Cultura Cinema

15/02/2020 | domtotal.com

Filme paraense sobre usina de Tucuruí será exibido no Festival de Berlim

'O reflexo do lago', do diretor Fernando Segtowick, é inspirado na obra 'O lago do esquecimento", da fotógrafa Paula Sampaio

'O reflexo do lado' relata a vida de pessoas que sofreram impacto pela construção da usina
'O reflexo do lado' relata a vida de pessoas que sofreram impacto pela construção da usina (Amazônia Real)

O longa-metragem O reflexo do lago, do diretor e roteirista paraense Fernando Segtowick, será exibido, pela primeira vez, no Festival de Berlim, na Mostra Panorama Dokumente, entre os meses de fevereiro e março deste ano. A expectativa do diretor é grande para saber como o filme vai sensibilizar os brasileiros e as pessoas do mundo inteiro, já que o festival é um dos mais importantes no cenário do audiovisual.

O reflexo do lago é inspirado na obra O lago do esquecimento, que contém imagens e histórias contadas pelos moradores atingidos pela barragem a partir das lentes da fotógrafa paraense Paula Sampaio.  As duas obras têm em comum um objetivo: relatar sobre as vidas de pessoas que sofreram impacto socioambiental pela construção da usina hidrelétrica de Tucuruí, situada no rio Tocantins, na região oeste do estado do Pará, que tem uma das maiores barragens da Amazônia.

A agência Amazônia Real entrevistou os dois realizadores paraenses. Segtowick diz que o próprio título do filme é um convite à reflexão, não somente dos grandes projetos, mas de todo o conceito de “desenvolvimento” para a Amazônia, todos os ciclos econômicos a que os moradores são submetidos e, na maioria das vezes, excluídos dos benefícios desses.

Ele conta que em Tucuruí, antes da hidrelétrica, existia a coleta da castanha; hoje quase não existem mais castanheiras no lago. “A partir da caminhada do filme, a gente espera que ele possa provocar uma discussão maior no momento das tomadas de decisão e como isso influencia a vida das pessoas em diferentes níveis numa região tão sensível como a Amazônia”, afirma o diretor.

Paula Sampaio conta que começou a registrar os impactos socioambientais no município de Tucuruí na década de 90. Tudo começou, segundo ela, quando atendeu um pedido de um morador.

“Em uma das viagens de documentação fotográfica que fiz no lago, o morador me pediu no final da conversa que falasse para o mundo que eles (todos eles, moradores do lago) estavam ali, vivos”. Leia as entrevistas a seguir:

Como foi a escolha dos personagens e suas escolhas estéticas para transpor, a partir do livro da Paula Sampaio, e construir uma narrativa audiovisual a partir ou inspirado por imagens em still?

O livro da Paula Sampaio, assim com as pesquisas da Edilene Portilho, forneceram um grande ponto de partida para esse universo todo, que envolve a construção de Tucuruí e os moradores das ilhas do lago. Mas o documentário é muito um processo de encontros e descobertas. Foram quatro anos entre pesquisa e produção para chegar à versão final do filme, então muitas coisas foram se construindo nesse processo. Algumas das pessoas do livro da Paula já haviam falecido, o que resultou num novo movimento, no sentido de conhecer esse território e criar uma obra que é inspirada no livro, mas que pudesse ter a sua vida própria.

Foram feitas muitas entrevistas, tanto no lago, como nas cidades de Tucuruí e Belém, com pessoas como a própria Paula e o jornalista Lúcio Flávio Pinto, que também tem um livro sobre Tucuruí. Além disso, também fomos descobrindo nesse processo uma forma de filmar essas pessoas e esses lugares.

Vários temas foram reforçados, como a questão da energia elétrica, a distância entre as ilhas… Mas claro, também queríamos que essa história pudesse ser algo interessante do ponto de vista narrativo e visual. Para isso conto com grandes parceiros como o diretor de fotografia – Thiago Pelaes – e o montador – Frederico Benevides – além de uma equipe que se doou muito para que esse projeto pudesse acontecer.

De que forma o seu documentário pode influenciar ou  contribuir para o debate sobre as questões de impactos de grandes obras na Amazônia?

O filme terá sua primeira exibição pública no Festival de Berlim, na Mostra Panorama, então é uma expectativa muito grande pra saber como o filme vai tocar as pessoas no Brasil e no mundo. O próprio título do filme é um convite à reflexão, não somente dos grandes projetos, mas de todo o conceito de “desenvolvimento” para a Amazônia, todos os ciclos econômicos a que os moradores são submetidos e, na maioria, das vezes excluídos dos benefícios desses. Em Tucuruí mesmo, antes da hidrelétrica, existia o extrativismo da castanha, hoje quase não existem mais castanheiras no lago. A partir da caminhada do filme a gente espera que ele possa provocar uma discussão maior no momento das tomadas de decisão e como isso influencia a vida das pessoas em diferentes níveis numa região tão sensível como a Amazônia.

Como tem sido o diálogo com as populações retratadas no documentário?

