Brasil

10/02/2020 | domtotal.com

Bonitinha, mas ordinária, a missão

No Brasil dos novos tempos, a violência e a estupidez dominam as telas e transbordam da boca dos ignorantes

Apresentadora estúpida e fascista prega o 'olho por olho, dente por dente' e a audiência exulta
Apresentadora estúpida e fascista prega o 'olho por olho, dente por dente' e a audiência exulta (Grant/ Unsplash)

Ricardo Soares*

Em nome do povo brasileiro querem decapitar, esfolar, esquartejar numa praça pública o assaltante cruel que atacou uma senhora na zona sul do Rio de Janeiro. Uma apresentadora de telejornal, estúpida até os ossos, fascista até a medula, bonitinha e superlativamente ordinária prega o “olho por olho, dente por dente” e a audiência exulta. Sejam todos bem-vindos ao Brasil dos novos tempos, um país que horroriza a mim e aos meus amigos que mesmo sabendo das agruras dos fins dos anos 70 não poderiam imaginar o ponto em que chegaríamos novamente.

O assaltante sangra amarrado a um poste, tem o nariz quebrado e a turba quer linchá-lo. A apresentadora critica os defensores dos “direitos humanos dos presos” e diz, com a veemência que só os imbecis sabem ter, que é preciso saber respeitar os “direitos humanos das vítimas”. O triste disso tudo é o eterno repeteco dos mesmos argumentos como se originais fossem. Não contenho minha opinião acerca da apresentadora e gostaria de chutá-la, refém da mesma violência que me repugna mas que ela exalta.

O telefone fixo de casa toca pela sexta vez. Maldito marketing direto quer me vender um plano de previdência. Justo eu, um imprevidente. Tiro o fone do gancho e lembro de um aparelho vermelho, antigo, que havia lá em casa e da alegria que era atender os telefonemas dos meus amigos no fim de semana quando arquitetavam alguma variação sobre muitos temas literários dos encontros que íamos ter. Nem sempre telefones fixos foram sinônimo de martírios.

Em nome desse mesmo povo brasileiro que muitos julgam assassino eu me pergunto de novo – oh, de novo!!! – onde está a poesia desses tempos bicudos, frios como adaga, impessoais e corporativos? Como falta salsa e cebolinha, como falta paio, dendê, alecrim e açafrão, como falta tempero a esses dias onde tudo tem um propósito, uma meta, um porvir. E eu que sempre pensei que a poesia não servia para calcular nada.

Dias depois dessas percepções, infelizmente, na fila de embarque de um voo para Brasilia vi a mesma apresentadora irresponsável rebolar seu traseirinho cobiçado bastante exultante por estar sendo “reconhecida” por suas “opiniões fortes” na televisão. A fascistinha glamourosa. Sensação singular a que experimento quando constato que no fundo todos eles, os que pregam a intolerância ,são farinha do mesmo saco e nada tem a ver com aqueles que condenavam no passado a violência generalizada que já permeou esse país por opiniões políticas contrárias a uma ditadura então vigente. O relógio gira mesmo gente minha. Gira rápido e eu detesto ir no banco do meio do avião como vou agora tão perto da apresentadora fascista. Em Brasília são 19 horas quando pouso e chove a cântaros. Não vejo sentido algum nessa forma de solidão que é a capital federal da nação.

*Ricardo Soares é diretor de TV, jornalista, escritor e roteirista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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