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18/02/2020 | domtotal.com

A tinta invisível

Nobel de literatura traz romance com trama sutil, não muito clara, mas nem por isso menos interessante

Patrick Modiano, autor de 'A vida invisível', foi Nobel de Literatura em 2014
Patrick Modiano, autor de 'A vida invisível', foi Nobel de Literatura em 2014 (AFP)

Lev Chaim*

Tudo começou em Paris, em 1965. O jovem Jean, trabalhando para um escritório de detetives, estava à procura de uma jovem desaparecida, com o suposto nome de Noelle Lefebrve. Para essa tarefa, ele estava de posse de uma foto da moça, pela qual não se podia adivinhar a cor do cabelo nem dos olhos; assim como do seu antigo endereço, pois algumas cartas que lhe tinha sido enviadas voltaram para os correios por não terem encontrado a destinatária. E por último, ele estava de posse do endereço de um café que ela havia frequentado. E era só.

Com isso em mãos, Jean se perguntava o que mais ele teria que fazer para encontrar a moça e reconstruir toda a história de seu desaparecimento.

É a partir deste ponto inicial que o novo romance do escritor francês, Patrick Modiano, Nobel de Literatura de 2014, A tinta invisível, se desenvolve e cresce em sua história de rastreamento da jovem desaparecida.

A primeira dimensão extra do livro você percebe quando descobre que o personagem principal, Jean, quer se tornar um escritor e espera que este caso possa ajudá-lo nesse seu desejo latente. Ele espera que, mais cedo ou mais tarde, consiga material suficiente sobre a moça desaparecida para poder iniciar a escrita do livro. Um detalhe interessante é que Jean tinha em 1965, data do início desta busca, a mesma idade do autor do romance, Patrick Modiano: vinte anos.

Em um primeiro momento, o caso não parece ser fácil, pois Jean levou os velhos dossiês para casa para estudá-los com cuidado, após outros detetives mais experientes terem falhado na tarefa e desistido da busca. Percebe-se que num determinado momento, a jovem começou a fascinar o rapaz. Tempos depois, quando descobriu mais dados sobre ela, por acaso, esta se tornou uma obsessão para Jean, que percebeu o que estava se passando, mas não tinha a menor explicação do porquê dessa coisa toda.

Será que ele estaria, aos poucos, se apaixonando por ela? Poderia ser? Apaixonar-se por alguém que você não conhecia? O autor afirmou que sim, pois bastava ter um pouco de fantasia e isso é o que não faltava nessa história.

O autor trabalhou com maestria nesse livro que conta que o jovem se apaixonou por uma moça que ele nunca havia encontrado em sua vida. Com tão poucos dados, Modiano desenvolveu uma história fantástica como poucos o fariam. E eu me pergunto: Se Jean e o autor, em 1965, tinham a mesma idade, seria esse romance com toques de suspense autobiográfico?

Após alguns anos, Jean encontrou-se com pessoas que conheceram a jovem desaparecida e que estiveram com ela há bem pouco tempo. Excitante. De pequenos sinais de vida da moça, Jean começou ainda mais fantasiar a história. Num determinado ponto, parece que ele próprio começou a ter certas recordações dela. Frente aos que a conheceram, Jean dizia que ele era amigo dela, da mesma região de onde ela veio. Depois de dizer isto várias e várias vezes, Jean começou a acreditar nessa história e tinha, algumas vezes, a impressão de tê-la encontrado e até mesmo conversado com ela. De qualquer forma, os leitores têm pouca informação sobre Jean e, agora, têm muito mais informações da desaparecida. Para Jean, era como se só ele soubesse como encontrá-la e sua história estivesse escrita com uma “tinta invisível” que, aos poucos, vai se tornando legível.

Num determinado momento você se pergunta: essa história toda é contada por Jean, mas quão confiante seria este narrador que queria se tornar escritor? Por diálogos que ele ouviu das pessoas que encontrou e que haviam falado com a moça desaparecida, ele parece se lembrar muito pouco, pois já se passou algum tempo. No entanto, mais tarde, apareceram verdadeiros diálogos e como eram as expressões dos rostos das pessoas que haviam falado com a moça desaparecida. De Jean, os leitores sabiam que ele tinha um passaporte belga, que queria se tornar escritor e que era uma pessoa que mais observava do que entrava em ação. Jean, próprio, achava que ele tinha um certo talento em descrever outras pessoas, “por curiosidade e desejo de entender os diversos nós da vida de uma pessoa, coisa que elas próprias não eram capazes”.

Em muitos livros escritos por Modiano, parecia sempre que ele não tinha uma verdadeira trama de uma história, uma coisa intrigante e que merecesse ser descoberta. Eu afirmo que esse autor, neste livro, tem sim uma trama a ser descoberta, mas trata-se de uma trama sutil, não muito clara, mas nem por isso menos interessante. De qualquer forma, essa nova história de Patrick Modiano tem um desenrolar surpreendente. E como já havia dito antes, eu me pergunto novamente: essa história seria verdadeira? Ou apenas uma fantasia de Jean? Por essas e outras, acho que você, caro leitor, já se deixou ser alfinetado com a agulha da curiosidade e vai querer mesmo ler o resto da história. Comigo aconteceu a mesma coisa! E o livro, já lhe adianto, é curto, tem apenas 142 páginas. Um abraço!

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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