Religião

05/02/2020 | domtotal.com

O papa e as mulheres paraguaias

Sobre uma prática generalizada de maternidade fora do matrimônio

Refletir sobre as mulheres paraguaias, sobreviventes de uma guerra arrasadora, é valorizar o protagonismo de pessoas subalternizadas e oprimidas
Refletir sobre as mulheres paraguaias, sobreviventes de uma guerra arrasadora, é valorizar o protagonismo de pessoas subalternizadas e oprimidas (Katelyn Barone/ Unsplash)

Luís Corrêa Lima*

Quando o papa Francisco retornou do Brasil a Roma, concedeu uma célebre entrevista em que disse: “se uma pessoa é gay, busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgar”? Curiosamente, nesta mesma entrevista há um inesperado e ousado elogio feito à mulher paraguaia, que na época quase não teve repercussão. Porém, representa um avanço muito importante no discurso papal e no ensinamento da Igreja.

Francisco considera essa mulher “a mais gloriosa da América Latina”. Isto porque após a Guerra do Paraguai — contra o Brasil, a Argentina e o Uruguai entre 1864 e 1870 — sobraram no Paraguai oito mulheres para cada homem. E as mulheres paraguaias fizeram uma escolha difícil e arriscada: ter filhos para salvar a pátria, a cultura, a fé e a língua. Na Igreja, prossegue ele, temos que pensar a mulher sob essa perspectiva de escolhas arriscadas. Ainda não se fez uma profunda teologia da mulher. Limitamo-nos a dizer que pode fazer isto, pode fazer aquilo.

Na verdade, o papa elogiou uma prática extramatrimonial de procriação, hoje chamada produção independente. Isto ocorreu em escala nacional, em circunstâncias extremas de iminência de colapso populacional. Estas mulheres são consideradas mais gloriosas do que todas as outras, incluindo as que vivem no modelo tradicional de família. Não se pode acusar Francisco de desapreço pelo matrimônio e pela família. Ele dá um exemplo do que é agir com liberdade e responsabilidade em situações muito difíceis.

A pregação do papa no campo da moral é bem matizada, valorizando muito a busca do bem possível. Sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com amor e paciência, as etapas de crescimento das pessoas que se constroem dia a dia. Um pequeno passo no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que uma vida externamente correta, de quem não enfrenta maiores dificuldades. O Senhor opera misteriosamente em cada pessoa, para além dos seus defeitos e das suas quedas. Não se pode renunciar ao bem possível, ainda que se corra o risco de sujar-se na lama da estrada (Evangelii Gaudium, n. 44-45).

O Concílio Vaticano II ensina que há na doutrina da Igreja uma ordem de importância dos conteúdos, chamada hierarquia de verdades. Tal hierarquia se estabelece segundo o nexo de cada conteúdo doutrinal com o fundamento da fé cristã. Alguns pontos são mais importantes porque estão estreitamente ligados ao fundamento. Outros são menos importantes porque estão menos ligados a ele. Francisco traz este ensinamento do Concílio para o campo da moral. Também existe uma hierarquia nas virtudes e nas ações. A misericórdia é a maior das virtudes. As obras de amor ao próximo são a manifestação externa mais perfeita da graça interior do Espírito (Evangelii Gaudium, n. 36-37)

A gradualidade na aplicação da lei moral, traduzida na busca do bem possível, bem como a hierarquia de virtudes e ações, é quase desconhecida em muitos ambientes cristãos. Não raramente há o triunfo do tudo ou nada, do idealismo estéril sem paciência e sem amor, que massacra as pessoas. O papa afirma o papel da consciência neste processo, ao mesmo tempo que denuncia a intransigência moralista: “nos custa dar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites, e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las" (Amores laetitia, n. 37).

Refletir sobre as mulheres paraguaias, sobreviventes de uma guerra arrasadora, é valorizar o protagonismo de pessoas subalternizadas e oprimidas, que superam moralismos e encontram caminhos de vida. Oxalá sirva de exemplo a tantas outras e a tantos outros.

*Luís Corrêa Lima é sacerdote jesuíta e professor da PUC-Rio. Trabalha com pesquisa sobre gênero e diversidade sexual.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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