Religião

18/02/2020 | domtotal.com

A via-sacra da Mangueira

Mangueira resgata mensagem do Cristo esquecida pelos crentes

O anti-Cristo é o 'messias de arma na mão', segundo o evangelho da Magueira
O anti-Cristo é o 'messias de arma na mão', segundo o evangelho da Magueira (GRES Mangueira)

Tânia da Silva Mayer*

Senhor, tenha piedade, olhai para a terra,
veja quanta maldade.

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra do buraco quente
Meu nome é Jesus da gente
Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque de novo cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais que a escuridão

Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão
Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E num domingo verde e rosa
Ressurgi pro cordão da liberdade

Mangueira
Samba que o samba é uma reza
Se alguém por acaso despreza
Teme a força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também

Às portas da vivência de mais um tempo da quaresma, os cristãos percorreremos mais um caminho que conclama à conversão. Nesse caminho, apela-nos, por primazia, a Palavra de Deus. Sempre atual, não volta para o Senhor sem antes provocar seus efeitos, mesmo nos corações mais endurecidos, como afirmava o profeta Isaías. Os ritos, os símbolos e as artes podem aparecer em segundo plano, fomentando, a seu modo, a tão necessária transformação das vidas, incentivada para todos os tempos.

No plano das artes, cabe-nos ressaltar que esse movimento transformador não se restringe àquelas produzidas em espaços religiosos. Interpelações profundas podem sim surgir no contato com artes que emergem de espaços não religiosos e não crentes. No entanto, deve-se sempre refletir sobre as influências religiosas nas constituições de culturas, tal como a brasileira. Influências que tornam narrativas e discursos acessíveis mesmo aos grupos que não professam ou não vivenciam uma fé específica.

Por ora, deixando de lado essa perspectiva da crítica cultural, às portas de mais uma quaresma, o samba enredo da Estação Primeira de Mangueira em 2020 interpela por concatenar, com profundidade, a narrativa evangélica desenvolvida ao redor de Jesus e documentada no novo testamento da Sagrada Escritura cristã. Trata-se, como se pode ver acima, de uma letra latente de metáforas, comparações e evocações do Jesus da história bíblica difundida mundialmente.

Por essa razão, é apressado dizer que o eu-poético da letra é o Jesus dos evangelhos cristãos. No entanto, trata-se de uma personagem que integra, simbolicamente, um profeta da atualidade brasileira e aquele homem que dedicou a vida ao anúncio e à implementação do Reino de justiça, amor e paz na vida de todas as pessoas, principalmente das que eram discriminadas ou excluídas por fatores sociais, culturais ou religiosos.

Nenhuma interpretação pode, por si mesma, esgotar uma poesia. É equivocado pensar o contrário. Para nós, não sem razões, os compositores convidam a percorremos mais uma vez uma espécie de via-crúcis, um caminho terreno marcado pela maldade dos homens. Por isso mesmo, invoca-se o “Senhor”, pedindo que veja o sofrimento do povo e aja para libertá-lo, tal como oravam os homens e mulheres de fé nos momentos da história em que a esperança titubeava diante das escravidões e perseguições. É como ainda rezam os cristãos nas liturgias dominicais. O Senhor haverá de ver, ouvir e agir compassivamente para a libertação dos brasileiros, tal como outrora no Êxodo.

Nesse caminho, o Jesus-poético tem a última oportunidade de falar de si e de propagar sua mensagem àqueles que o acompanham rumo à crucificação. A primeira estação da via sacra é, sem dúvidas, condicionada pela origem da personagem. O Jesus-poético é da “Estação Primeira de Nazaré” e identifica-se com os rostos das pessoas massacradas em nosso país: negros, índios, mulheres. Como ele é o “Jesus da gente”, sua identificação com outros sofredores não encontra limites.

Filho de pai desempregado, e da mãe, “Maria das Dores Brasil”, ele está em comunhão irrevogável com os brasileiros deste tempo. Sem dúvidas, sua mãe, de nome comum, é aqui o símbolo das mulheres que choram a morte injusta e precoce de seus filhos e filhas pelo terror do Estado e das milícias. Como se pode ver, o samba trabalha hermeneuticamente a realidade brasileira em face da atualização da mensagem cristã a respeito de Jesus Cristo.

