Religião

28/01/2020 | domtotal.com

As mulheres precisam ser o novo antipapa da Igreja

Método de dividir e conquistar mulheres é particularmente insidioso na Igreja Católica

Francisco reunido com freiras da União Internacional das Superioras Gerais
Francisco reunido com freiras da União Internacional das Superioras Gerais (CNS/ Vatican Media/ Reuters)

Jamie Manson*
NCR

O papa Francisco se reuniu com 850 superioras gerais, em 10 de maio de 2019, no Vaticano, que estavam em Roma para a assembleia plenária da União Internacional dos Superioras Gerais. A organização representa mais de 450.000 irmãs em mais de 100 países.

Houve um novo episódio na terceira semana de janeiro em uma saga que vem se formando no ano passado entre os "dois papas" e suas supostas diferenças ideológicas.

Nesta última edição, aparece o papa emérito Bento XVI aparentemente coautor de um livro defendendo os ensinamentos da Igreja Católica sobre o celibato obrigatório. Foi uma ação que alguns interpretaram como uma expressão de dissidência contra o papa Francisco, que pode estar pensando em abrir a ordenação para alguns homens casados em regiões da Amazônia onde o clero é escasso.

Esta última ação contrária, ocorre depois que Bento XVI escreveu uma carta, em abril de 2019, culpando a revolta social e política da década de 1960 como causa do abuso sexual do clero. Bento lançou a missiva menos de dois meses depois que Francisco realizou um encontro global sem precedentes sobre a crise em fevereiro de 2019.

A confusão toda surgiu em uma farsa sobre o que um disse do outro, com os funcionários de batina do alto escalão do Vaticano mentindo e fazendo todos os tipos de acusações um ao outro. O coautor de Bento XVI, o super tradicional cardeal Robert Sarah, afirmou que o papa emérito concordou várias vezes na autoria conjunta, mesmo recentemente, no final de novembro. O secretário de longa data de Bento, o arcebispo Georg Gänswein, insistiu que não, e, de fato, o papa emérito está muito fraco para ter participado disso.

Uma série de outras declarações contraditórias foi desencadeada pela editora do livro, e mesmo o astuto arcebispo Carlo Maria Viganò, prelado que transformou a semeadura de divisões em uma forma de arte, abriu caminho neste teatro do absurdo, insistindo que Gänswein estava manipulando o papa emérito.

Não vou mentir, fiquei encantada ao ver esses homens muito poderosos se confrontando, tanto na mídia quanto no ninho de fofocas que é o Estado da Cidade do Vaticano.

Normalmente, são as mulheres que se opõem umas às outras. Seja em Hollywood, nos negócios, na academia, nas artes e até na maternidade, as brigas e o drama entre mulheres são incentivados para dar a falsa impressão de que as mulheres são disfuncionais, não podem trabalhar juntas e estão constantemente em conflito com todos ao seu redor.

Esse método de dividir e conquistar mulheres é particularmente insidioso na Igreja Católica, onde um pequeno grupo de homens eleitos elabora normas absolutas sobre quem são as mulheres, do que são capazes e o que podem e não podem fazer. Mas seu entendimento simplista das mulheres tem muita influência, e essas ideias inevitavelmente colocam as mulheres na Igreja umas contra as outras.

Por exemplo, existe a sensação de que a mulher boa e obediente ama sua Igreja e não sonha em tornar a vida desconfortável para os homens no comando, enquanto a mulher irritada e descontente quer apenas poder, glória e honras.

Podemos ver isso na pergunta sobre as mulheres diaconisas. As mulheres que querem fazer parte do grupo de diáconos simplesmente querem servir, e por aí vai; enquanto as mulheres que desejam o sacerdócio têm desejo de poder.

Essas divisões, que são o resultado de teologias criadas por e para benefício dos homens, dificultam que as mulheres se organizem em uma frente unida, mesmo em uma Igreja onde não têm voz, inclusive, muitas vezes, não têm nem influência sobre a doutrina e nem autoridade para tomar decisões.

Mas, em vez de ficar reclamando nesse fiasco de papas em duelo – ou talvez seja mais exato dizer facções papais em duelo – toda a situação me faz sonhar com outro futuro.

A Igreja está em uma posição notável, que não existia há séculos. Temos um cenário semelhante ao surgimento de um antipapa.

