Religião

31/01/2020 | domtotal.com

Compreender o desejo; não ceder à luxúria

O que fazemos com o desejo é algo que devemos estar sempre atentos

O universo da sexualidade é, na realidade, um multiverso
O universo da sexualidade é, na realidade, um multiverso (Erik Lucatero/ Unsplash)

Felipe Magalhães Francisco*

O mundo nunca mais foi o mesmo, desde a revolução sexual do século passado. Quantos horizontes se abriram, desde então? Essa revolução trouxe transformações em todos os campos da vida. Lembro-me de um episódio de um seriado, House of Cards, quando o então protagonista disse: "tudo tem a ver com sexo; e sexo tem a ver com poder". Essa fala dá muito o que pensar. A sexualidade – de maneira ampla – é o que torna possível nossas relações. E, dentro dela, o erótico tem se mostrado muito importante na vida das pessoas: já era, certamente, mas agora as pessoas não têm mais tanta dificuldade em lidar com isso de uma maneira mais aberta, talvez mais “pública”. Os memes e tuítes são espelhos de nossos comportamentos...

Temos aprendido muito sobre sexualidades e, com isso, sobre nossos próprios desejos. Isso é positivo. Mas isso também causa certo pavor em alguns setores, sobretudo nos religiosos. O universo da sexualidade é, na realidade, um multiverso e é compreensível que fugir de padrões com os quais a sociedade se estabeleceu pode mesmo ser desesperador para alguns. É terrível que estejamos, socialmente, dando passos para trás, quando o moralismo sem moral tem voltado à tona e, inclusive, tem vencido eleições. De algum modo, isso revela que ainda estamos, mesmo, um pouco perdidos. O mundo tem se transformado muito rápido, realmente, e é mesmo difícil acompanhar tudo isso.

E é justamente por isso que precisamos conversar e refletir sobre essas coisas. A pluralidade sexual é uma realidade que foi assumida e isso é irreversível, odeiem os LGBTfóbicos ou não. Os feminismos, nos seus mais variados extratos, têm proposto reflexões deveras fundamentais a respeito das relações, ajudando-nos a perceber o tipo de pessoas que não devemos ser e quais relações devemos não estabelecer. Mas, ainda assim, temos muito que caminhar. Há muito ainda o que precisamos descobrir a respeito de nossa sexualidade, e por consequência, a respeito de nossa relação com o erótico. Tomar consciência do nosso desejo é fundamental para que nos conheçamos. Nosso desejo tem a ver com aquilo que constitui todo nosso sistema existencial e, quando lidamos mal com nosso desejo, isso diz muito a respeito de nós próprios.

Desejar é bom: é o que nos move. Mas o que fazemos com o desejo é algo que devemos estar sempre atentos, sobretudo nestes tempos de consumismo voraz e de banalização do sexo. Ao propor uma matéria especial sobre a luxúria em sua roupagem hodierna, queremos refletir, mais propriamente, sobre o desejo. Fugir de qualquer perspectiva moralista, para abordar a questão da luxúria, é importante para que lidemos com o tema de modo profundo. É por isso que optamos que o fio condutor que une nossa reflexão, neste Dom Especial, fosse o desejo.

O caminho proposto é o seguinte: primeiro, Rodrigo Ladeira reflete sobre a ambiguidade do desejo, no texto Desiderato, no qual recorre ao pensamento de René Girard para pensar o papel do desejo como força do ser. Em seguida, Teófilo da Silva propõe o artigo Não me retenhas! Ou: o desejo não pode ser uma prisão, em que recorre a imagens bíblicas para mostrar que os encontros reclamam uma ética, como caminho necessário para a sexualidade, e nela o erótico, sejam possibilidades de humanização e não de escravização. E aprofunda a dimensão ética, por fim, Rodrigo Ferreira Costa, no artigo A ética do cuidado como caminho para a superação da luxúria, quando reflete a sexualidade humana como realidade teologal, encarnatória, verdadeiro dom para a maturidade humana.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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