Brasil Política

30/01/2020 | domtotal.com

Líder indígena Kopenawa diz que Bolsonaro não gosta dos povos da Amazônia

Indígena encarna dramas pessoais e lutas pela sobrevivência dos quase 24 mil membros dessa tribo do norte do Brasil, perto da fronteira com a Venezuela

Líder yanomami Davi Kopenawa, em 29 de janeiro de 2020, em Paris
Líder yanomami Davi Kopenawa, em 29 de janeiro de 2020, em Paris (AFP)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) "não entende o valor da floresta amazônica" e "não gosta" das populações que a habitam - denuncia o líder indígena da tribo yanomami Davi Kopenawa em entrevista à AFP. Aos 63 anos,  eleencarna dramas pessoais e lutas pela sobrevivência dos quase 27.000 membros dessa tribo do norte do Brasil, perto da fronteira com a Venezuela.

Sua campanha o levou a Paris, para a inauguração nesta quinta-feira da exposição de fotos de sua amiga Claudia Andujar sobre os yanomami, na Fundação Cartier.

"Como nos dias da ditadura militar, temos alguém no poder que não gosta dos indígenas, que não gosta do meio ambiente, que não entende o valor da floresta amazônica e que não entende que nós, os povos indígenas, respeitamos e defendemos a floresta", disse Kopenawa durante uma visita a Paris para a inauguração de uma exposição da fotógrafa Claudia Andujar dedicada aos yanomami.

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"Bolsonaro e o presidente americano (Donald Trump) infelizmente são amigos, os dois têm o mesmo objetivo: fazer desaparecer os povos indígenas para poder enriquecer sua família e seus amigos. E nós estamos muito revoltados e muito preocupados com esta situação", continua aquele que recebeu em setembro o Right Livelihood Award, considerado o "prêmio Nobel alternativo", junto com a jovem sueca Greta Thunberg, ativista da luta contra o aquecimento global.

Ele pede à comunidade internacional que fique do lado dos povos indígenas, e que o presidente francês, Emmanuel Macron, continue a "criticar" as políticas de seu colega brasileiro, enquanto uma polêmica opôs os dois líderes durante os recentes incêndios na Amazônia.

"Vocês devem ficar do nosso lado, e o presidente da França não deve nos deixar sofrer sozinhos. As autoridades de todo mundo devem criticar esse governo brasileiro. Os povos da floresta não concordam com as ideias do atual presidente do Brasil, porque ele não nos respeita de maneira nenhuma", frisou.

Ele saúda "o papel muito importante" do papa Francisco - que organizou em 2019 um sínodo sobre a Amazônia -, "um amigo dos povos indígenas".

"Ele está conectado à alma da floresta, porque ele é um homem que tem uma conexão com Deus", completou.

"Minha boca, minha arma"

"O governo brasileiro não pede nossa opinião. Eles não querem falar conosco, querem apenas extrair as riquezas da terra. O resto do mundo, a comunidade internacional, não devem acreditar nas palavras do nosso presidente, porque ele só quer negociar essa riqueza no exterior para enriquecer seus aliados. E é por isso que nós, os povos indígenas, estamos nos rebelando e lutando contra essa situação", explicou. Ele descreve sua luta como uma "guerra para garantir que a floresta permaneça em pé".

"Não tenho permissão para ter armas de fogo. Tenho ferramentas que são o meu discurso, principalmente. Quando falo, falo para me defender, para dar um nome aos yanomami, para que as pessoas que não gostam de me ouvir, que não conhecem minha realidade, possam entender por que estou lutando. Minha arma é minha boca", insistiu.

"Em outra época, usávamos arco e flecha para matar a caça. Agora, aprendemos a usar caneta e papel para lutar também", acrescentou.

Davi Kopenawa sabe que essas palavras também devem ser transmitidas: "Na Internet, você pode ouvir o grito dos povos indígenas, o grito dos povos da floresta, para que possa alcançar as pessoas que vivem nas cidades e que eles possam ser alertados para os perigos".

E a consciência dessa causa também passa por exposições como a de Claudia Andujar, "minha amiga há muito tempo".

"É fantástica essa mulher branca que veio nos visitar e entendeu que nosso único objetivo era garantir nossa sobrevivência e a sobrevivência da floresta", elogiou.


AFP



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