Religião

14/02/2020 | domtotal.com

Palavra de honra

Nos nossos escândalos de cada dia, o desprezo por uma palavrinha que saiu de moda

Honestidade era palavra básica e vinha de berço
Honestidade era palavra básica e vinha de berço (Unsplash)

Fernando Fabbrini*

Havia certo casal (ele e ela funcionários de uma prefeitura do interior mineiro) que vivia à beira-mar, no litoral capixaba, com domicílio fixo. Uma vez por mês passavam no banco e sacavam fortunas referentes aos salários e benefícios pagos pelo citado órgão público mineiro – onde não davam as caras há tempos. Ué? Mas... estariam por acaso de férias? Não: apenas no exercício de um golpe sorrateiro há quinquênios. Viviam gordos, felizes e bronzeados fritando manjubas e bebendo cerveja. Quando mudou a administração da prefeitura, descobriram a treta. Até hoje tentam extrair o esperto e despreocupado casal da folha de pagamentos, sem sucesso. A coisa se arrasta nos tribunais.

Tenho certeza de que todo mundo conhece histórias parecidas como a do casal de Guarapari. É apenas um mau exemplo de como é fácil tornar-se um parasita da burocracia nacional. Deixemos de frescuras: há, sim, milhares de aproveitadores que, com emprego e salário garantidos, não fazem absolutamente nada pelo município, o estado e a nação, além de dependurarem-se nos privilégios das funções. O serviço público costuma ser o habitat ideal para certos folgados, já que não enganariam muito tempo na iniciativa privada.

Mas, porém, todavia e contudo, isso não significa que todos os funcionários públicos sejam dessa laia; é óbvio. Há, felizmente, muita gente honesta e dedicada que encara seu trabalho com abnegação e seriedade invejáveis. São bons técnicos, especializados em gestão pública – atividade que a cada dia exige mais ciência, mais ética e menos politicagem, sobretudo nos tempos bicudos que vamos atravessando.

A declaração do ministro a respeito de parasitas e hospedeiros causou os costumeiros chiliques nas redes e redações. As “repercussões negativas” habilmente conduzidas pelas “distorções do contexto” são diárias, banais e irresponsáveis. Imagino que, caso o país consiga extinguir o analfabetismo, a manchete de alguns jornais será "Governo exclui direitos de nascença de milhões e causa superpopulação nas escolas”. Se uma batida policial recolher fuzis de traficantes, pode apostar nesta: “Governo confisca instrumentos de trabalho de minorias marginalizadas”. Por aí também caminha a desonestidade.

Desde as capitanias hereditárias o serviço público brasileiro constitui-se num terreno fértil para plantio e colheita de mamatas. O ápice dessa tendência nefasta teve lugar nos últimos governos. Isso porque o partido no poder já instituíra um tipo de “rachadinha” muito antes de ela virar notícia. O fiel companheiro era nomeado na obrigação de contribuir com um percentual de seus proventos para o caixa da turma. Como a fórmula dava certo, na maior cara de pau e com deslavada ganância, passaram a aplicá-la em escalas maiores em empreiteiras e fornecedores, elevando os valores furtados de nossos bolsos às casas dos bilhões.

Pobre “honestidade”. Antes era uma coisa básica, já vinha do berço; preceito que qualquer indivíduo entendia, fosse aqui ou nos cafundós do mundo: não roube; não tire proveito dos outros; respeite o que é de todos; não invente maracutaias e falcatruas para se dar bem.

Tão abandonada, foi necessária uma reengenharia ortográfica para dar ao vocábulo uma rejuvenescida: honestidade agora virou compliance; não é muito mais chique? Talvez com isso, como no caso de bullying, petshop, selfie, fake-news e tantas outras, a honestidade possa voltar à moda – literalmente, como uma palavra de honra.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália.



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