Cultura

08/02/2020 | domtotal.com

Petra Costa, uma cineasta indicada ao Oscar contra a epidemia conservadora do Brasil

Narrado em primeira pessoa, filme resume os acontecimentos que conduziram ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e à eleição de Bolsonaro

Cineasta mineira examina os capítulos do processo de impeachment de Rousseff
Cineasta mineira examina os capítulos do processo de impeachment de Rousseff Foto (Divulgação)
(Da esq. para dir.) Shane Boris, Joanna Natasegara, a atriz e diretora brasileira Petra Costa e Tiago Pavan, indicados ao Oscar de melhor documentário pelo
(Da esq. para dir.) Shane Boris, Joanna Natasegara, a atriz e diretora brasileira Petra Costa e Tiago Pavan, indicados ao Oscar de melhor documentário pelo "Democracia em vertigem", em Beverly Hills, Califórnia, em 5 de fevereiro de 2019 Foto (AFP/Arquivos)

A cineasta Petra Costa, indicada ao Oscar pelo documentário Democracia em Vertigem, entrelaça a sua vida pessoal com a história recente do país para denunciar uma "epidemia" da extrema direita no mundo.

O longa, distribuído pela Netflix, é narrado em primeira pessoa e resume os acontecimentos que conduziram ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, e a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018.

"Eu e a democracia brasileira temos quase a mesma idade. Eu achava que nos nossos 30 e poucos anos estaríamos pisando em terra firme", ressalta a cineasta, nascida há 36 anos, em Belo Horizonte.

Filha de militantes comunistas e neta do fundador de uma das construtoras envolvidas na Lava Jato, a Andrade Gutierrez, Costa defende a ideia de que o impeachment foi um golpe da elite político-empresarial do país como forma de tirar o PT do poder e ofuscar as investigações.

Com acesso privilegiado aos protagonistas e aos seus bastidores, a cineasta mineira examina os capítulos do processo de impeachment de Rousseff, assim como a prisão do ex-presidente Lula.

"Aqui estamos, com uma presidente destituída, um presidente preso e o país avançando rapidamente rumo ao seu passado autoritário", resume no início do documentário, que em duas horas alterna entre planos intimistas, imagens de arquivo e sequências aéreas da capital federal, Brasília.

Bolsonaro contra-ataca

Desde a sua estreia no Festival de Sundance em 2019, o documentário coleciona uma série de elogios no exterior. No Brasil, no entanto, os comentários se dividem por causa do cenário polarizado. Spike Lee, Wim Wenders, Queen Latifah, Caetano Veloso e Chico Buarque, entre outros, usaram as redes sociais para enaltecer o longa.

Bolsonaro, por sua vez, após comentar que o filme era uma "porcaria" e que não perderia seu tempo assistindo ao longa, usou o órgão oficial de comunicação do governo para acusar a cineasta de "difamar o país" e para comentar um vídeo com supostas declarações falsas da cineasta a uma emissora americana.

Costa não esconde a sua postura política e assume inclusive ter retirado digitalmente as armas de uma foto que estava junto dos corpos de dois militantes comunistas assassinados pela ditadura militar em 1976.

Em explicação à revista Piauí, a cineasta se justificou: "Há uma razão para isso, e eu estava esperando que alguém do público notasse. Como afirmei no documentário, Pedro (um dos militantes da foto) era o mentor político da minha mãe, e foi amplamente reconhecido que a polícia plantou armas ao redor dos corpos dos ativistas assassinados, como uma desculpa para seus assassinatos brutais".

"Numa época em que a extrema direita está se espalhando como uma epidemia, esperamos que esse filme possa nos ajudar a entender como é crucial proteger nossas democracias", afirmou a cineasta ao comentar sobre a indicação.

Antes desse filme, Costa já era conhecida pelo documentário "Elena" (2012) e pelo longa "Olmo & a Gaivota" (2015).

Oscar é difícil


O filme extrapola a questão do Brasil e termina refletindo um fenômeno global. Foi o que disse Wim Wenders à diretora - Democracia em Vertigem é sobre a democracia, ponto. O grande problema, porém, é que Petra, única representante do Brasil no prêmio da Academia enfrenta a concorrência de um ano excepcional. A National Geographic apresentou na segunda, 3, o concorrente da Síria - The Cave, de Feras Fayad, que já havia sido indicado para o Oscar e ganhou o Emmy em 2017, por Os Últimos Dias de Aleppo. Ele conta agora a história da Dra. Amani Ballour, uma pediatra que coordena um hospital subterrâneo em meio a toda turbulência da guerra civil na Síria.

Outro forte concorrente é Indústria Americana, de Julia Reichert e Steven Bognar. É o primeiro filme da empresa produtora de Barack e Michelle Obama e o tema não poderia ser mais atual - uma empresa chinesa reabre fábrica em Ohio e enche a população de esperança - muita gente ficou desempregada com o fechamento. O problema são os choques culturais, que ameaçam comprometer o empreendimento. Indústria Americana está na Netflix.

Todos os concorrentes de Petra são muito fortes, e ainda tem Honeyland, de Ljobomir Stefanov e Tamara Kotevska, da Macedônia, premiado na Mostra de São Paulo e que bem pode ser o melhor de todos.

O filme segue uma apicultora que emprega métodos tradicionais para fabricação do mel. Há uma regra - milenar - que diz que o apicultor deve pegar só metade do mel da colmeia, deixando o restante para as abelhas. Chegam novos e ruidosos vizinhos produtores. A vida de Hatidze, a protagonista, sofre uma mudança radical, agravada pelo problema da doença da mãe dela.

Como documentário, Honeyland segue uma lição do pioneiro Robert Flaherty, de clássicos como Nanook, o Esquimó e Louisiana Story. É encenado, é maravilhoso.


AFP e Agência Estado

EMGE

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