Religião

10/02/2020 | domtotal.com

Messiah da Netflix é provocativo e vale a pena, mesmo aos não religiosos

O mistério conduz o seriado que parece dizer que todos precisam de um messias

Mehdi Dehbi é o homem misterioso Al-Masih na série da Netflix
Mehdi Dehbi é o homem misterioso Al-Masih na série da Netflix "The Messiah", que foi amplamente filmada na Jordânia (Divulgação/ Netflix)

Por Irmã Rose Pacatte*

"Que melhor agente do caos existe no mundo do que um novo Messias?" pergunta um personagem do novo seriado da Netflix, "Messiah", do criador e escritor Michael Petroni e dos produtores executivos Mark Burnett e Roma Downey.

O seriado de 10 capítulos chegou em 1º de janeiro e seu título chamou minha imaginação e atraiu minha curiosidade desde os primeiros momentos, porque não era realmente o que esperava. Petroni, criador de filmes como "A Menina que roubava livros" (2013) e "O Ritual" (2011), reúne as três principais religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo, e outras para responder à pergunta "E se o Messias voltar hoje?". O diretor conduz o público a uma jornada inteligente e espiritualmente arriscada, mergulhada nos atuais eventos geopolíticos e religiosos, para tentar achar respostas.

No Oriente Médio moderno, multidões de homens e meninos ouvem um jovem bonito, com barba e longos cabelos negros, que lhes diz que Deus está com eles quando uma enorme tempestade de areia toma conta da cidade. Eles são um povo empobrecido que pratica o Islã. Precisam de esperança, algo em que acreditar, como acontece no caso de Jibril (Sayyid El Alami), cuja mãe é morta na guerra. Ele precisa enterrá-la nos escombros de sua casa bombardeada na Síria.

As pessoas do povoado chamam o homem misterioso de Al-Masih (Mehdi Dehbi). Masih pede à multidão que faça algo difícil: trazer armas, fuzis e enterrá-las. Seu perfil ascético exerce algum tipo de atração sobre eles, e a multidão acaba fazendo o que pede. Então Al-Masih os leva ao deserto onde se acumulam em uma barricada na fronteira com Israel.

A agente da CIA Eva Geller (Michelle Monaghan), mal recuperada de um problema de saúde, descobre a ameaça ao aliado americano, por meio de cobertura via satélite, devido a essa multidão de pessoas em movimento e ordena que seus colegas israelenses sejam notificados. O jovem misterioso caminha até a cerca improvisada da fronteira com Israel e sobe nela. Os israelenses, em estado de choque, reagem lentamente, mas o levam sob custódia. Aviram "Avi" Dahan (Tomer Sisley), um oficial de segurança do Shin Bet, interroga o jovem, mas quando o jovem misterioso lhe diz coisas secretas sobre seu passado que ninguém mais sabe, Avi cobre a cabeça com um capuz e apaga a fita do interrogatório. Mais tarde naquele dia, Al-Masih desaparece de sua cela.

Na pequena cidade de Dilly, Texas, o reverendo Felix Iguero (John Ortiz) aprende com sua esposa deprimida Anna (Melinda Page Hamilton) que a igreja está quase falida. Ela quer pedir dinheiro emprestado ao pai rico, um televangelista, Edmund DeGuilles (Beau Bridges), mas Felix se recusa e começa a planejar algo drástico. Sua filha adolescente, Rebecca (Stefania LaVie Owen) está preocupada e se sente sufocada em sua pequena cidade. Rebecca foge no momento em que um enorme furacão atinge Dilly.

Em "Messiah", todo mundo tem um segredo, e todo mundo precisa de um redentor. O fim da era atual está próxima e um novo mundo está prestes a nascer. Ou já está aqui?

No início, Geller vê uma citação de Oprah esculpida em um restaurante: "Você se torna o que acredita". Embora o criador e escritor do programa, Petroni, use esse clichê para provocar esta primeira temporada, ele mantém a atenção de crentes e não-crentes que podem estar assistindo desde qualquer lugar. Fé e ceticismo são desenfreados, e a maioria dos funcionários do governo alimenta o cinismo com suas decisões.

