Religião

14/02/2020 | domtotal.com

A soberba da elite do atraso como empecilho para o desenvolvimento social

A elite do atraso é soberba e se organiza de forma a se perpetuar na sua posição e resguardar seus próprios interesses

Paulo Guedes, no dia 12 de fevereiro, critica acensão social do pobre:
Paulo Guedes, no dia 12 de fevereiro, critica acensão social do pobre: "Todo mundo indo pra Disneylândia. Empregada doméstica indo pra Disneylândia. Uma festa danada. Peraí" (Ministério de Minas e Energia)

César Thiago do Carmo Alves* 

No século 20, o pensador e historiador italiano em política, Gaetano Mosca (1858-1941), elaborou a fórmula famosa da teoria das elites.  A constatação de que, em toda sociedade, haveria sempre e apenas uma minoria detentora do poder e uma maioria privada dele não é totalmente nova em sua expressão mais genérica. Já os antigos sofistas vislumbraram algo semelhante ao afirmar que a justiça é a expressão do mais forte.

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O historiador, primeiramente, faz uma crítica à teoria aristotélica das formas de governo: monarquia, aristocracia e democracia. Afirma ele que não há três, mas somente uma forma de governo: a aristocracia. Ele se baseia na constatação ou suposição de que, em toda sociedade política, existem somente duas classes de pessoas: os governantes (elite detentora do poder político) e os governados (o restante da população). A elite organiza-se de tal forma que se perpetua na sua posição e resguarda seus próprios interesses, lançando mão, inclusive, dos meios disponíveis do poder. A organização constitui a característica principal da elite, bem como sua possibilidade de sobrevivência. Ela está estruturada e se impõe à massa dispersa. A sublimação da elite perante a massa ocorre porque ela acredita ser detentora de algum atributo especial como o contato com o divino, força, saber e riqueza. A elite, publicamente, faz com que creiam em sua superioridade e, com isso, adquire legitimidade social. Disso emerge a “fórmula política” que consiste num conglomerado de valores, crenças e sentimentos comuns inerentes à história daquele povo. A elite seria a encarnação desses valores e a deteriorização deles apontaria para mudanças sociais. As questões ideológicas, como liberalismo ou socialismo, bem como os sistemas de governo, como presidencialismo ou parlamentarismo,  são utopias, lucubrações da elite para manter-se no poder.

O poder da elite se reproduz de duas formas: a democrática, quando a elite permite o ingresso de membros de outras classes sociais. Ela é aristocrática, quando a mudança ocorre no interior da elite. No entanto, mesmo na forma democrática, há critérios para que outros membros ingressem na elite. Mosca constata que os candidatos devem preencher duas condições essenciais: possuir qualidades pessoais especiais e possuir determinação pessoal para o exercício do poder. Uma vez admitido na elite o indivíduo dilui-se na organização. A massa, por sua vez, ao participar na constituição do poder legitimará a vontade da elite. A participação popular através do voto não significa que o povo esteja dirigindo seus eleitos, ao contrário, ele escolhe da elite uma elite de escolhidos

A teoria das elites, ao ingressar nos Estados Unidos da América, encontrou terra fértil. Para isso, contribuíram tanto sua cultura política, a democracia representativa, como sua economia calcada no sistema capitalista da livre iniciativa e competição. No parlamento, os políticos, deputados e senadores são eleitos por verdadeiras máquinas eleitorais, concorrendo para isso o poder econômico, o prestígio pessoal e o círculo partidário a que o candidato pertence. Com isso, o governo é confiado a uma minoria, escol da sociedade, a elite. A economia, através da competição, gera uma camada dos mais ricos, competentes e competitivos, produzindo uma elite econômica, uma classe média e uma massa que se beneficia ou não das benesses do capitalismo. Desse modo, a ética da teoria das elites casou perfeitamente com o espírito norte-americano de que os melhores em cada setor são os mais bem sucedidos.

É nesse cenário do elitismo que se pode vislumbrar o caso brasileiro. A elite do atraso é soberba. Enclausurada em si mesma. Tem até juiz à sua disposição responsável por não respeitar o devido processo legal para assegurar sua posição. Alteridade e solidariedade não são palavras que cabem em seu vocabulário. Esse enclausuramento voltado tão somente para os interesses que lhes são próprios não se importa efetivamente com a realidade do desenvolvimento social. Em sua soberba, a divisão dos poderes postulado pela Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 serve tão somente para garantir sua posição social de privilégios, pouco se importando com as outras pessoas que estão em outros estratos sociais. Se tem gente que se encontra na linha da miséria e figura no mapa da fome, isso não lhe vem ao caso. Causa-lhe incomodo programas sociais que favorecem as minorias sociais, uma vez que podendo alçar voos mais altos, essas minorias podem causar dor de cabeça para os privilégios intocados, quase que sagrados para essa elite. O que se assiste diuturnamente no desmonte desses programas sociais é tão somente um projeto articulado para que os que não fazem parte da elite fiquem cada vez mais subalternizados. Atacar a cultura e a educação é, indubitavelmente, a estratégia mais eficaz para a permanência da elite no poder e frear o desenvolvimento social. A população é vista apenas como massa de manobra. Ela serve para validar os mandos e desmandos, não questionar a concentração de renda e abençoar cegamente os abusos cometidos na administração pública. Enquanto isso, desenvolvimento social, que é uma das bases para uma efetivação verdadeira da democracia, não faz parte da agenda do elitismo. Não fazendo parte, maquia-se com discursos anticorrupção.

*César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.



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