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11/02/2020 | domtotal.com

Um ponto fora da curva no BBB

Destoam do conjunto Manu Gavassi e Marcela, mas quem vale a pena assistir mesmo é Babu Santana

Babu, Gabi e Flayslane estão na cozinha principal da casa
Babu, Gabi e Flayslane estão na cozinha principal da casa (Divulgação/ Globo)

Alexis Parrot*

Está longe de ser um programa que mereça audiência mas, se por dever do ofício sou obrigado a encarar até o Jornal Nacional de vez em quando, mais cedo ou mais tarde, o Big brother Brasilcapolavoro de Boninho, um especialista em mediocridade – acaba sempre entrando na minha listinha de "para casa".

Esta vigésima edição, provavelmente a mais artificial já exibida até hoje, começou truncada por tentar forçar alguma rivalidade entre um time de famosos que ninguém conhece e um grupo de desconhecidos que ninguém precisava conhecer. 

Pela naturalidade, destoam do conjunto Manu Gavassi (que deve sair direto do confinamento para alguma novela) e Marcela, em quem aposto todas as fichas para abocanhar o prêmio máximo da atração. Do outro lado do espectro, vegetam Thelma, Victor, Ivy e a ex-panicat.

Enquanto fora da casa o casamento do dissimulado Pyong vai para o vinagre (por conta do comportamento, digamos... ridículo e ofensivo do hipnotizador durante a mais recente festa e subsequentes denúncias de assédio), dentro da casa a mineirinha Gabi sofre porque Guilherme não se decide entre continuar com ela ou assumir de vez a atração fatal que sente por Boca Rosa. É um triângulo amoroso tão infantil e desnecessário que merece a música igualmente infantil e desnecessária da Banda Melim como trilha sonora.

Após rápida passagem pela caixa de vidro, Daniel chegou causando ao denunciar as atitudes machistas dos trogloditas da casa. Ganhou a simpatia das participantes, o ódio dos acusados, a desconfiança de alguns outros e o desprezo de Guilherme. Após a entrada triunfal, vem perdendo pontos pela insistência em engatar um romance de verão com Marcela. Tudo leva a crer que o ativista aguerrido da semana passada será o chato-meloso-insuportável da semana que vem, com lugar garantido no cadafalso em breve.

Aliás, machismo versus sororidade parece ser o embate da vez, pelo menos até que ocorra a eliminação dos tais trogloditas, a saber: Hadson (que encerra sua trajetória no programa hoje à noite), Felipe e Lucas. A partir daí, a amizade entre as meninas remanescentes será posta à prova. Novos dramas (e melodramas) deverão surgir e fortalezas ruirão como castelos de areia.

Tiago Leifert no papel de Pedro Bial é um ótimo... Tiago Leifert. Pela quarta vez à frente do programa, se está mais seguro, por outro lado continua apático e sem sal como sempre foi. É um caso perdido de tal monta que chega ao ponto de merecer o título de desanimador de auditório com louvor.

Mas nem tudo está perdido. Por mais incrível que possa parecer, dessa vez o programa trouxe algo que de fato vale a pena, coisa raríssima segundo os parâmetros da atração, e que responde pelo nome de Babu Santana.

Único membro da equipe Camarote que pode realmente ser considerado famoso, mesmo sendo um grande ator, Babu vem conquistando o carinho do público justamente por se movimentar no jogo sem interpretar (ao contrário de Pyong e Victor, por exemplo). Com ele não há espaço para falsidade e nem conversa fiada.

Se tem pequenos arroubos de mau humor, isso não interfere em seu carisma faiscante. Mesmo porque são de lavar a alma os momentos em que ele resolve atacar de papo reto – como quando cobrou de Victor que este descesse de cima do muro; ou ainda quando, ao ver uma sujeira na cozinha, apontou o milagre e foi na jugular do santo, ainda que sem nomeá-lo: "...diz que quer salvar a Amazônia mas é incapaz de lavar uma pia." Sábio Babu.

Suas pontuações críticas sobre o privilégio do homem rico e branco, bem como a defesa que faz das causas da ética e do feminismo (sem paternalismo ou condescendência) cumprem a função educativa que toda emissora de TV, uma concessão pública, deveria ter em vista ao produzir os conteúdos de sua programação. 

Egresso do grupo de teatro Nós do Morro, brilhou ao encarnar com muito sentimento o Tim Maia da versão para o cinema da biografia escrita por Nelson Motta. A primeira vez que o vi foi em Uma onda no ar, o filme de Helvecio Ratton que conta a história da Radio Favela de Belo Horizonte, lançado em 2002. A cada vez que aparecia na tela, era impossível despregar os olhos dele. Desde então, sou fã incondicional.

Uma das falas de seu personagem no filme (o inconformado Roque, que acaba assassinado graças à decisão de trabalhar para o tráfico) serve muito bem para o novo papel que lhe cabe neste novelão que é o BBB; afinal, a eliminação ali não deixa de ser uma pequena morte. Indagado pelo amigo se não tinha medo de acabar morto, ele responde com desdém: "se eu morrer hoje, amanhã fez dois dias".

Apesar de preferir vê-lo no cinema, teatro e TV, honrando a profissão na qual é verdadeiro mestre, torço para que a visibilidade do programa possa lhe trazer mais e melhores ofertas de trabalho.

Taí. Talvez o BBB sirva mesmo para alguma coisa.

*Alexis Parrot é crítico de televisão, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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