descuido cheira a descaso. O humor que precisamos ver em nossa televisão não pode mais ser irresponsável a ponto de reforçar antigos estereótipos (cômicos ou não), principalmente quando o programa se arvora da pretensão de fazer crítica política e social, como é o caso da atração.

Filho direto do extinto Tá no ar: a TV na TV, este Fora de hora nada mais é que uma amarração temática de um tipo de piada que já aparecia com destaque em seu antecessor (a falsa reportagem de TV). A iniciativa em si não representa um problema.

É hábito antigo transformar quadros de muito sucesso em novos programas (o melhor exemplo da prática é, sem dúvida, a Escolinha do Professor Raimundo de Chico Anysio, revivida mais uma vez e agora com Bruno Mazzeo defendendo bravamente a criação de seu pai) ou presentear com uma atração própria personagens que tenham caído no gosto do povo (como aconteceu com o Bronco de Ronald Golias que, de coadjuvante na Família Trapo, tornou-se protagonista na Band, 16 anos após o fim do programa original). 

Até aí, tudo bem, mas o molho começa a desandar mesmo quando tudo a que se assiste parece cópia malfeita de algo que já foi visto antes. O esquete com a testemunha que não quer aparecer na TV com a "voz de pato" e a imagem do rosto quadriculada, abrindo mão do anonimato previamente combinado, já aparecia há coisa de 30 anos atrás no TV Pirata.  

O esquema de comentaristas esdrúxulos que são chamados para discutir assuntos que, a princípio, parecem ter pouco ou nada a ver com sua expertise, é recurso consagrado pelo Weekend update, quadro do Saturday Night Live norte-americano. A gracinha de fazer perguntas cada vez mais estapafúrdias em velocidade crescente é marca registrada de Tatá Werneck no quadro com especialistas no seu talk show Lady night.

Da bancada de apresentadores (Paulo Vieira e Julia Rabello), pode-se dizer, no mínimo, que buscam reproduzir as entonações e a malemolência carioca que consagrou o Porta dos Fundos, porém, sem o viço de novidade que a rapaziada conseguiu alcançar quando se lançou no youtube, há quase oito anos atrás. Como Rabello já passou pelo grupo, ainda vá lá... Mas e Vieira? Só porque foi apadrinhado por Porchat, está obrigado a tentar imitá-lo eternamente?   

Todo o núcleo de humor da Globo parece sofrer da mesma doença. O mesmo Paulo Vieira também protagoniza um lastimável quadro no programa vespertino Se joga (que poderia se chamar Não decola). Isso é muito minha vida é o título – uma reciclagem do Emergente como a gente, da época em que trabalhava para o programa do padrinho, na Record – e pretende tratar com "bom humor" as agruras cotidianas da vida de quem é pobre.

Sem a crítica elegante (e de fato engraçada) de um Primo Pobre e Primo Rico ou o lirismo de um Renato Aragão quando homenageava Carlitos com o seu vagabundo Bonga, as situações encenadas pelo comediante são de mau gosto e ideologicamente perversas. Com generalizações infantis, querem ensinar para o público que pobreza não é condição econômica ou fruto de desigualdade, mas valor inato e insuperável.

Após a classe C ter se tornado o grande símbolo do êxito das políticas públicas de cotas e distribuição de renda dos governos petistas, parece muito cruel ver-se agora retratada como única culpada pela miséria em que vive. Será que a miopia social do bolsonarismo conseguiu contaminar até o riso?      

Com duas participações muito acima da média de todo os outros participantes e das piadas bobas que nos foram impingidas, Marcelo Adnet parece ser a única coisa ali que vale a pena. Sem as amarras de um talk show ou da teledramaturgia, é incrível testemunhar como ele rende e sabe divertir.

Se a estreia do Fora de hora serviu para alguma coisa, foi para provar que passou da hora do ex-MTV ganhar uma atração solo de humor na casa.

(FORA DO AR - novo humorístico da Globo. Terças-feiras, após a novela das nove.)

*Alexis Parrot é crítico de televisão, roteirista e jornalista. Escreve para às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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