Nessa via-sacra da Mangueira, o Jesus-poético avança, afirmando-se como o consolador. Nascido “de peito aberto e punhos cerrados”, ou seja, disposto à missão de promover vida plena e abundante, ele enxuga “o suor de quem desce e sobe ladeira”, de quem peleja dia e noite. Nele se encontra o descanso. Entre a afirmação de si e de sua mensagem, continua: “Me encontro no amor que não encontra fronteira / procura por mim nas fileiras contra a opressão / e no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão”. O Jesus-poético, alinhado ao Jesus dos evangelhos e a todas as pessoas e grupos que empenham esforços por um mundo mais humano e fraterno, pode ser encontrado na luta e na ternura que se alimentam mutuamente para verem operadas as transformações necessárias.

O caminho de dor que a Mangueira percorre com o Jesus-poético, para além da Sapucaí, mostra que a mensagem inaugural pode ter caído em esquecimento pelos crentes. Apesar da crucificação de Jesus ser uma das cenas mais conhecidas de todo o mundo, de estar presente na literatura, arquitetura, música, entre outros, será mesmo que todo o povo entendeu o recado? A pergunta indica uma negativa, porque os sistemas alimentados pelos “profetas da intolerância”, não cessam de “cravejar”, com uma infinidade de instrumentos, os corpos daqueles com os quais o Jesus-poético se identificou no início do poema. Esses falsos profetas são homens e mulheres, e podem estar em todos os lugares, inclusive nas religiões mais piedosas, tal como no tempo de Jesus de Nazaré.

A experiência humana ensinou que “a esperança brilha mais que a escuridão”. E a história cristã é testemunha disso. As trevas não podem deter o despontar da manhã, a pedra rolada do túmulo, os panos dobrados no chão, a força resistente da vida. Mas, para isso, é preciso ainda insistir com o povo para que desperte a consciência, para que “pegue a visão”: o futuro é a partilha. 

É errôneo, para a fé e para a favela, acreditarem, tal como o povo no tempo do Jesus bíblico, que a libertação da maldade se dá pela violência das armas. Por isso mesmo, o “messias de armas na mão” é todo aquele que aparece publicamente propagando a falsa ilusão da superação da violência pela violência, deturpando a mensagem do amor, da paz e da justiça, a única que é portadora de futuro e vida. Esse “messias” é velho conhecido do povo brasileiro, e, muitas vezes, é a parcela útil do povo no exercício cidadão ou a parcela dos fiéis piedosos e desprovidos de ética humano-cristã.

A última estação da via sacra é a certeza de que o céu ouvirá “o desabafo sincopado da cidade”, o grito engasgado por mais vida e direitos. A cruz é ressignificada e tomada como esplendor que reverbera a vitória do povo, “que é semente do seu chão” e que se manteve resiliente durante os dias mais difíceis. O tambor que repica na Sapucaí é o tambor da resistência afro-brasileira, cujo som se assemelha à terra que treme na morte prematura dos justos em todos os tempos e lugares.

Por sua ousadia e profecia em retomar hermeneuticamente os sinais dos tempos à luz das milenares narrativas cristãs, a Mangueira será acusada, levada a um julgamento vadio pela corte dos poderosos e religiosos e imputada de pecados pelos juízes injustos. Nenhuma novidade ao longo de mais de dois anos de história que separa o Filho de Deus da Estação Primeira de Mangueira e do seu Jesus-poético.

Por isso mesmo, a teo-poética do samba enredo mangueirense pode ajudar muito os cristãos nos retiros e meditações durante e posteriormente ao carnaval. Precisamente, porque o samba nos ajuda a ler nossos dias a partir da imagem de um Jesus-poético que dialoga sem intransigências com o homem Jesus de Nazaré, pregador de um amor que revoluciona e incomoda toda vez que é vivido ou evocado.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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