Religião

14/02/2020 | domtotal.com

Sobre umbigos e o que eles nos dizem sobre soberba

Olhamos o mundo a partir de nosso próprio lugar, a partir de nosso umbigo. A radicalização disso é a soberba

Nosso umbigo é uma marca a nos lembrar, constantemente, que somos relação
Nosso umbigo é uma marca a nos lembrar, constantemente, que somos relação (Unsplash/ Dimitar Belchev)

Felipe Magalhães Francisco*

Temos umbigo! A constatação do óbvio, aqui, quer remeter à dimensão simbólica que o fato de termos umbigo carrega. A começar, ele é a marca, a cicatriz de um trauma: o trauma de termos nascido. A vida, no útero materno, era confortável, o necessário para a sobrevivência nos era comunicado pelo cordão umbilical. Uma vez paridos, um corte radical. É como que um aviso de que teremos que arcar com a vida, por nós mesmos. Apesar de traumático, essa ruptura é também carregada de simbolismos: o cuidado que a família tem ao “curar” o umbigo do recém-nascido revela que aquela vida não está sozinha. Diríamos, pois, que nosso umbigo é uma marca a nos lembrar, constantemente, que somos relação.

É curioso como que, no popular, costumamos dizer para a pessoa não olhar apenas para o próprio umbigo, quando ela pensa e age com egoísmo. A respeito da soberba, é possível que digamos que nosso umbigo não é melhor que o de ninguém. Olhamos o mundo a partir de nosso próprio lugar, a partir de nosso umbigo. Mas não devemos parar nisso. O umbigo, torno a dizer, é uma recordação de que somos, eminentemente, relação. E toda relação é uma comunicação do que somos, é uma troca de experiências. A pessoa soberba age nas relações como se apenas ela tivesse algo a oferecer, se é que quer oferecer alguma coisa. Para o soberbo, ninguém é tão bom quanto ele. A soberba é um impeditivo para relações efetivamente igualitárias.

O cristianismo primitivo tinha dois pilares que serviam de fundamento para a identidade de pertença àquele nascente movimento: o amor ao próximo e a renúncia ao status. Esses dois pilares se inter-relacionam, de forma umbilical: é a renúncia ao status que impedia que o amor se expressasse como mera ação caritativa desvinculada da justiça social. Renunciar ao próprio status, à própria posição, significava promover o outro a uma posição de dignidade. É disso que se trata a descrição que Lucas faz da comunidade cristã, nos Atos dos Apóstolos (cf. 2,42-47). No mesmo horizonte, é assim que se compreende a pobreza franciscana. Eis, aqui, pois, um caminho saudável para a superação da soberba: a renúncia ao status, como maneira de lidar melhor com nosso próprio umbigo.

No Dom Especial desta semana, temos três artigos que refletem sobre a soberba, em variadas perspectivas bastante atuais. No primeiro, Vaidade das vaidades ou a soberba como ilusão, Júnior Vasconcelos propõe uma reflexão a partir da tradição sapiencial de Israel, em especial o livro do Eclesiastes, a respeito de como a soberba não passa de uma ilusão, que impede uma vida pautada na sabedoria.

É possível pensarmos que a soberba é também um entrave para o desenvolvimento e a efetivação do diálogo inter-religioso. Em tempos de absolutização das verdades particulares, com perigosa perseguição ao pensamento diverso, refletir sobre essa postura soberba é fundamental. É o que nos ajuda a fazer Fabrício Veliq, com o artigo A soberba religiosa como impedimento para o diálogo inter-religioso, no qual propõe uma leitura saudável a respeito do que seja o diálogo e a presumida disposição para ele.

Por fim, trazendo a reflexão para o campo social, temos o artigo de César Thiago do Carmo, A soberba da elite como atraso, que reflete sobre esse pecado capital, como um impeditivo para que a justiça social, como caminho para o desenvolvimento do país, aconteça. Para isso, o autor recorre à chamada Teoria das Elites, que usa para ilustrar a situação do caso brasileiro.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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