A escrita, a atuação e a direção são excelentes ao longo do seriado, embora algumas das reviravoltas da trama tenham ampliado a imaginação a princípio (na qual eu não posso entrar sem revelar a história). O seriado desenvolve a trama muito bem, porque os personagens principais são bem construídos e suas atuações são fortes, consistentes, críveis e humanas. O diálogo é escasso e, pela primeira vez, não fui capaz de preencher e prever a próxima frase do diálogo antes que os personagens o pronunciassem. Este seriado é único, uma obra de televisão de qualidade.

Assistindo "Messiah" Me lembrei de um dos meus seriados de televisão favoritos de todos os tempos, "Rectify" da Sundance TV, do gênio de Ray McKinnon. O personagem principal, Daniel Holden (Aden Young), foi libertado recentemente de 20 anos no corredor da morte por um crime que não cometeu. Ele parece física e espiritualmente ligado ao arrependimento, ao sofrimento e ao amor. Não fala muito, mas quando o faz é significativo.

Eu acho que Geller é muito parecido com Holden, e o desempenho de Monaghan está diretamente no manual de um melhor ator. Sisley, um ator alemão-francês que interpreta o agente israelense Avi, está lá em cima com Monaghan, e me pergunto por que não o vimos com mais frequência na tela - ele é tão bom. Mas nada disso poderia acontecer sem grandes reviravoltas, e Petroni faz as entregas aqui, oferecendo o que acho que é o melhor trabalho dele até agora. Um aceno para os diretores James McTeigue e Kate Woods (que também dirigiram um episódio de "Rectify") por seu trabalho. A produção mostra uma compreensão dos personagens e um enredo complexo e em camadas.

A fé disso

Fiquei me perguntando sobre a visão de mundo e a teologia que guiavam o seriado, porque senti a proposta muito profundamente. Como o seriado surge de Burnett e Downey ("A Bíblia", "Ben-Hur"), eu esperava que o "Messiah" fosse um cristão fortemente evangélico em sua orientação, e de fato, foi mostrado assim algumas vezes.

Em dois momentos, pensei que a trama estivesse perdida porque parecia tão carregada de mensagens e conteúdo, que não permitiam acompanhar a linearidade da história, por mais que concordasse com as palavras de Al-Masih. No entanto, temas de paz, desmilitarização, fim da ocupação e tolerância e respeito por diferentes crenças guiam o seriado. Al-Masih disse ao presidente dos EUA Young (Dermot Mulroney): "Cem anos atrás, os europeus escolheram as linhas e as chamaram de fronteiras, e então as impuseram brutalmente... O mundo está prestes a começar de novo e você precisa fazer sua parte. Você pode inaugurar mil anos de paz se você levar para casa todas as suas forças armadas, e todo homem e mulher se lembrará de você como um homem de paz". Pessoalmente, acho que é uma ótima ideia.

Também existem fortes referências aos direitos humanos, bem como ao judaísmo e ao islamismo, e algumas alusões ao cristianismo e ao mormonismo católico. Pelo menos uma vez Al-Masih reza em uma postura budista. E não, o seriado não está tentando criar uma religião mundial, mas acho que tende a ter uma visão da humanidade unida nas diferenças, na justiça e na paz. Mas, se houver uma segunda temporada, tudo pode acontecer.

Teologicamente e politicamente, o programa provavelmente evocará fortes respostas. A Royal Film Commission da Jordânia, onde o filme foi amplamente filmado, pediu à Netflix para não transmitir o seriado por lá. O Times de Israel observou que há um tiroteio no Monte do Templo, para o qual Petroni disse: "O show é provocativo, mas ser provocativo não é ofensivo". Isso, é claro, é uma questão de opinião.

A ideia do fim dos tempos impulsiona o seriado. Enquanto assistia, lembrei-me de duas versões cinematográficas do romance "Left Behind" (2000, 2008) sobre os últimos dias do mundo e a Segunda Vinda. Há indícios da teoria de "dispensacionalismo" bíblico escatológico, ou progressão bíblica histórica da ação salvífica de Deus no mundo, apresentada pela relativamente recente seita cristã dos Irmãos Plymouth, no final do século XVIII. Basicamente, isso significa que agora estamos nos aproximando do turbulento fim dos tempos em que o Messias retornará à nação de Israel e salvará o povo judeu.

