Religião

10/02/2020 | domtotal.com

Família, Igreja doméstica: uma leitura do que isso significa

Na relação entre Igreja e família há que se nutrir uma relação saudável, de interpenetração

A Igreja institucional precisa aprender com o doméstico familiar
A Igreja institucional precisa aprender com o doméstico familiar (Unsplash/ Kevin Delvecchio)

Felipe Magalhães Francisco*

Igreja doméstica é uma das expressões mais bonitas do cristianismo, para dizer a família. Na nossa leitura, o bonito não está no fato de dizer que a família seja uma igreja e sim na perspectiva do “doméstica”. É esse adjetivo que faz do fato de a família ser uma igreja algo tão significativo. O cristianismo nasce doméstico e é justamente por isso que uma das chaves de leitura para a compreensão do cristianismo, em sua essência, é a hospitalidade. Chama a atenção, no ministério de Jesus, a importância que ele dá em estar junto às famílias, convivendo com elas, mesmo tendo dito que o Filho do Homem não tinha um lugar onde pousar a cabeça.

A eucaristia, sinal da comunhão intracomunitária na vida inteira do Senhor Ressuscitado, é radicalmente doméstica: é encontro; é o fazer juntos; é o discernir em comum; é fazer refeição. Há uma pedagogia nisso: a Igreja precisa continuamente aprender com a família a como ser doméstica, pois é daí que ela nasceu e só assim ela será capaz de ser lar. A Igreja institucional sempre se dedica a falar às famílias. Há algo de legítimo nisso. Como mãe e mestra, a Igreja tem uma palavra a comunicar, no intuito de contribuir com o bem-viver das pessoas e, por isso, das famílias. O contrário disso, nem sempre percebido ou destacado, é o quanto a Igreja institucional precisa aprender com o doméstico familiar.

O papa Francisco parece ter entendido bem isso. Seus pronunciamentos são verdadeiras homilias, no sentido real do termo: conversas de família. Não se parecem em nada com os antigos sermões. Ainda que tenha palavras duras a dizer, diz como quem ama e, por isso, dedica-se a educar. Mais que isso: convida à misericórdia. O quanto isso falta em nossas celebrações dominicais, um ambiente que seja, propriamente, comunitário, de acolhida. Por muitos motivos, as comunidades não se apresentam muito, em geral, como comunidades, no sentido profundo e familiar do termo. As pessoas que celebram juntas não se conhecem. Mais das vezes, o único momento para o estar juntos é a celebração dominical. As reuniões pastorais, infinitas, geralmente não são dedicadas à convivência e ao estreitamento de laços, mas ao fazer coisas. A família sabe como conjugar tudo isso.

Fala-se muito, atualmente, que as famílias estão em crise. Mas, talvez, boa parte da constatação seja por medo das mudanças que as relações sociais têm vivido, nessa nossa mudança de época. Se as famílias estão mesmo em crise é porque as pessoas estão em crise. Mas, ainda assim, as famílias tendem a serem “lugares” importantes na constituição do sujeito social. Na relação entre Igreja e família há que se nutrir uma relação saudável, de interpenetração. Enquanto as famílias podem contribuir com o renovo no senso comunitário da Igreja, compreendendo a sensibilização para o lugar do outro, a Igreja pode muito contribuir com valores evangélicos nada moralizantes, a fim de que as famílias sejam aquilo que elas devam ser: lares, onde se possa ser o que se é e não há nada de mais doméstico que isso. E que aprendizado para a Igreja, caso compreenda esse significado de família. No convívio eclesial devemos ter um espaço para aprendermos a ser sempre mais: mais pessoa, mais humano, mais seguidor e seguidora de Jesus Cristo, sendo aquilo que somos. A Igreja pode exercer importante papel de valorização disso, que já vemos presente nas famílias.

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

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