Religião

31/01/2020 | domtotal.com

Não me retenhas! Ou: o desejo não pode ser uma prisão

Desejo é uma energia que nos coloca em movimento

O grito 'não me retenhas!' é, na verdade, um apelo ético: 'não me desumanize'
O grito 'não me retenhas!' é, na verdade, um apelo ético: 'não me desumanize' (Unsplash/ Ronny Sison)

Teófilo da Silva*

O fim do Evangelho de João (20,11-18) traz uma cena muito bonita, quando narra o encontro de Jesus Ressuscitado com Maria Madalena. A cena se passa junto ao sepulcro no qual Jesus fora sepultado e chama a atenção porque intui-se lá um jardim. Enquanto chorava a ausência do corpo do seu Mestre, Madalena se depara com um homem, que a pergunta o motivo pelo qual chorava. Pensando que fosse ele o jardineiro, implorou para que, se ele tivesse sido quem levou o corpo de Jesus, que a dissesse para onde, para que fosse buscá-lo. Nisso, o homem a chama pelo nome, “Maria!”, e, assim, ela pôde reconhecê-lo: era Jesus. Alguns manuscritos trazem a menção de que Madalena se lançou aos pés de Jesus, para abraçá-los. Jesus, diante disso, diz: “Não me retenhas [...]!”.

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Essa cena tem como pano de fundo o livro Cântico dos cânticos, o maior dos cantos de amor. Mas não de qualquer amor, e sim aquele erótico. Numa das cenas do canto-poema, a amada sai em meio à noite, à procura do amado. Ela encontra os guardas, a quem pergunta se o viram (no texto de João, o paralelo se dá com o diálogo de Madalena com os anjos) e, em seguida, eis que encontra o amado: “Passando por eles, contudo, encontrei o amado de minha alma. Agarrei-o e não o soltarei [...]” (Ct 3,4). A fala de Jesus, para que Madalena não o retivesse, faz eco ao desejo profundo daquela que queria segurar e não soltar o amado, tal como no Cântico dos cânticos.

Para além do sentido teológico ao qual o texto de João serve, com a liberdade poética, pensemos na imagem, para refletir sobre relações eróticas. Somos seres de desejo e, não por acaso, seres da falta: as duas situações estão necessariamente implicadas. A psicanálise já muito nos ajudou e continua a ajudar a compreender isso. A falta é um traço radical em nós e, ao longo de nossa vida, buscamos supri-la e, por isso, somos movidos pelo desejo. O desejo é incontrolável: o que fazemos a partir dele é que está em nossa possibilidade de ação. É por isso, por exemplo, que não existe, real e estritamente, ex-gays. O desejo está lá, o que pode não existir é a busca pela saciedade desse desejo. Mas, certamente, buscar-se-ia a satisfação noutra realidade (e, com isso, a frustração).

É certo que o desejo não se reduz ao erótico, mas, aqui, é o ponto que nos interessa. Uma relação erótica, para nós humanos, é mais que o cumprimento de um instinto. Tendemos a atribuir sentido a essas relações carnais. Por isso a banalização do sexo é algo preocupante e desumanizante, tanto para quem lida com o erótico de uma maneira banalizada, como para quem acaba por se relacionar em tais contextos. No jogo carnal de eros, os gestos são sempre ambíguos: o toque, o abraço, o beijo, a carícia, a penetração, o orgasmo... tanto podem significar abertura e acolhida ao outro, bem como podem significar tentativa de retenção desse outro. É por isso que toda relação erótica deve pressupor uma relação ética: esse é o caminho para a não objetificação do outro, para que não seja uma mera satisfação de um desejo. A ética é o que nos impede de cair na tentação de permanecer no gozo: uma tentação sempre frustrada, vale dizer.

A banalização das relações carnais pode ser considerada uma roupagem para o pecado da luxúria em nossa contemporaneidade. Desejos, todos e todas têm, nas mais alargadas possibilidades presentes no mundo humano que criamos. Mas o desejo é uma energia que nos coloca em movimento: ele é importante para que a vida tenha continuidade. O risco é que nos tornemos escravizados por ele e, com isso, que acabemos por objetificar o outro, como um instrumento de nossa saciedade. O grito “não me retenhas!” é, em nossa metáfora, um apelo ético que cotidianamente estamos a fazer: é, na verdade, um “cuida de mim”, um “não me desumanize” (para citar, indiretamente, Lévinas).

A sexualidade – tão fascinantemente ampla e plural – é condição de possibilidade para que nos tornemos humanos. Reduzi-la ao encontro erótico dos corpos, desvinculando o aspecto ético disso, é ceder à luxúria. Sexo é coisa nossa: eis algo absurda e lindamente humanos. O encontro dos corpos, o tornar-se uma só carne, não pode significar fusão: é preciso não anular o outro, mas, ao contrário, é no reconhecimento da diferença da alteridade que podemos conhecer a nós próprios. E é exatamente isso que a narrativa do encontro do primeiro homem criado, com a primeira mulher criada, no Gênesis, marcada por um poema, manifesta a humanização que aquele encontro promoveu: “esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne!”. É também essa a pedagogia que podemos tirar do encontro de Jesus Ressuscitado com Maria Madalena: os encontros são sempre encontros que reclamam uma ética: nosso desejo não deve nos levar à sedução de reter-possuir o outro. Que o nosso desejo esteja sempre marcado pelo elemento ético. Só assim poderemos seguir o nobre conselho de Chico Buarque: façamos, vamos amar!

*Teófilo da Silva é teólogo e poeta.



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