Religião

31/01/2020 | domtotal.com

Desiderato

O desejo não repousa na coisa desejada, nem no valor dado à ela mas naquele que torna as coisas desejáveis

A gente quer sempre ter o que o outro tem. A grama do vizinho é sempre mais verde que a minha
A gente quer sempre ter o que o outro tem. A grama do vizinho é sempre mais verde que a minha (Unsplash/ Steve Douglas)

Rodrigo Ladeira*

Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu.
(CHICO BUARQUE, Todo sentimento, 1987)

Não sei falar do “desejo” sem passar por René Girard. Foi ele quem me deu uma chave de leitura para questão da ambiguidade que está latente no ato de desejar. Sua tese tem como fundamento a sua original “teoria mimética”. Em suma, ele diz que apreendemos o mundo por imitação de outrem. Na origem desse imbróglio chamado desejo está a tendência humana de rivalizar. É a oposição o nó do desejo. Só desejamos o que não possuímos e quando tomamos posse ainda assim continuamos sem a posse completa, daí o “ciclo rivalitório”. Explico. O desejo não repousa no objeto em si (na coisa), nem é subjetivo (no valor dado à coisa) mas num terceiro, o próximo (aquele que torna as coisas desejáveis). O próximo – aquele que nunca serei porque outro –  é paradigma dos meus desejos. Daí a violência e rivalização que, a nosso sentir, é produtora do que há de mais humano em nós, a ambiguidade que vem na esteira do desejo.

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Não é sem razão que o legislador veterotestamentário elencou, na segunda metade do Decálogo (Dt 5, 6-21), quatro interdições que culminam na impossível e quase risível proibição do desejo. É que, como dissemos, não há possibilidade de ser sem desejar. Nos versículos 17 ao 20 do capítulo 5 de Deuteronômio encontramos proibições pontuais: v. 17 – “Não cometer homicídio”; v. 18 – “Não cometerás adultério”; v. 19 – “Não furtarás”; v. 20 – “Não darás falso testemunho contra o próximo”. Estas normas fundamentais do agir humano são, em tese, práticas e de objetivo cumprimento. Até aqui nos parece pelo menos razoável cumpri-las. O problema é quando o legislador dá um salto na proibição. Ele assevera no versículo 21: “Não desejarás a mulher do próximo. Não cobiçarás a casa do próximo...”. Cobiçar e desejar são aí sinônimas – aqui nos interessa exclusivamente estes dois verbos. O Decálogo reserva o seu maior mandamento proibitivo ao desejo de todo ser humano. Trata-se de interditar o próprio “desejo do desejo”. Não se trata de uma interdição marginal.

O último mandamento não sucumbe à tentação de simplesmente proibir. Trata-se de não apenas desejar os ‘bens’ do próximo, mas o desejo que o próximo depositou nos bens. Esse não é o desejo mais comum? (cf. GIRARD, Eu vi Satanás descer como um relâmpago) Repare! A gente quer sempre ter o que o outro tem. A grama do vizinho é sempre mais verde que a minha, mesmo que a minha seja tão verde quanto a dele. “O legislador que proíbe o desejo dos bens do próximo está tentando resolver o problema número um de qualquer comunidade humana: a violência interna” (ibidem). Há um primeiro elenco de objetos de disputa (v. 17-20) mas, como são incontáveis, o Decálogo dá um pulo dos objetos para aquilo, ou melhor, aquele que está sempre presente, o próximo, o vizinho. Em síntese, se os objetos do nosso desejo pertencem ao próximo, é o próximo que os torna desejáveis.

A questão é curiosa e dá o que pensar, não é? Aqui mora o que nos interessa. Não é a solução prática. Há uma tentação da nossa sociedade atual de que as coisas sejam resolvidas pela via de formulação ou mero cumprimento de leis. Na Igreja prefere-se simplesmente cumprir com os ritos e regras. Na sociedade a gente se sente cidadão de bem quando paga os impostos, paga os boletos etc. É mais fácil e nos dá uma sensação de estar quite viver apenas cumprindo as normas pré-estabelecidas. Na leitura que propomos a questão não passeia pelo simples “cumpra-se”. É necessário, de saída, reconhecermos que somos ambíguos. Parafraseando São Paulo, em Rm 7,15, “quero fazer assim e acabo fazendo assado”.

Somos ambiguidade, ou seja, somos mais de um sendo apenas um. O desejo é lugar da nossa impossibilidade e é exatamente nessa fraqueza que reside a força do ser. Não dá para não desejar o desejo de outrem (cf. Girard) pois nisso está a dinâmica da própria vida. Aprendemos quando desejamos a partir do desejo do próximo. Mas é aí que está o grande “barato” (ou seria um desbarato?) do viver. Não posso deixar de desejar, mas ao fazê-lo devo saber, de antemão, que estou em disputa, rivalizando com outrem, em estado de violência fundamental. É preciso manter firme a ideia de que somos “proibidos” de desejar os “bens” pois eles apontam para o próprio desejo do próximo (nem ele mesmo se dá conta que provoca desejos). Ao desejar devo aproximar-retirando-me ao invés de simplesmente subtrair do outro o que lhe pertence-sem-pertencer (a “mulher”, a casa, os bens... o desejo).

Como diz Jean-Luc Nancy “Só um corpo separado pode tocar”. Manter a separação em ambiguidade basilar (é assim a narrativa do primeiro relato da criação. Deus – o inominável – cria separando) para dar espaço ao toque como princípio do desejo. “Tocar agita e faz mexer. A partir do momento em que aproximo meu corpo de outro corpo (...) desloco o outro (...), o outro me afasta de si e de certo modo me retém. O tocar age e reage ao mesmo tempo. O tocar atrai e rejeita. O tocar empurra e repele, pulsão e repulsão, ritmo de fora e de dentro, da ingestão e da rejeição, do apropriado e do inapropriado” (Arquivida, p. 16). Transformamos as rivalidades num jogo do dentro-fora do movimento do próprio desejo. Não foi assim que Jesus – o nomeável (o amor se encarna) – fez? Tocou e foi tocado dentro do circuito do próprio desejo. (cf. Mc 5, 25ss).

*Rodrigo Ladeira é mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) / BH-MG. Coordena as atividades de educação continuada e pós-graduação lato sensu dessa mesma IES. Ensina Liturgia e Sacramentos em vários cursos livres e de especialização teológica em Belo Horizonte-MG.



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