Nós filmamos especificamente num trecho do lago, no rio Caraipé, e como foram muitas viagens durante a pesquisa e produção, os moradores tornaram-se grandes parceiros do projeto. Inclusive é através deles que descobrimos mais sobre tudo o que aconteceu e acontece hoje no lago. São pessoas com uma dignidade incrível, e apesar de todos os contratempos, têm sua força e resistência. Da sua maneira, eles e elas são um exemplo de resistência pra mim.

O filme só foi possível graças a políticas públicas de fomento ao audiovisual brasileiro, especialmente na descentralização de recursos para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O documentário teve financiamento da Ancine (Agência Nacional de Cinema)/ Fundo Setorial do Audiovisual através dos editais PRODAV 3 (Pesquisa e desenvolvimento) e Prodecine 05 (Produção e Finalização).

Como é ver a sua obra (o livro O lago do esquecimento) se expandindo e ganhando outros desdobramentos?

Em uma das viagens de documentação fotográfica que fiz no lago, um morador que entrevistei me pediu no final da conversa que falasse pro mundo que eles (todos eles, moradores do lago) estavam ali, vivos. Saí de lá com o firme propósito de fazer isso. Sabia que não ia conseguir sozinha, então  me inscrevi em editais, mostrei as imagens em todas as oportunidades que tive  e com  o incentivo da Fundação Rômulo Maiorana (um convite especial para apresentar esse trabalho no  Arte Pará)  e do Prêmio Marc Ferrez de fotografia (possibilitou a edição e impressão do livro), além dos  recursos próprios que investi, o documentário conseguiu  despertar o interesse  de pessoas  e entidades formadoras de opinião, movimentos sociais e do  Fernando, que ao ver o livro me procurou com a proposta de fazer um desdobramento em filme, por meio de um dos editais que existia na Ancine . Aceitei de pronto. Porque confio no talento dele e sei que é um criador ético, então, foi muito bom.

E foi bacana também porque desde o início pensei em toda aquela realidade em movimento (até fiz algumas experiências em audiovisual), então , quando o Fernando chegou com a proposta do filme adorei. O cinema tem a capacidade de juntar a oralidade, a fotografia, o som e isso é uma potência. E ele utilizou com sensibilidade e talento o livro O lago do esquecimento como referência para fazer sua obra.  Esse era o meu propósito, colaborar de alguma forma para que essa   história, esse lugar, não caíssem no esquecimento, porque lá estão materializadas as consequências da destruição que os processos de construção das hidrelétricas podem causar, é um exemplo do que podem provocar todos esses projetos que estão em andamento ou previstos na Amazônia.

Como tem sido a sua relação com as comunidades que fizeram parte do processo de criação do livro, e conte também um pouco como foi este processo e como ele evoluiu?

Comecei a fotografar a comunidade do lago de Tucuruí em 1994. Na época, a minha motivação era repercutir por meio de imagens a condição social das famílias que foram desalojadas de seu lotes ao longo da Rodovia Transamazônica (em parte alagada depois da construção da hidrelétrica de Tucuruí) para o projeto que faço sobre o cotidiano dos migrantes que vivem  nas margens e vicinais das rodovias Transamazônica e Belém-Brasília. Mas, durante anos, não encontrei o que buscava. Só que ao mesmo tempo aquela realidade me chamava, eu sentia que existia algo ali que estava escapando da minha vista. Continuei  buscando e em uma das viagens, onde contei com a imensa colaboração da pesquisadora Edilene Portilho, cuja tese é sobre a região – parte da família de Edilene vive no lago e fui convidada a visitá-los… No caminho, me deparei com a floresta fossilizada (mas estranhamente viva), com as pessoas lutando pela sobrevivência naquele ambiente de destruição. Então, ao contrário do que sempre estabeleci como premissa nos documentários que realizo (o tempo de convivência) , nesse caso  foi inverso, foi o tempo da emergência.   Percebi rápido que precisava agir e então, foram só três anos intensos de encontros e a história de vida de um dos moradores, Sr. Chicória, morador do lago (a carta dele, contando sua história me fez mudar de rumo também, está no livro), que me impulsionaram a buscar rápido algo que me possibilitasse criar um documento sobre tudo isso que vi e senti e compartilhar como público.

Como você tem percebido a discussão sobre a Amazônia, neste cenário de governo de extrema-direita?

Estamos tendo que lidar com um comportamento com contornos fascistas que uma parte da minha geração acreditava não existir mais nesse país. Então, temos que lidar com isso. Os discursos e ações  sobre e na Amazônia refletem essa postura. Nosso papel, esse de quem vive e trabalha na Amazônia, é fomentar a reflexão sobre o cotidiano dessa região, utilizando a potência de todas as linguagens para resistir e reverberar  nossas preocupações. 

Você acredita que a sua obra pode vir a ganhar novos desdobramentos com o prolongamento desse discurso ou mesmo ações contrárias à preservação do meio ambiente e contra o direito dos povos tradicionais?

Isso é imprevisível. 

Mais informações sobre o livro e acesso ao pdf gratuito podem ser obtidos neste site.


Amazônia Real / Vivianny Matos



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