Religião

14/02/2020 | domtotal.com

Vaidade das vaidades ou a soberba como ilusão

Só podemos combater a soberba e a falsa ideia de que nossa vida é melhor ou mais importante que a dos outros se nos abrirmos ao amor de Deus

O soberbo se vê refém da alegria fugaz e alienante
O soberbo se vê refém da alegria fugaz e alienante (Sithamshu Manoj/ Unsplash)

Junior Vasconcelos do Amaral*

Uma das mais famosas frases bíblicas é atribuída ao autor designado Qohélet, ou também conhecido como Eclesiastes. Qohélet vem de Qahal, em hebraico e Eclesiastes vem de Ekklesia, ambas as palavras podem ser traduzidas por “Assembleia” ou “aquele que preside uma assembleia”, podendo ser também traduzido livremente por “pregador”. Ele diz, enfaticamente: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2). Esse personagem incorpora a tradição sapiencial, cuja literatura também é conhecida como sabedoria de Israel, traduzindo um tempo difícil, sem muitas perspectivas e sentido, circunscrito por muitas crises existenciais, que levam o ser humano daquele tempo a questionar o verdadeiro significado da vida.

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O livro do Eclesiastes é tradicionalmente atribuído a Salomão, que viveu entre os anos 971 a 931 a.C. Teria sido um escrito de sua velhice, há quem assim concorde. Em Ecl 1,1 se lê: “Palavra do pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém”. O tom deste livro é pessimista e mostra a condição débil da vida humana. A palavra “vaidade”, tradução utilizada pelo português ao termo hebraico hebel, não é verdadeiramente a melhor. A palavra hebel pode ser traduzida literalmente por “fumaça”, “vento”, “hálito” ou ainda “brisa” e está literalmente associada a algo que não se prende, que é volátil. Assim, a vida, repleta de vaidade, é vida fugaz e passageira.

Há como, então, não viver de vaidades, já que somos muitas vezes arrastados e seduzidos a elas? Para descobrirmos a resposta para esta questão é preciso refletir na própria condição da vida, perceber sua significância, ver as dificuldades que nos circundam e nos perguntarmos sobre o que é mais importante para tecermos a rede de nossa existência, sem que ela se torne fugaz e passageira como o vento, mas seja algo consistente e memorável.

Para a tradição bíblica sapiencial, cuja sabedoria é seu norte, a vida de um tolo e de um sábio se diferencia por suas opções: injustas ou justas, más ou boas. O destino de ambos é sempre a morte, porém o justo brilhará por sua conduta e sua fé. Em contrapartida, o injusto não brilhará, pois se ofuscou a si mesmo, desviou-se da luz do amor de Deus, por isso, não a refletirá na eternidade. O sábio não se deixa guiar pela soberba, mas tem no coração a humildade e reconhece-se limitado e pecador, buscando sempre crescer e abrir-se ao projeto criacional de Deus, que o fez a sua imagem e segundo sua semelhança (Gn 1,26). O ignorante deixa-se levar pela soberba e em muitos casos se acha melhor que os outros, não se importando com a vida dos demais, bastando-se a si mesmo e desejando levar vantagens em tudo. A vaidade é filha da ignorância, da falta de autoconhecimento e da sensatez de que a vida é passageira. A limitação, a morte, em todo caso não é de longe ruim, pois nos atrela à obra da criação que tem seu começo, seu desenvolvimento e terá seu fim.

A soberba nos leva, todavia, a considerar que a finitude não existe e que seremos eternamente felizes e realizados. Porém, a felicidade e a realização são realidades momentâneas, passageiras e frutos de gozos imediatos, mas que desejamos plenificar e prolongar. O soberbo se vê refém da alegria fugaz e alienante. Tal alegria imediata, fruto de conquistas de coisas ou títulos, não pode ser em espécie alguma comparada àquela que Deus deseja para nós, no porvir da vida eterna, da vida sem ocaso, da eternidade que é a realidade proveniente de Deus, da qual nós um dia participaremos pela fé de forma perene.

Só podemos combater a soberba e a falsa ideia de que nossa vida é melhor ou mais importante que a dos outros se nos abrirmos ao amor de Deus, que nos conduz à sabedoria, à vivência da justiça e do direito, que significa que todos nós devemos e podemos ser felizes, e não apenas alguns podem gozar da felicidade. Há uma inter-relação entre os sujeitos humanos e com isso vemos formar uma grande teia de relações; interligadas umas às outras, as pessoas humanas se revelam partícipes da vida uma das outras.

Toda esta realidade nos leva a perceber que tudo que vivemos e experimentamos baseia-se na parceria entre o ser humano e Deus e o ser humano com seu semelhante. À medida que percebemos que nossas vidas estão entrelaçadas, por causa da tessitura que o Criador utilizou para nos criar, chegamos à certeza que nossa vida não é pior, nem melhor que a dos outros; ela é apenas diferente, pois cada um sabe a dor e a alegria de existir, de projetar sua existência, sonhar e se lançar na construção de si e de suas relações. A verdadeira maturidade se atinge quando chegamos à conclusão que Deus nos criou a todos e todas para a realização, à plenitude e ele só será pleno quando nós formos felizes.

Por fim, somos convidados pela Palavra de Deus a vivermos a humildade, na certeza de que somos parte do grande sistema criado por Deus. Ele nos ama e quer que nos coloquemos na mesma dinâmica do amor, sendo seus sinais neste mundo, a fim de construirmos uma sociedade mais justa e fraterna, onde o amor e a paz possam se abraçar.

*Junior Vasconcelos do Amaral é doutor em Teologia Sistemática pela FAJE/BH (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia), professor de Bíblia na PUC-Minas, presbítero a serviço da Arquidiocese de Belo Horizonte, MG.



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