Religião

31/01/2020 | domtotal.com

A ética do cuidado como caminho para a superação da luxúria

O cristão é convidado a desapropriar-se dele mesmo para se dar a outrem como dom

A sexualidade assumida como dom, ternura, cuidado e doação é caminho de maturidade humana
A sexualidade assumida como dom, ternura, cuidado e doação é caminho de maturidade humana (Unsplash/ Becca Tapert)

Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

A luxúria como sinônimo de desejo, concupiscência, prazer carnal, gozo etc. é um dos “pecados capitais” mais visado. Se por um lado há os que tentam negar, condenar, “lançar ao inferno” todo tipo de prazer. Há, por outro lado, aqueles que só querem curtir, gozar, embriagar-se de prazer, sem se perguntar pela vida e a felicidade do outro. Em ambos os casos parece não levar a sério o mistério de amor presente no coração humano que o faz transcender sua própria finitude para abrir-se ao Infinito que inhabita em nós.

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O ser humano é um ser desejante. Nosso coração anseia por uma vida feliz. Como escreve Santo Agostinho: “fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousar em Ti”. Não somos seres para a morte, e sim para a vida plena e feliz. Neste sentido, pensar o ser humano em sua realidade física, psíquica, social e espiritual é uma exigência ética que não podemos renunciar e uma questão teológica que não podemos negligenciar. Pois a experiência cristã de Deus se dá “na carne”, na existência humana.  “A carne é o eixo da salvação” (Caro salutis est cardo), afirma Tertuliano.

A carta de São Tiago fala da luxúria como uma força sedutora que nos conduz não à felicidade e à vida, mas ao pecado e à morte. “Cada qual é tentado por sua própria concupiscência, que o arrasta e seduz. Em seguida, a concupiscência concebe o pecado e o dá à luz; e o pecado, uma vez maduro, gera a morte” (Tiago 1, 14-15). A filosofia e a psicologia, por sua vez, vão traduzir essa “energia avassaladora” presente no coração humano por desejo. Hegel falava do “mal infinito do desejo”. Goethe se questiona: “que é o homem, esse semideus tão louvado? Não lhe faltam forças precisamente quando lhe são mais necessárias? Quando ele toma alento na alegria, ou se abisma na dor, não se imobiliza num ou noutro sentimento e retorna a banal e fria consciência de si mesmo, no exato momento em que aspira a perder-se na plenitude do infinito?” Para Lacan, o desejo é uma relação de ser com a falta. “Essa falta é falta de ser, propriamente falando. Não é falta disto ou daquilo, porém falta de ser através do que existe [...]. A libido fica sendo o nome daquilo que anima o conflito fundamental que se acha no âmago da ação humana”.

O desejo é a força que move o ser humano. Como escreve Antoine de Saint-Exupéry: “se quiseres construir um navio, não comeces por dizer aos operários para juntar madeira ou preparar as ferramentas; não comeces por distribuir tarefas ou por organizar a atividade. Em vez disso, detém-te a acordar neles o desejo do mar distante e sem fim. Quando estiver viva esta sede meter-se-ão ao trabalho para construir o navio”. Há no coração humano um desejo insaciável, e quiçá o nosso grande mal seja o de querermos “saciar nossa sede” tão somente no prazer carnal e material, pois assim acabamos por matar o desejo e esgotar o mistério de amor presente no coração humano.

O pecado capital da luxúria ganha a cada época e cultura um colorido diferente. Na era do erotismo, como a nossa, tende-se a exaltar a luxúria como a única fonte de felicidade e realização humana. Porém, reduzir o desejo humano ao prazer carnal seria limitar ou mesmo matar a alma desejante presente em cada ser humano. Somos liberdade corpórea. Mas este corpo de carne é afetado pelo acontecimento encarnação-redenção. “Acaso ignorais que vosso corpo é templo do Espírito Santo que mora em vós e que recebeste de Deus” (2 Cor 6,19). Nessa perspectiva paulina, o corpo é santuário (shekinah) do Espírito. Essa inhabitacão do Espírito modifica profundamente a relação da pessoa com seu próprio corpo, pois somos convidados a cuidar do nosso corpo como dom de Deus, templo do Espírito. O corpo não só recebe sentido na relação com o outro, mas o cristão é convidado a desapropriar-se dele mesmo, para se dar a outrem como dom.

A sexualidade humana não se reduz a uma necessidade biológica, como “os alimentos são para o estômago” (1 Cor 6, 13), mas como doação do corpo, como símbolo do homem todo, supõe a oferenda de toda a pessoa, que não se realiza na luxúria, na prostituição. A realização sexual autêntica não consiste em utilizar o outro para alimentar uma urgência de prazer ou vazio psicológico, mas para viver uma comunhão a níveis mais profundos, no cuidado e na responsabilidade pelo outro. Como afirma Xavier Lacroix: “na relação com as coisas, certamente, a dimensão consumidora predomina: nesse sentido o gozo é alimentação, ou exploração. Mas quando se trata do corpo do outro, na volúpia erótica, tomar e dar, egoísmo e altruísmo são indissociáveis. A alteridade do corpo do outro é sem cessar lembrada a mim, e é dessa alteridade que gozo, ao mesmo tempo gozando da proximidade. A volúpia é experiência ao mesmo tempo da alteridade e da “mesmidade” da carne, no outro como em mim, em mim como no outro” (O corpo de carne, p. 64).

Neste sentido, a sexualidade humana alcança um novo paradigma que podemos chamar de realidade teologal, no qual o sujeito, com seu corpo sexuado, é visto não só como carne, mas como corpo espiritual chamado a realizar livremente sua vocação de se orientar a Deus, no cuidado com o outro. Tal realidade está envolvida num dinamismo de abertura à relação concreta com o outro que também é assumido como outro corpo espiritual. É o homem inteiro que ama, corpo e espírito. Lacroix é enfático ao afirmar: “eros sem ágape, ágape sem eros são duas maneiras simétricas de negar a encarnação. Ora, sucede que a recusa da encarnação é também a recusa do dinamismo espiritual” (O Corpo de Carne, 174). Desta forma, o sujeito é capaz de assumir livremente a transformação de seu desejo em amor, sob a promessa de “vir-a-ser” na sua semelhança divina na encarnação, pela qual Deus toca o corpo e faz dele lugar de relação, de dom e de decisão guiada pelo amor responsável.

O corpo é lugar da relação, do dom e da decisão. Como afirma o Papa Francisco: “o corpo humano não é um instrumento de prazer, mas o local do nosso chamado ao amor, e no amor autêntico não há espaço para a luxúria e para a sua superficialidade. Os homens e mulheres merecem mais!” Para nós cristãos, o simbolismo do corpo é enriquecido e ampliado. Pois nos relacionamos com Cristo, em seu corpo que a Igreja, entendida de modo realista, a partir do Batismo e da Eucaristia. Como afirma Cirilo de Alexandria: “Por seus sacramentos, meu corpo é enxertado sobre o corpo de Cristo, Deus me atinge na minha corporeidade”.

A sexualidade, portanto, assumida como dom, ternura, cuidado e doação é caminho de maturidade humana no qual a pessoa se compreende como ser separado e ser relacional, chamada ao compromisso e ao cuidado com o outro, num amor sem ambiguidade.  

*Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação



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