Depois, outras vezes, lembrei-me do roteiro não produzido de Pier Paolo Pasolini, "São Paulo". Seu realismo e visão contemporânea de como Paulo seria em ambientes urbanos modernos rompe todos os conceitos teológicos cinematográficos e historicamente vinculados. O mesmo acontece com o "Messiah" de Petroni. Perguntei se ele tinha lido esse script (está disponível na Amazon) e sorriu dizendo que Burnett tinha entregado o roteiro para ele - depois que o projeto piloto foi escrito.

O escritor diz que não há uma visão teológica específica.

O mistério conduz o seriado que, para mim, parece dizer que todas as pessoas, famílias, comunidades e nações precisam de um messias. Petroni explicou em uma entrevista comigo antes da estreia do seriado que "o truque do programa é que você nunca mostra quem é essa pessoa para que o público possa acreditar - ou não - o que está acontecendo. Sua percepção e aproximação ao personagem é apenas através do ponto de vista do próprio personagem e da experiência humana, isso depende de você e do público, de cada pessoa decidir o significado do que está acontecendo e qual é a imagem maior.

"O desenvolvimento bíblico histórico é algo que levei muito a sério, porque não é algo fantástico", continuou". E faz sentido que o personagem Al-Masih saia do Oriente Médio. Se você olhar para o Islã, o profeta aparece naturalmente em Damasco. E não é à toa que se faz esse destaque. A Síria hoje é uma panela fervilhante de turbulência política e religiosa. Que lugar melhor para marcar o surgimento de um personagem messiânico? O que logicamente aconteceria a seguir se essa pessoa tivesse seguidores? O que todos esses refugiados querem? Eles querem voltar para suas terras!".

Petroni disse que se perguntou o que aconteceria se o Messias voltasse hoje.

"Foi como caminhar com a ideia em uma floresta. Não sabia para onde ir. Perguntei: 'Como seria sua vinda agora? Como sua influência se espalharia? Qual seria o ciclo de notícias de 24 horas se aparecesse alguém como Al-Masih andando por aí? O que as mídias sociais fariam com sua aparição repentina? Como alguém assim poderia ter um impacto ou influenciar a sociedade hoje?'"

Petroni me disse que fez muita pesquisa para o programa. No entanto, "não assumiu nenhuma perspectiva teológica particular. É isso, todos podem ter sua própria opinião sobre o que está acontecendo ou quem realmente é Al-Masih. A fé é uma coisa muito pessoal que levamos muito a sério. Quando você a envolve com a política, a fé pode enlouquecer as pessoas".

O "Messias" coloca interrogantes a muitos de nós, como público, porque parece inconsistente com uma vida cristã confortável em que muitos de nós nos instalamos. Não há nenhum conforto na aflição que as palavras e comportamento de Al-Masih comunicam. Ele é um ativista, um profeta, que ensina a paz. Mas quem é ele? De onde veio? Quem é sua família?

"Você será desafiado a trazer sua própria perspectiva para tentar descobrir o que o seriado significa a qualquer momento", disse Petroni. "Al-Masih parece ameaçar a visão geopolítica do mundo e os direitos humanos de alguns personagens e os limites da fé religiosa para outros. Ele pede ao presidente americano que atue em sua fé. Espero que o seriado seja um convite para as pessoas falarem sobre como pode ser a vinda do Messias hoje. É um programa popular para o qual espero estimular a conversa e elevar o gênero religioso e trazê-lo para o meio da conversa. Queria levar essa ideia a sério porque, do contrário, diminui a crença e piedade religiosa".

Petroni não estava prestes a me dizer para onde o seriado estava indo, se conseguiria uma segunda temporada, coisa que espero que aconteça. Perguntei se o papa, como líder da religião mais populosa do mundo, apareceria ou se Al-Masih o procuraria. Petroni sorriu e disse: "Você terá que esperar para ver".

Eu acho que o seriado vale o seu tempo. Você não precisa ser religioso; as histórias pessoais dos personagens são profundamente interessantes, mesmo que a história de Al-Masih pareça paralela à de Jesus - exceto nos pontos que claramente são diferentes.


Publicado originalmente por National Catholic Reporter

*A irmã Rose Pacatte, membro das Filhas de São Paulo, é a diretora fundadora do Centro Paulino de Estudos de Mídia em Los Angeles

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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