Religião

13/02/2020 | domtotal.com

Mulheres se queixam do papa por não abordar o diaconato feminino na 'Querida Amazônia'

Conferência de Ordenação da Mulher responde à 'Querida Amazônia': o papa voluntariamente dá as costas às mulheres

Presença feminina na assembleia do sínodo foi mínima
Presença feminina na assembleia do sínodo foi mínima (synod.va)

Gilmar Pereira

Foi lançado nesta quarta-feira (12) a exortação apostólica pós-sinodal Querida Amazônia do papa Francisco. O texto frustrou aqueles que aguardavam a aprovação da ordenação presbiteral de homens casados e diaconal de mulheres.

Focado na questão socioecológica e de evangelização da Amazônia, o documento era aguardado também pela possibilidade do papa aprovar mudanças na disciplina canônica relativa ao ministério ordenado. Além disso, a expectativa era a da criação de um rito amazônico que acolhesse as diversas culturas da região. Todos esses pontos foram debatidos e aprovados pela assembleia dos bispos presentes no Sínodo para a Amazônia, concluído em outubro de 2019.

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A exortação apostólica não retoma as conclusões do documento final do sínodo nem as recomendações dos padres sinodais para suprir a falta de padres na região amazônica, que abrange nove países. Em vez disso, o papa convida à oração por mais vocações sacerdotais. Ele também incentiva à solidariedade as dioceses e a vida religiosa consagrada a fim que sejam enviados mais missionários para as áreas remotas onde os fiéis atualmente passam meses ou até anos sem a missa.

A diretora executiva da Conferência pela Ordenação da Mulher (Women's Ordination Conference), Kate McElwee, disse que o documento traiu as mulheres na Amazônia e de outros lugares. Kate atesta que elas realizam a maior parte do trabalho eclesial, transmitem a fé de geração em geração e, no entanto, não têm reconhecimento ou autoridade oficial.

"Reconhecer o trabalho das mulheres através da ordenação diaconal seria o primeiro passo e o mais básico para corrigir o erro do sexismo institucional que atrapalha nossa Igreja, na tentativa de responder às crises morais de nosso tempo", disse Kate em comunicado da entidade que dirige.

Leia a íntegra.

A Conferência de Ordenação da Mulher responde à Querida Amazônia: o papa voluntariamente dá as costas às mulheres

Querida Amazônia, a exortação pós-sinodal do papa Francisco divulgada hoje, descreve quatro "sonhos" para a Igreja e o meio ambiente, deixando as mulheres e seus sonhos nas notas de rodapé do documento e em seu papado. Com Querida Amazônia, o papa voluntariamente dá as costas aos apelos das mulheres pelo reconhecimento sacramental dos ministérios que oferecem ao povo da Amazônia e à Igreja global.

O papa Francisco escreve que precisamos “aceitar corajosamente a novidade do Espírito capaz de criar sempre algo de novo com o tesouro inesgotável de Jesus Cristo, porque a inculturação empenha a Igreja num caminho difícil mas necessário”[69], mas, apesar dos testemunhos de mulheres da Amazônia e da esmagadora discussão de seus bispos ao longo do processo sinodal de um mês, o papa novamente confia em metáforas desonestas para negar às mulheres sua plenitude em Cristo.

Empregando a teologia da complementaridade, o papa Francisco reduz os pontos fortes e os dons das mulheres aos de "uma criatura... Maria" e afirma que a identidade sacerdotal permanece na "figura de um homem" [101]. O papa aparentemente ignora o pedido do sínodo para mais estudos sobre a possibilidade de mulheres diaconisas e, em vez disso, diante da escassez sacramental, pede oração pelas vocações masculinas ao sacerdócio. Isso mostra, mais uma vez, que um sínodo sem a voz e os votos iguais das mulheres nunca produzirá frutos que satisfaçam as necessidades urgentes do povo de Deus.

Reconhecer o trabalho das mulheres através da ordenação diaconal seria o primeiro passo e o mais básico para corrigir o erro do sexismo institucional que atrapalha nossa Igreja, na tentativa de responder às crises morais de nosso tempo.

Enquanto a Conferência pela Ordenação da Mulher aplaude a sincera preocupação do papa com a catástrofe climática global e suas ameaças específicas à região amazônica, achamos problemático que o ele não consiga conectar a degradação da terra à degradação das mulheres em sua própria Igreja, e as estruturas de poder semelhantes que estão, de fato, em jogo.

Apesar do status de segunda classe, o papa Francisco reconhece que “as mulheres mantêm a Igreja viva há séculos...” [99]. Sonhamos com uma Igreja que esteja verdadeiramente viva com todos os presentes que as mulheres podem oferecer, incluindo seus chamados ao ministério ordenado. Nesta crise ambiental e espiritual, a Igreja não tem tempo a perder no reconhecimento à igualdade das mulheres


Dom Total

Tradução da nota da Women's Ordination Conference: Ramón Lara



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