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11/02/2020 | domtotal.com

'Noite em Caracas'

Jornalista descreve colapso venezuelano como a morte de uma civilização e de qualquer forma de compasso moral

Apoiadores de Juan Guaido atirando pedras contra agentes de segurança em Caracas durante a comemoração do primeiro de maio de 2019
Apoiadores de Juan Guaido atirando pedras contra agentes de segurança em Caracas durante a comemoração do primeiro de maio de 2019 (AFP)

Lev Chaim*

Sempre me lembro dela com um sorriso nos lábios. Angelique era o seu nome: uma amiga para todas as horas. Era a melhor pessoa para trocar ideias sobre um livro. Como ela, havia poucas pessoas que pudessem ir fundo nas páginas de um livro e reproduzi-lo como um conto e com toda a sua expressiva vivacidade. Quantas vezes não deixei de comprar um livro porque Angelique já havia me contado tudo. Mas este último, sobre o qual conversamos há questão de semanas, eu comprei, sim. Comprei para me lembrar dela, de sua expressão, de suas mãos e de seus dedos, o polegar e o indicador, passando pelo lábio inferior, entre uma pausa e outra, ao comentar uma passagem do livro.  

Noite em Caracas – o primeiro romance da jornalista venezuelana Karina Sainz Borgo, já lhe prende a atenção na primeira página, como uma boa literatura, ao tentar descrever o caos que tomou conta de sua querida Venezuela, depois dos governos socialistas-populistas de Chaves e Maduro. Um inferno total nas ruas, com bandos de delinquentes perigosos fazendo arruaças e tirando a paz dos que antes transitavam tranquilamente pelas ruas de Caracas. Mais de um milhão de pessoas já cruzaram as fronteiras para fugir do mal que assolou o país que foi um dos mais ricos da América Latina, exportador de petróleo. Agora, com sua moeda totalmente desvalorizada, com um valor menor que o preço de um papel higiênico, tudo está indo para a bancarrota, para a tristeza de Karina que, naquele dia, havia enterrado a mãe, Adelaida Fálcon.

Como disse a minha amiga Angelique, Karina, nesse livro, numa linguagem muitas vezes poética, porém seca em estilo, atinge-nos em cheio com a sua voz de sobrevivente, banhada totalmente numa atmosfera de arrependimento, ao descrever e comparar a morte da mãe com a morte de seu país. Ela descreve o momento em que a Venezuela entra em colapso, como também a morte de uma civilização e de qualquer forma de compasso moral. Ela enterrou a mãe e já estava imaginando o seu túmulo sendo assaltado e roubado, assim que deixasse o cemitério. Ao avançar pelas páginas, você sente o cheiro do local, os costumes perdidos e os absurdos que ocorrem e nos recordam os livros de Gabriel Garcia Marquez. Quando ia deixando o cemitério, Karina deparou-se com uma cena dantesca: um enterro com um caixão, sendo seguido por motocicletas barulhentas. Num determinado momento, eles pararam, colocaram o caixão no solo, e uma menina jovem começou a dançar de forma sexy em cima do caixão, totalmente inapropriada para a sua idade. Em um momento, ela pulou do caixão para o solo, devido ao beliscão da mãe. Os motociclistas a aplaudiram.

No livro, fica claro que Karina não tinha uma relação muito boa com a mãe, mas mesmo assim, ela sentiu a sua partida e se arrependeu de não ter feito mais para melhorar a sua relação. Elas moravam juntas, mas eram totalmente independentes. Karina sabe que terá que fugir do país para sobreviver. Mas antes de executar os seus planos, ela faz a última visita ao túmulo da mãe, com a qual mantém o seguinte monólogo: “E eu mamãe, não sou corajosa. Você tentou me ensinar a ter coragem, mas eu rejeitei esse favor”.

Neste ponto, minha amiga Angelique fez uma pausa em sua narração, para relembrar uma coisa que havíamos notado: a autora descreve em suas páginas a “coragem” como um favor desonrado, emprestado de um poema do grande escritor argentino, Jorge Luís Borges, do qual a autora fez a espinha dorsal de seu livro.

Ali, Karina Sainz Borgo deixou claríssima a forma de deterioração de seu país, de como as pessoas trocaram a civilização e a solidariedade por uma violência grosseira e imprevisível.

Pois é meus leitores, foi esse livro, “Noite em Caracas”, o último que discuti com essa minha amiga que me havia sugerido tanto a leitura. Isto, há algumas semanas, em nossa alegre noitada literária. Alguns dias depois, quando ela seguia em sua bicicleta rumo à sua casa, na cidade de Tilburg, cidade em que morei durante muitos anos, não muito longe da minha, um carro a pegou por trás. O chofer, um senhor de idade, teve um derrame cerebral enquanto dirigia e perdeu o controle do automóvel, que virou para a direita, subiu na calçada e foi parar na ciclovia em cima da minha querida amiga, Angelique. Ela morreu na hora. O senhor foi levado ao hospital e quando voltou a si e ouviu a história do acidente fatal, teve o seu segundo enfarte cerebral e morreu ali mesmo.

Caminhos e histórias que se cruzam. O mundo, de forma alguma, pode deixar esse ditador Maduro no poder. A tortura do povo venezuelano é flagrante. As notícias e o livro de Sainz Borgo não nos deixam ignorar o fato: no túmulo de uma mãe e um país. E você, caro leitor, concorda comigo?

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.



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