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01/02/2020 | domtotal.com

Salinger tece minuciosos perfis em 'Franny & Zooey'

Autor descreve saga de dois personagens da família de prodígios Glass

J.D. Salinger se dedicou a pesquisar a história familiar
J.D. Salinger se dedicou a pesquisar a história familiar (wikkicommons)

Tadeu Sarmento*

Conta Kenneth Slawenski, autor da principal biografia sobre J.D. Salinger, que, tomado de modo repentino pela obsessão de escrever a saga da família Glass, o escritor norte-americano refugiou-se em um bunker construído nos fundos de sua casa, onde passava horas e horas a fio tomando notas (centenas de notas, que cobriam as paredes) e desenhando os galhos genealógicos que representavam as histórias pessoais dessa família de origem vaudevillesca com sete crianças-prodígio, outrora estrelas de um famoso programa de rádio nacional, duas delas perdidas precocemente para o suicídio e a guerra.

Franny & Zooey (Editora Todavia, 2019, tradução de Caetano W. Galindo) conta a história de duas das sete crianças geniais, homônimas ao título, e traz em suas páginas uma espécie de introdução aos Glass, o que torna o livro uma obra seminal sobre os personagens que percorrerão quase todos os livros do autor, formando um amálgama cuja liga é a crônica dos destinos dos seus membros.

Quem quiser entrar no clima da família Glass pode assistir ao filme Os excêntricos Tenenbaums, de Wes Anderson – livremente inspirado nela – ou ir direto à fonte, lendo Franny & Zooey. O livro é dividido por um conto (Franny) e uma novela (Zooey): duas narrativas interligadas graças à maestria de Salinger em pincelar detalhes para criar verossimilhança e organicidade ao resultado final.

Na primeira parte, vemos Franny insistir em explicar ao namorado (Lane) as razões pelas quais a religião seria a única solução para sua angústia e desencanto crescentes. Na segunda, vemos Zooey discutir com a mãe (Bessie) sobre o fato de a irmã mais nova ter abandonado a universidade e estar à beira de um colapso nervoso e espiritual. Ou seja, a linha do tempo é mantida, e Zooey começa onde Franny termina: com a garota deitada no sofá da família Glass, depois de sua absorção na monocórdica Oração de Jesus.

É comum Salinger trabalhar com esse contínuo sentimento de irritação de seus personagens, como se estes fossem afogados, debatendo-se ao longo das páginas, na tentativa de boiar a favor da corrente. No centro dessa exasperação se encontra a comprovação de que a inteligência excepcional não trouxe felicidade ou paz a nenhuma das crianças-prodígio dos Glass. Pelo contrário, a todo o momento a disparidade entre elas e o mundo vem à tona; por exemplo, quando a superficialidade, arrogância e vaidade de Lane (que acredita que a inadaptação da namorada é só medo de competir) é contrastada com os meticulosos insights de Franny, resumindo-se essa diferença na extrema falta de empatia de Lane, que come coxas de rã diante da crise de nervos da namorada.

Franny e Zooey exigem do mundo mais do que ele parece disposto a oferecer, mas é o irmão mais velho quem, apesar de também não conseguir suportar o ordinário, o hipócrita ou o convencional, dá a impressão de conviver melhor com o suposto fingimento e a falta de naturalidade das pessoas ao seu redor. Sua inteligência e autoconsciência exacerbadas não apenas fazem-no desprezar quase tudo, como a irmã, mas desenvolvem nele uma espécie de válvula de escape: uma ironia infantil, expressa na maneira como trata sua mãe, Bessie, o que deixa o leitor a princípio antipatizado com ele.

Já Franny parece não ter desenvolvido nenhuma defesa contra as próprias decepções. E uma das razões pelas quais ela larga a faculdade e se precipita sobre o abismo é porque ela simplesmente não suporta as pessoas que conhece. Em um discurso ecoando a filosofia do Bhagavad Gita, Zooey novamente adverte Franny, dizendo a ela que o mais importante nesses casos é desapegar-se e viver a vida a despeito de uma sociedade que não se molda aos nossos desejos.

Infelizmente, no mundo aqui fora nada é tão estável quanto o quiz show radiofônico É uma sábia criança, no qual os infantes Glass brilharam por anos. Eis a constatação que arrasta todas as sete crianças-prodígio para a ruína – ou para a iluminação. Querer que a realidade reflita nossas expectativas é um sentimento infantil comum às personagens de Salinger, que insistem em não crescer, mantendo um pé na inocência da infância, afinal de contas, na avaliação deles, um esforço em direção à maturidade significaria corromper-se.

No fundo, tanto Franny quanto Zooey são repletos de lucidez em relação ao que julgam estar errado com tudo e todos, mas não conseguem se decidir entre o conformismo e o escapismo religioso. Se com estes traços de caráter o autor norte-americano deu voz a todos aqueles que se perdem no meio do caminho entre a criança e o adulto (estes mesmos, que o apanhador no campo de centeio deseja evitar a queda, evitando assim a queda de si próprio), passou a também correr todos os riscos de fazer seus livros escorregarem em uma vontade de converter que, excessiva, pode cansar seus leitores.

Mas poucas páginas de Franny & Zooey sofrem esse desgaste. O que temos, ao final da leitura, é a sensação de que o autor possui uma imensa capacidade de nos fazer mergulhar em suas histórias sem termos certeza se sairemos mudados na outra margem. Ou não.

FRANNY & ZOOEY
De J.D. Salinger
Editora Todavia
178 páginas
R$ 54,90

*Tadeu Sarmento é escritor, autor de E se deus for um de nós? (Confraria do Vento), Associação Robert Walser para sósias anônimos (Cepe), entre outros.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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