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12/02/2020 | domtotal.com

Antes de se tornar o príncipe

Havia dor nas palavras, culpa, como se o sangue de todos os cordeiros degolados o afogasse

Estava condenado a ser um príncipe e eu sabia que cairia em desgraça
Estava condenado a ser um príncipe e eu sabia que cairia em desgraça (Wikicommons)

Por causa da chuva, a missa na Igreja do Ó estava bem vazia e os fiéis saíram apressados para aproveitar a estiagem. Até o padre se recolheu e, na pequena capela, ficamos sós, sob as imagens barrocas, o cheiro da chuva e o silêncio sóbrio e secular.

Acompanhei sua caminhada trôpega até o altar, murmurava uma espécie de uivo. Custei a decifrar o que dizia, mas ele erguia a voz enquanto se aproxima da Nossa Senhora. Dizia sobre famélicos histéricos nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro – qual bairro de Sabará não carrega as correntes da negritude, o peso da história injusta e disfarçada como os pierrôs que pulam pelas ladeiras no carnaval?

Ele estava bêbado, deduzi ao presenciar tamanha lucidez. Ele se ajoelhou diante da santa circundada de ouro e sofrimento. Sacudiu os braços num gesto mais condizente com Exu do que com Nossa Senhora, mas pensei em Confúcio. Não importa, era um ato sincero de fé.

Segui os passos da figura trôpega ao sair da igreja. Ele se sentou na escadaria e, quando me instalei a seu lado, disse: “Não tenho boa memória, por isso não sei mentir”. Não fui capaz de dizer nada e o silêncio era bom, até ser interrompido pelo escândalo das maritacas.

Devia ter uns 18 anos, exibia uma beleza límpida e pungente, o cabelo louro sob os olhos, talvez do tamanho de sua angústia e de seu tormento. Contou-me que o pai fez questão de deixá-lo na cadeia, depois que ele tinha furtado algumas roupas e sapatos para não ser alvo de chacota dos amigos. A escola, ele já tinha desistido.

“Vou ser músico”, disse. Tive certeza de sua convicção e de que ele, de fato, seria um rock star. “Atualmente, mato animais”, falou, explicando que trabalhava em um abatedouro. Havia dor nas palavras, havia culpa, como se o sangue de todos os cordeiros degolados o afogasse.

Afaguei-o, não pude evitar. Afastei os cabelos de seus olhos. Estavam turvos, voltados para a serra, mas não viam nada além de sua própria dor. Dei um pulo da escada de pedra e bradei em voz alta, para acordar os espíritos de todos os tempos: “Vamos beber cachaça!”

Seguimos pelas ruas de pedras de Sabará até um boteco escondido à beira do Rio das Velhas. Contei histórias de fantasmas coloniais, de sofrimentos terríveis e um morcego cruzou a luz. Já era noite quando saímos abraçados descendo a beira do rio, olhando as casas tristes e rindo. Éramos todos uns desgraçados, condenados à escuridão.

Aquele jovem, porém, era encantado. Estava condenado a ser um príncipe e eu sabia que cairia em desgraça. O brilho, a luz – tão evidente no andar trôpego ali, à beira do Rio da Velhas – seriam demasiados, ofuscantes.

Ele se dirigiu à margem, tirou as botas e colocou os pés nas águas do rio. Sentado numa pedra próxima, elogiei o murmúrio das águas. Ele sorriu pela primeira vez e repetiu: “Vou fazer música, quero fazer um rock’n’roll digno deste ouro negro”. “Rock?”, perguntei. Ele lavou o rosto nas águas sujas de minério e dor e respondeu que sim, amava os Beatles.

Acompanhei o jovem John Michel até a rodoviária e me certifiquei que estava seguro dentro do ônibus rumo a Londres. Soube, anos depois, que ele tinha se tornado um cantor, até famoso, um príncipe. E adotou o nome de Ozzy.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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