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15/02/2020 | domtotal.com

As fronteiras da alma e do amor

Poeta Cândida Almeida faz bela estreia em 'Quando fronteira'

A escritora encontra leveza em versos diretos e curtos com rara habilidade
A escritora encontra leveza em versos diretos e curtos com rara habilidade (Patuá/Divulgação)

Jovino Machado*

A mineira Cândida Almeida acaba de estrear na poesia com a coletânea de poemas Quando fronteira, editada pela jovem Editora Patuá, de São Paulo. A obra é dividida em quatro partes: “Como tocar o entorno”, “Cacos colados”, “Sê”, e “De peito aberto”. São versos que falam de meandros filosóficos, natureza, simplicidade, paixões e amor. Li e reli cada uma das partes em voz alta, copiei alguns versos na minha agenda e levei para ler no bar.

Bebericando alguns chopes, fui sorvendo os textos aos pouquinhos, aos golinhos, como quem experimenta uma bebida que ainda não conhece ou uma comida temperada com temperos de regiões distantes que ainda não coloquei os pés. Entre um chope e um verso percebi que a poesia de Cândida Almeida vem do fundo de uma alma fragmentada, uma espécie de terceira margem onde a vida tacanha não pode alcançar.

Também é fácil perceber a musicalidade entre uma linha e outra, uma partitura melancólica que não se desfaz em lágrimas e segue por uma trilha particular escolhida pela poeta. As fronteiras entre os incêndios das paixões e as brasas acesas dos amores são iluminações na noite escura da vida.

Como tocar o entorno

A morte é um ponto final e pode ser um ponto de exclamação diante da possibilidade de uma outra vida num plano superior, num paraíso que supera a vida terrena, mas a primeira parte do livro começa com o verso "A morte é uma vírgula", e talvez seja intenção da autora dizer que a indesejada é apenas uma pausa para uma nova palavra, uma frase, uma epifania, uma nova introdução, um capítulo divino que não pertence mais ao epílogo do livro da existência. O poema Areia talvez seja a síntese da travessia desse primeiro bloco onde a reflexão existencial tem a sábio desejo de voar.

areia

andar pela vida
cruzei

sentir pelos becos
entrei

subir nos andares
voei

sentar nas calçadas
cansei

Cacos colados

Na verdade, é difícil colar os cacos quando se trata de escrever uma narrativa poética em tempos fragmentados. O que não pode ser calado, também não pode ser colado. Os cacos da poesia de Cândida são raspas e restos que interessam ao leitor de poesia, só para lembrar o bardo Cazuza, porque os bons poetas sabem trocar as figurinhas mais difíceis e dispensar as repetidas. Na poesia contemporânea temos figuras carimbadas que todo mundo quer ouvir a voz.

A voz poética de Quando fronteira precisa ser ouvida com atenção, cuidado e silêncio. Não é uma fala feminina que percebo nos poemas. Também não é masculina. É uma mistura existencialista e musical porque a sonoridade me faz pensar em canções que me emocionam muito no percurso dos dias. Com esses cacos colados e descolados também me emociono. Esses cacos são também ruínas e ruídos que também podem incomodar e tirar o leitor da zona de conforto.

É uma imensidão de coisas que podem ser vistas, recriadas e imaginadas na cabeça de um leitor de um livro de poemas. As palavras desconcertantes que cortam como facas afiadas jamais serão coladas, porque os cacos vão diminuindo de tamanho até desaparecer em nuvens que não existem e são apenas sonhos estilhaçados.

A terceira parte é a mais leve, levinha, quer voar, subir, viver, morrer e ressuscitar. Quer sentir a brisa na cara e talvez o vento forte demore um pouco a chegar. Demora porque a leveza de um verso de pé quebrado não atrapalha a beleza de um caco de sonho, de uma asa que mesmo ferida sustenta as nossas dores e ao mesmo tempo se nega a sofrer, pois o que ela mais deseja é voar. E é voando que Cândida vai levitando, visitando e revisitando seus entornos, suas fronteiras, seus rios imaginários e suas correntezas. É quando a poesia atinge um ponto luminoso que ilumina a vida. É quando nonada é nadica de nada. É quando as veredas se abrem para a sensibilidade e nonada é "nada névoa a nada" como escreveu divinamente o grande poeta concreto Haroldo de Campos.

E aqui me atrevo contar uma historinha para ilustrar esse momento do livro que mais me agradou. Certa vez uma equipe de reportagem da Rede Minas estava na pequena cidade mineira de Cordisburgo e entrevistava as pessoas na rua perguntando o que era "Nonada", palavra que dá início ao grande romance Grande sertão: veredas, do imenso e universal João Guimarães Rosa. Depois de conversar com muitos moradores da cidade, a repórter que ainda não tinha conseguido uma resposta satisfatória, abordou um menino que brincava com um carrinho de boi, e fez a difícil pergunta. O garoto olhou com um olhar melancólico e sonhador e respondeu sem pensar duas vezes: "nadica de nada”. Em "Sê", a poeta dialoga também com o poeta pantaneiro Manoel de Barros e faz uma homenagem a poeta paulistana Hilda Hilst, no belíssimo poema que transcrevo a seguir:

hilda manoel hilst de barros

quero ser passarinha

olhos no vento
pouso na seiva

e a tristeza?
quem sabe soluço do meu canto

pena?
só se for de pavão

De peito aberto

Se na terceira parte a poeta quis voar e se transformou em passarinha, alcançando grandes voos com a sua poesia, nessa quarta parte, nesse epílogo, nesse fim sem fim, ela abre o peito para falar de amor. Esse amor tão cantado pelos trovadores desde o dia em que Shakespeare disse: "O amor é uma invenção dos poetas”. É claro que o amor já tinha sido cantado em prosa e verso, mas quando o bardo inglês escreve com tanta sensibilidade sobre esse fogo que queima os corações humanos, ele dá ao poeta o destino de inventor, de sedutor que não se distancia da realidade, pois sabe no fundo tudo é apenas a imaginação que nasce do nosso desejo.

Para fechar seu livro com chave de ouro, Cândida se vira do avesso para falar dos desejos, das paixões profundas e outras nem tanto. Se aventura na prosa poética (prosa se não for poética, não é boa) e se sai muito bem. Sua prosa é tão boa quanto a sua poesia, mas fica um gostinho de quero mais. Quem sabe no próximo livro? Abrir o peito numa obra de arte é tarefa difícil para os poetas, mas Cândida como um Sísifo não tem medo de ver a pedra que rola do alto da montanha, porque a sua poesia tem muito fôlego, beleza e persistência para levar a pedra do amor para o lugar mais alto de nossas vidas, de nossos sentimentos mais sensíveis.

Nessa parte final que me agradou tanto, chamo atenção para um poema lindo, cujo título significa segundo os franceses, aqueles poucos segundos depois do orgasmo, quando não temos nenhum desejo e estamos, portanto, muito próximo da morte.

petite mort

num canto soprano
vindo de dentro
da soma dos seios
sinto em uníssono
a sensação do murmúrio


QUANDO FRONTEIRA
De Cândida Almeida
Editora Patuá
112 páginas
R$ 40

*Jovino Machado é poeta, autor de 'Sobras completas' (2015) e 'Trilogia do álcool' (2018).



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