Brasil

13/02/2020 | domtotal.com

Slogan patriótico e patético

Não pega bem, nem vai pegar, o slogan "Pátria amada Brasil", surrupiado do Hino Nacional

Desfile de 7 de Setembro de 2019
Desfile de 7 de Setembro de 2019 (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Afonso Barroso*

Nem sempre o que é bom para o André o é para o Tomé. Digamos que o Hino Nacional Brasileiro seja o André. Tudo o que está naquelas dezenas de versos é bom para ele próprio, o hino, porque as palavras foram inseridas ali para fins de exaltação, que é a essência desse gênero musical. Um exemplo é a frase “dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada Brasil”. Maravilha, principalmente casada com a melodia.

Digamos agora que o Tomé seja a publicidade do governo. Nesse caso, não pega bem a expressão “pátria amada Brasil”, extraída do hino. Para o André é bom, é poético. Mas para o Tomé é ruim, é patético. Acontece que esse slogan é fruto da lei do menor esforço, e pior do que isso, um derivativo da ânsia do governo de enfatizar patriotismo ou ufanismo exacerbado. Nos tempos da ditadura houve um melhor, até porque mais radical e, portanto, condizente com aqueles anos de chumbo que o Brasil vivia – e morria. Era o “Ame-o ou deixe-o”. Não está gostando? Então, casca fora!

É preciso lembrar que slogan é um componente de destaque na publicidade. Quando pertinente e adequado, tem duração longa ou até ilimitada. São muitos os títulos de anúncios que se tornam slogans e permanecem grudados no produto e na cabeça dos consumidores durante anos e anos.

Todo mundo se lembra de “Quem bebe Grapete repete”. Neste, usou-se a estratégia da rima, que quando bem aplicada funciona esplendidamente. Era tão bom que o refrigerante saiu de cena, mas o slogan permaneceu na cabeça das pessoas. Outro que usou bem o recurso da rima foi a Cica, sucesso em matéria de memorização: “Se a marca é Cica, bons produtos indica”. Também com rima é “Tomou Doril, a dor sumiu” – nesse caso até uma rima rica.

Estão no mesmo nível de qualidade slogans como “Se é Bayer é bom”, que marcou definitivamente o produto; “É impossível comer um só", dos salgadinhos Cheetos; “Bom Bril, mil e uma utilidades”; e o da vodka Orloff, “Eu sou você amanhã".

Também durou muito tempo o slogan do governo Magalhães Pinto, abandonado quando afinal se percebeu que não soava bem aos ouvidos da própria publicidade: “Mineiro trabalha em silêncio” era interessante, mas de certa forma contraditório: se o mineiro trabalha em silêncio, pra que então a publicidade?

É preciso muito cuidado para se criar um slogan. Quando a origem é espúria, ilegítima, o resultado acaba sendo também. E há alguns absolutamente incompreensíveis, como este: “Café Utam. Porque a vida é feita de momentos”. Surreal, totalmente sem sentido e ininteligível. O que tem o café a ver com isso?

Pelo menos para uma coisa o slogan “Pátria amada Brasil”, patriótico mas espúrio e ilegítimo,  serviu: para inspirar esta crônica. Valeu, governo.



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