Como muitos de nós lembramos da aula de história do Ensino Médio, durante o cisma ocidental, que começou em 1378, havia um papa em Roma e um antipapa em Avignon, na França. Mas havia também um segundo antipapa que se estabeleceu em Pisa, Itália. O primeiro antipapa de Pisa foi Alexandre V. Ele morreu no início de seu reinado e foi sucedido por outro antipapa, que, acredite ou não, adotou o nome João XXIII.

Havia mais de 30 antipapas na história da Igreja Católica, e geralmente tinham facções por trás deles que questionaram a validade da eleição do papa em Roma.

Independentemente de quão consciente é Bento, o que está acontecendo ao seu redor, demonstra que tem uma facção de católicos radicalmente tradicionalistas que não aceitam a autoridade do atual sumo pontífice.

Essa fenda cada vez maior na Igreja é, obviamente, o que resulta de conferir a um homem um poder absoluto, incontrolável e quase divino.

Então talvez seja hora de um novo tipo de segundo antipapa. Mas desta vez, não um homem, mas uma união de todas as mulheres da Igreja.

Um provérbio chinês diz: "As mulheres sustentam metade do céu". É justo dizer que as mulheres detêm muito mais da metade da Igreja Católica. Pense nisso: as mulheres representam 52% dos mais de 1 bilhão de pessoas na Igreja e, somente nos Estados Unidos, 85% das posições da Igreja são ocupadas por mulheres. Então, nós, mulheres, temos os números. Se as mulheres se afastassem da Igreja por um dia, toda a instituição seria jogada no caos.

E se usássemos essa alavancagem, invadíssemos o Vaticano (pacificamente, é claro) e iniciássemos as ações mais amigáveis e hostis dessa bela bagunça em que os homens nos meteram?

No Sínodo da Amazônia, ouvimos muitos relatos de como as mulheres mantêm a Igreja sobre seus ombros, indo para os lugares mais remotos da Amazônia para evangelizar, apesar das constantes ameaças de violência e exploração de seu trabalho. Claramente, elas têm a força e os meios necessários para intervir e dominar o navio.

E se as 1.350 irmãs da Conferência de Liderança de Religiosas (LCWR) entrassem no Vaticano e iniciassem seu próprio tipo de visita apostólica? Do mesmo modo que os bispos intervieram, em 2012, para monitorar e controlar a LCWR, talvez seja hora de as irmãs de todo o mundo intervir e regular essa situação papal que deu errado.

Séculos atrás, quando as religiosas chegaram ao que é hoje os Estados Unidos, tiveram confrontos com piratas, subiram montanhas e atravessaram planícies, para procurar os mais necessitados deste país e construir inúmeras escolas e hospitais. Até hoje, as freiras de todo o mundo vão intrepidamente a lugares que poucos ousam ir, enfrentando guerras, doenças, privações e outros horrores indescritíveis.

Com esse tipo de legado, essas mulheres podem renovar e refazer todas as coisas nessa bagunça todo-poderosa que é o Vaticano? Elas podem ser as pessoas mais adequadas para essa tarefa.

Aliás, pensemos. Se continuarmos deixando que os homens tenham todo o poder, o que isso nos dará? Sacerdotes casados? Ainda teremos que responder aos homens. Algum tipo de papel de diaconisa diluída que dá às mulheres mais trabalho e um mínimo de autoridade? Sentiremos vergonha pela gratidão apenas por essa mudança minúscula e não ter pressionado por mais.

Na terceira semana de janeiro, o papa Francisco recebeu elogios em todo o mundo por nomear uma mulher como subsecretária na Secretaria de Estado do Vaticano – um escritório em que trabalhava há 27 anos. Se este é o caminho que estamos seguindo, será um barco lento para a igualdade. Todos sabemos que a Igreja não pode esperar tanto tempo por justiça.

Realmente, pense sobre isso. Esses homens não são interlocutores para nós, mulheres. Provamos essa verdade todos os dias em paróquias e ministérios do campus, programas de extensão e instituições de caridade, hospitais e clínicas, escolas e universidades e, sim, até na mídia católica.

Então, por que meu sonho parece tão absurdo?

Porque séculos de doutrina sexista – em que nenhuma mulher teve voz na criação – entrou tão profundamente em nós que é inimaginável que pudéssemos intervir e tomar as rédeas.

 E é isso que precisa mudar se realmente queremos mudar a Igreja.


Publicado originalmente por NCR.

*Jamie L. Manson é editora de livros e colunista premiada de longa data do National Catholic Reporter. Siga-a no Twitter: @jamielmanson



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