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10/02/2020 | domtotal.com

Vitória de 'Parasita' traz ao debate a crescente desigualdade nas cidades

Filme de Bong Joon-ho venceu quatro das principais categorias do Oscar 2020

Conflito entre ricos e pobres alcança universalidade com o longa independente sul-coreano
Conflito entre ricos e pobres alcança universalidade com o longa independente sul-coreano (Neon/Divulgação)

Parasita, filme vencedor de quatro estatuetas e a grande surpresa do Oscar 2020, conta a história de duas famílias sul-coreanas, os ricos Park e os pobres Kim, espelhando a desigualdade crescente na quarta maior economia asiática. A produção fez história ao se tornar o primeiro longa não falado em inglês a receber a Oscar de melhor filme no domingo (9), o que desencadeou grandes comemorações nas redes sociais da Coreia do Sul.

Sua mensagem ecoou em muitos sul-coreanos que se identificam como "colheres de sujeira", aqueles nascidos em famílias de baixa renda que praticamente desistiram de ter uma casa decente ou de ascender socialmente, ao contrário dos "colheres douradas", que são de famílias mais abastadas.

O filme faz uma crítica dura à sociedade sul-coreana atual, e o diretor Bong Joon-ho se voltou a muitas cenas familiares nos arredores de Seul para ressaltar a disparidade entre os privilegiados e os despossuídos da cidade. A disparidade é visível em toda a Coreia do Sul, já que alguns bairros de morandias precárias contrastam com a vida de locais mais requintados da capital.

O filme usa muitos destes recursos visuais para ilustrar a competição em curso na sociedade e os relacionamentos às vezes "parasitários" entre ricos e pobres. "As discussões desagradáveis do filme provocaram sentimentos variados por tocarem em uma ferida social e colocarem os ricos contra os pobres", disse Kim Chang-hwan, morador de Seul, de 35 anos.

Ao mesmo tempo suspense e sátira ácida sobre as desigualdades sociais, o filme se consagrou por abordar um tema universal e com crescente presença nas grandes cidades de todo o mundo. Se este longa-metragem conquistou uma audiência internacional "é porque aborda problemas comuns a todas as sociedades", explica Jason Bechervaise, professor da Universidade Sul-Coreana de Soongsil Cyber. "Existe muita raiva política em todo o mundo, e é agravada por um sentimento palpável de crescente desigualdade social. A palavra 'parasita' realmente se encaixa nisso", disse ele.

Para Bao Nguyen, diretor vietnamita-americano, o Oscar de Bong é "um exemplo a seguir para futuros cineastas asiáticos e americanos". Parasita é um filme "profundamente enraizado em sua representação da sociedade coreana, e de maneira alguma cedeu às expectativas de uma audiência estrangeira", disse.

Seu sucesso abrirá novos horizontes para outros filmes, quer acreditar Deborah Shaw, professora de Estudos Cinematográficos da Universidade de Portsmouth, na Grã-Bretanha. Isso deve "tornar mais produtores e distribuidores internacionais propensos a investir em filmes que não falam inglês", disse ela.

Consagração

A consagração para Parasita, primeiro filme coreano premiado no Oscar, é a coroação excepcional de um ano de 2019 que marcou o centenário do cinema coreano. Primeiro, seu diretor Bong Joon-ho recebeu a estatueta de melhor roteiro original. Em seguida, a produção foi coroada melhor filme internacional, ele próprio recebeu o Oscar de melhor diretor e, finalmente, para surpresa de todos, o Oscar de melhor filme. O trabalho de Bong Joon-ho já havia vencido a Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado e o Globo de Ouro de "melhor filme em língua estrangeira" em janeiro, dois prêmios de prestígio que já constituíam a primeira vez para um filme sul-coreano.

A comédia sombria narra como quatro membros de uma família de desempregados - que vegetam em um apartamento escuro e sórdido invadido por baratas – conseguem entrar no cotidiano de uma família rica de Seul. Suas vidas começam a mudar radicalmente no dia em que o filho se torna o professor particular de inglês da filha dessa família rica, que vive em uma suntuosa mansão contemporânea cercada por um magnífico jardim.

O filme de Bong Joon-ho, conhecido por seus thrillers camuflando sátiras da sociedade sul-coreana, mostra "muito bem como a pobreza e a riqueza estão indissociavelmente ligadas", explica John Lie, professor de Sociologia na Universidade da Califórnia, em Berkeley. "Os ricos são parasitas dos pobres, como os pobres são dos ricos", resume.


AFP/Reuters/Agência Estado/Dom Total

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